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2. LITERATURE REVIEW

2.2 S ELF -A WARENESS T HEORY

Nosso Deus, eu fiquei tão alegre! Falei assim: ah, meu Deus! Eu achei que esses negócio não era assim não... Que os menino da universidade podia participar, ficava aqui com nóis... (...) Esse negócio é bom demais. (...) E achei que pessoas da

universidade não ia querer vim aqui... Entrar no meio...

Maria de Lourdes, 26/10/2006 O Coletivo TERRAS (Trabalho e Estudo em Reforma Agrária e Saúde) é um grupo interdisciplinar criado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) por alunos e profissionais de diversas áreas para trabalhar a demanda da saúde no meio rural. Esse grupo autônomo, não-hierárquico e sem fins lucrativos compreende que os saberes acadêmicos e populares não se dissociam, mas se complementam na construção do conhecimento.

53 Veterinária, Enfermagem, Odontologia, Letras, Biologia, Ciências sociais, Engenharia, História, Farmácia, Terapia Ocupacional, Medicina e Psicologia são algumas das áreas representadas por membros desse Coletivo, buscando trabalhar no sentido de construir uma prática transdisciplinar (CARTA DE

Coletivo TERRAS, Seminários de Gestão (3 fotos acima) e de Formação

TRANSDISCIPLINARIDADE, 1994). O Coletivo TERRAS trabalha para a construção de uma sociedade onde as relações entre

os homens privilegiem as

potencialidades e faculdades do ser

humano, sublinhando sua

capacidade para a criação e transformação da realidade social. Os objetivos desse grupo são: usar do estudo e do trabalho como meios para transformar a atual sociedade em outra mais fraterna, justa, participativa e igualitária; desenvolver ações em conjunto com comunidades marginalizadas,

decorrentes de demandas

elencadas por elas mesmas, visando à permanência das atividades mesmo após a saída do Coletivo; trabalhar a formação do conhecimento sempre por meio do diálogo entre saberes acadêmicos e

populares; contribuir na

concretização das reivindicações e sonhos dos movimentos sociais

populares; propagar o

conhecimento gerado em suas ações para outras comunidades

populares e universitárias, apoiando o movimento estudantil combativo; promover extensão e pesquisa sob a perspectiva de que a universidade pública deve servir ao povo.

É importante sublinhar que a pesquisa e extensão propostas pelo grupo não têm caráter tecnocrata / assistencialista, visto que, aos nossos olhos, esse tipo de ação não tem sustentabilidade. Compreendemos que “em cada mil pessoas podando os galhos do mau há uma tentando arrancá-lo pela raiz, e é bem possível que aquele, que dedica a maior parte do seu tempo e dinheiro socorrendo os necessitados, esteja contribuindo com seu modo de vida para gerar a mesma miséria que se esforça em vão por aliviar” (THOREAU, 1984). Esse aspecto da atuação do grupo era constantemente sublinhada na área.

O grupo adota um conceito de saúde ampliado, acreditando que esta tem determinantes sociais e que também se concebe como a capacidade de intervenção social em busca da transformação da realidade que nos cerca.

O grupo se organiza nas frentes rural e urbana, e, internamente, nos setores comunicação, formação e financeiro. Cada integrante do grupo participa de pelo menos uma frente e um setor. A pesquisadora integrou a frente rural e o setor de formação.

Por avaliar que a proposta dessa pesquisa ia ao encontro dos princípios do grupo, no Seminário de Gestão do Coletivo TERRAS, em março de 2006, este Coletivo resolveu arcar com os custos mínimos de execução, financiando passagens terrestres, fitas cassetes, pilhas, material de escritório, reprografia e despesas com alimentação, viabilizando sua execução.

Toda a frente rural do Coletivo TERRAS também atua no assentamento

Ho Chi Minh, tendo sido imprescindível a participação do grupo para a

realização da presente pesquisa. Os membros desse coletivo contribuíram como pesquisadores-observadores, ampliando o olhar da pesquisa e a análise crítica da sua conjuntura. Em reuniões do Coletivo, o desenvolvimento dessa pesquisa era freqüentemente descrito e discutido. O envolvimento do TERRAS na área foi muito além do trabalho intelectual.

Quando eles chegou aqui pra mim, aquilo foi uma outra coisa, eu fiquei muito, muito contente. (...) Melhorou (...) aqueles nervosismo assim que eu tinha. (...) Muita coisa que eu era muito sistemática... (...) O Elizeu [marido de Maria de Lourdes] até fala: Por quê que eu sou assim agora? Porque antes eu... Se chegasse um homem aqui e ele fosse chegando, e fosse entrando, e fosse lá pra perto do fogão, ou entrasse ali no

55 quarto eu já brigava. Pra mim isso tava errado, agora não. Contanto que chega com respeito... Os menino tudo chega aí, me abraça... Ih, minha fia! Era um desespero, se

ingual um rapaz daqueles me chega, me abraça, me beija, era um desespero,

pergunta esse daí [e aponta para Elizeu]. Eu já saía xingando... (...) Só que agora eu

converso, os menino chega aqui e me abraça, eu fico toda alegre e feliz. Que eu

sei que é por uma amizade, um carinho até de mãe mesmo. (...) Aí eu fico toda contente. Até falo com eles assim: (...) cês é tudo os meus filhos. (...) Agora não,

porque eu entrei pra esse Movimento, (...) que eu converso com os menino estudante, converso com eles, pergunto pra eles, preles me explicar alguma coisa que eu não entendo, que eu num sei, eles... Tem muita paciência, carinho, cuidado comigo, conversa comigo... E eles num sabe nem... Às vezes eles tão assim: “mas a Dona Maria é muito curiosa”. Mas eles nem possa imaginar eles porque que eu tou perguntando. Num é que eu sou curiosa. É porque eu tou me libertando de uma coisa que eu num era. (...) E isso é saúde pra gente, né, Ana? Tudo é saúde, né? (...) Se você ficar deprimida, com vergonha de tudo... É muito ruim,

Deus me livre. Só Deus mesmo, né? E assim, Ana, foi muito bom.

Maria de Lourdes, 26/10/2006 Essa pesquisa-ação chegou no assentamento Ho Chi Minh logo nos primeiros contatos do TERRAS na área, tendo uma profunda relação com a presença desse coletivo ali.

Coletivo TERRAS, Seminário de Gestão

Essa aí é a primeira proposta, de trabalhar com as ervas, que vai ser uma coisa assim, que vai beneficiar o assentamento inteiro, né? E tem outros projetos. Eles tem outras idéias. (...) Tem

outras pessoas com outras habilidades que (...) pode tar trazendo pra desenvolver. No causo dele ali [aponta para o Paulo, estudante de história integrante do TERRAS] ele é (...) historiador, né, pra gente fazer um resgate, levantar a história do Ho Chi Minh, entendeu, ele pode tar contribuindo nessa parte. (...) Tem pessoas que já tá com outros projetos, tá formando em outras áreas... (...) Veterinária, essas coisas todas. (...) É um projeto que a

gente tem que abraçar e aproveitar a boa vontade deles de tar, de trazendo isso aqui pra gente, e aproveitar bem e envolver todo mundo mesmo.

Narli, 08/05/2006

3.1.2 I Encontro Terra Livre: Saúde Como Prática De Liberdade – O