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For søndre vaarsilddistrikt

In document FISKERIER FOR (sider 38-46)

l Søndre-Bergenhus amt

I. · For Romsdals amt

3. For søndre vaarsilddistrikt

Filho de uma empregada doméstica, a já citada Dona Leonor, e de um pai marinheiro, cavaquinhista e metido a conquistador, Kéti nasceu em Inhaúma, Zona Norte do Rio de Janeiro, bairro que já em meados do século XVII se destacava como área de pequenos portos e denso comércio e que, desde o final do século XIX, vinha observando os reflexos da abertura da Avenida Automóvel Clube e da implantação da Estrada de Ferro Rio D´Ouro, que mais tarde, em 12 de março de 1983, se transformaria na Linha Auxiliar do metrô.

Depois que o pai morreu de uma “xícara de café”, assunto que trataremos em breve, Kéti mudou-se com a mãe para a casa do avô, em Bangu. Embora ainda fosse passar em um curto período pelos bairros de Dona Clara, Piedade e, finalmente, Bento Ribeiro, onde moraria de 1935 até meados da década de 1970, quando se mudaria, por pouco tempo, para a cidade de São Paulo, foi ali, em Bangu, com o avô, tocador de flauta e piano e amigo de Pixinguinha e Cândido das Neves, que Kéti desenvolveria curiosidade e apreço pela música; e foi ali também que, sempre atento ao que faziam nas festas organizadas por seu avô e observando quietinho a maneira pela qual as notas

66 Mais informações acerca do período disponíveis em SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A

canção no Tempo: 85 anos de músicas brasileiras (1901-1957). vol. 1. São Paulo: Editora 34, 1997.

eram geradas, fora apelidado de Zé Quieto ou Zequéti, que mais tarde, com a voga dos nome com “K” como Kennedy, Khrushchev e JK, se transformaria em Kéti, o Zé Kéti.

De fato, o próprio Zé explicaria no palco do Show Opinião a origem do apelido:

Esse negócio de apelido: você sabe porque é que me chamo Zé Kéti... É o seguinte: quando minha mãe ficou sozinha pra (sic) me sustentar, ela foi ser empregada doméstica. Quando minha mãe voltava diziam pra ela: “o Dona Leonor, o Zé ficou quieto. O Zé ficou quietinho. Zé quietinho, Zé quietinho. E acabou Zé Kéti. Aí então comecei a escrever meu apelido com “K”. “K” tava dando sorte, tava por cima: Kennedy, Khrushchev, Kubitschek.67

O caso é que, morando em Bangu com o avô, Kéti pôde aproveitar os resquícios de um ambiente ainda bastante rural, dotado de um cotidiano marcado por festas de igreja à moda antiga, onde as ruas eram decoradas com bandeirinhas coloridas, tomadas por barracas de prendas e comidas caseiras, cheirosas e saborosas que deveriam dominar o olfato dos que por ali passassem e o paladar daqueles que ao cheiro não conseguissem resistir. Fora isso, a audição seria estimulada pela bandinha da região e, claro, pelas procissões. Por fim, um foguetório daria mais cor à festança da região que, nos dias “normais”, teria um cotidiano marcado pela vaca leiteira, o quitandeiro, o vassoureiro, o saboeiro, por resquícios, enfim, de uma vida carregada de hábitos que dentro em pouco se esvairiam da região, uma vez que, desde 1882, assim como em Inhaúma, ali também já havia chegado o trem, e junto dele variadas transformações.

Signo de um período de profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais não apenas da cidade do Rio de Janeiro, mas do próprio Brasil, a ampliação das linhas de trem na cidade podem ajudar a compreender de que maneira os primeiros anos de vida de Kéti estariam geográfica e historicamente localizados, influenciando o cotidiano desse sujeito-personagem.

Em artigo que relaciona o samba e o crescimento das linhas de trem no Rio de Janeiro da virada do século XIX para o século XX, o historiador Carlos Eduardo Dias Souza comenta:

Foi no mesmo período em que se iniciaram as intervenções urbanas que as estradas de ferro Dom Pedro II e Leopoldina aumentavam o número de composições para os subúrbios da cidade, que viam seu crescimento acelerar na mesma velocidade das locomotivas. Tal processo possibilitava a uma população mais pobre deslocar-se no espaço urbano em busca de moradias mais em conta. Como opções, havia os morros: a Providência já era habitada há anos, e viu sua população crescer ainda em meados do XIX, quando o Morro da Favela começaria a adensar. Ademais, o Rio oitocentista contava

67 KETTI, Zé; LEÃO, Nara; VALE, João do. Show Opinião. Rio de Janeiro: Polygram/Philips, 1965. LP.

Disponível em: <www.discosdobrasil.com.br/discosdobrasil/consulta/detalhe.php?Id_Disco=DI00370> Acesso em: 10 jun. 2013.

com outros morros bem no centro da cidade. Lembremos que os Morros do Senado, de Santo Antônio e do Castelo faziam parte da paisagem carioca até relativamente pouco tempo. Os três últimos, destruídos, lançavam no espaço urbano uma população sem destino: quanto mais longe do centro civilizado, melhor. E é aí que o trem entra em nossa história.68

Mas a quais intervenções urbanas Souza faz referência?

Pode-se dizer que, desde a chegada da Família real ao Brasil, em 1808, um ideal remodelador urbano europeu tornou-se comum nas discussões arquitetônicas do país e, principalmente, da cidade então sede da coroa, e que apesar das discrepâncias sociais que produziam tais ideias de embelezamento e enquadramento essas tendências europeias seriam recolocadas na ordem do dia, com intensidade e intenções renovadas, na virada do século XIX para o século XX. Mais especificamente foi no Pós- Proclamação da República que as elites brasileiras, desejosas por “modernizar” não apenas os seus preceitos políticos e econômicos, mas também a estética de seu principal centro político, empreenderiam uma série de novas modificações que, de maneira bastante direta, flagelariam, uma vez mais, as classes mais pobres e carentes da cidade.

Esse período seria, então, aquele em que as elites do Rio de Janeiro voltariam suas preocupações primeiramente para os cortiços e, em seguida, para as favelas.

Algo diferente, porém, marcou essas novas intervenções urbanísticas, caracterizando uma informação bastante relevante para que se possa compreender até que ponto essas já antigas preocupações chegaram no período da República Velha: trata-se do tipo social representativo do novo regime. Nas palavras de Nicolau Sevcenko:

Se os conflitos políticos tendiam a decantar os agentes cuja qualidade maior fosse a moderação no anseio das reformas, as agitações econômicas, por seu lado, apuravam os elementos predispostos à “fome do ouro, à sede da riqueza, à sofreguidão do luxo, da posse, do desperdício, da ostentação, do triunfo.69

De acordo com o autor, não se fala mais de uma Rio de Janeiro dividida entre os membros de uma corte real e os excluídos dela, mas, sim, de uma Rio de Janeiro dividida entre os membros pertencentes a uma certa burguesia e os excluídos dela.

Todo o poder e toda a cobiça, anteriormente possíveis apenas a uma minoria ligada à casa real, espalhavam-se agora pelas casas, cafés e escritórios de uma sociedade ainda perdida na novidade de sua posição política. Sevcenko, para quem a reconstrução

68 SOUZA, Carlos Eduardo Dias. E o samba pegou o trem: cultura e sociabilidade popular no subúrbio

carioca na primeira república. XIV Encontro Nacional da ANPUH – RIO, Rio de Janeiro, 2010.

desse “quadro social” também se fazia mister, cita um autor contemporâneo ao período da República Velha que relata que aquela sociedade se tornava “desabalado torvelinho de interesses ferozes, onde a caça ao ouro constitui a preocupação de toda a gente”.70

Pensado o quadro social representativo daquela que se configuraria como a capital da República brasileira faz-se necessário compreender as demais situações políticas e econômicas correntes nesse espaço e, nesse ponto, não falamos “apenas” da capital do Brasil, o que já faria dela uma peça fundamental nas decisões políticas brasileiras, mas, também, de uma Rio de Janeiro que economicamente se sobrepunha ao resto do território nacional: Núcleo da maior rede ferroviária do Brasil, mantinha um contato direto com o Vale do Paraíba, os estados do Sul e do Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso e, por meio do comércio de cabotagem, com cidades do Nordeste e do Norte.

Frente a essas características sociais, políticas e econômicas tão urgentes, exibia- se, envergonhada, uma cidade anacrônica, que insistia em lembrar a burguesia, a política e a economia daquele Brasil tão dono de si, o seu passado colonial, atrasado e nada moderno.

A passagem a seguir, embora longa, torna-se extremamente valiosa para compreendermos como essa cidade antiga começaria a incomodar os novos anseios da República brasileira:

O antigo cais não permitia que atracassem os navios de maior calado que predominavam então, obrigando a um sistema lento e dispendioso de transbordo. As ruelas estreitas, recurvas e em declive, típicas de uma cidade colonial, dificultavam a conexão entre o terminal portuário, os troncos ferroviários e a rede de armazéns e estabelecimentos do comércio de atacado e varejo da cidade [...] Era preciso, pois, findar com a imagem da cidade insalubre e insegura, com uma enorme população de gente rude plantada bem no âmago, vivendo no maior desconforto, imundice e promiscuidade, pronta para armar em barricada as vielas estreitas do Centro ao som do primeiro grito de motim.71

Vale apontar que, além das intenções mencionadas, uma nova “preocupação” configuraria as novas intervenções que serão realizadas na cidade, trata-se da ideia sanitarista ou, ainda, higienista que estará na “ordem do dia” durante o período relatado. Tratar-se-á, portanto, de um momento em que os saberes médico e arquitetônico estarão unidos em prol da construção de uma nova Rio de Janeiro, mais republicana, mais europeia e mais limpa. Nas palavras de Risério:

70 Ibidem, p. 37. 71 Ibidem, p. 41.

O Regime Republicano deve se traduzir em intervenções visíveis na materialidade do espaço urbano e, nessa tarefa, engajaram-se médicos, arquitetos, engenheiros, urbanistas, homens que faziam discurso racionalista e se sentiam imbuídos da missão da transformação nacional.72

Embora desde o último quartel do século XIX a cidade já fosse objeto de planos de saneamento e infraestrutura, é a partir de 1904, com a entrada de Pereira Passos na prefeitura do Rio de Janeiro, que projetos de alinhamento, remodelação, extensão e embelezamento serão levadas a cabo de maneira sistemática.

Figura 3 Jornal do Brasil. Especial "Jornal do Século", 1903.73

Durante as primeiras décadas do século XX, portanto, as intervenções de Passos seriam bastante intensas: em torno de 2.700 prédios foram destruídos, alguns para dar lugar a novas praças e passeios, outros para dar lugar a abertura de novas avenidas ou mesmo tendo como fundamento a reconstrução de moradias dentro das noções de higiene apropriadas. O fato que não podemos deixar de sublinhar, no entanto, é que não se derrubam prédios sem antes retirar seus moradores de dentro deles; e mais: sem que uma intensa mudança de hábitos sociais e culturais ocorram.

Durante o ano de 1922, quando Carlos Sampaio era o prefeito da cidade, teríamos o famoso desmonte do morro do Castelo, um local que, para as elites do período, não possuía mais espaço ou motivos para “ser” uma vez que representaria um forte resquício de cidade colonial e popular o que, evidentemente, deveria ser apagado da memória patrimonial da cidade. Não nos esqueçamos, que a data de 1922 representaria, em meio a esse turbilhão de intenções médicas, sanitaristas e

72 RISÉRIO, op. cit. p. 194.

73 Disponível em: <http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=6588> Acesso em 13 de jul.

embelezadoras, o centenário da proclamação da Independência do Brasil. Era mais do que urgente, portanto, apagar os ares coloniais que pudessem ainda reinar na cidade do Rio de Janeiro.

Como diria Vera F. Rezende, é como se colocassem nas mudanças físicas, nas remodelações e no embelezamento da cidade a possibilidade de se atingir mudanças sociais.74 Como dito anteriormente, essas reformas provocariam, na verdade, uma divisão social geográfica cada vez maior que, desde os tempos de D. João VI, eram efetivadas sem que parecessem, no entanto, percebidas.

A expansão da malha ferroviária carioca representou, portanto, ao mesmo tempo, uma forma de o governo escoar produtos para o comércio e afastar do centro da cidade as massas populacionais que, por sua origem, cor ou costumes, não eram bem- vindas e agora, por conta dos desmontes de morros e regiões, precisavam de um meio de transporte capaz de trazê-las, em horário comercial, para o centro.

No entanto, de maneira bastante interessante, ao mesmo tempo em que os trens representavam um meio para afastar certos grupos do centro da cidade, em sua maioria negros, descendentes de ex-escravos, estes acabaram “reutilizando” esse espaço como um locus de propagação e resistência de expressões culturais ligadas a esse grupo, principalmente, o samba.

Os trens viraram, dessa forma, ambiente de convívio e troca social e cultural, ao mesmo tempo em que representavam um espaço de resistência:

O Jornalista Claudio Vieira declara que o samba ganha rumo na direção ao subúrbio sobre os trilhos nas décadas de 30 e 40. As composições atrasavam muito na saída da Central do Brasil, fato que irritava os passageiros, exceto os passageiros do trem das 18h04min, horário de encontros de sambistas. Esses passageiros ao saírem do trabalho, diariamente tinham um encontro com o samba no vagão, logo, não se incomodavam com a demora da saída das composições, pois era uma oportunidade de encontrarem os compositores das Escolas de Samba do Subúrbio, situadas ao longo da malha ferroviária. Os passageiros do trem das 18h04 iniciavam seu percurso com uma batucada na Praça da Bandeira e só terminavam na Pavuna. As marmitas dos sambistas eram usadas para tamborilar e os bancos dos trens eram surdos de marcação. (VIEIRA, 2008, apud, SILVA, 2013, p. 102).75

De maneira parecida, alguns polos da cidade possuiriam um caráter de preservação e propagação de questões caras à população negra. Um dos mais clássicos

74 REZENDE, Vera. Planejamento e ideologia: quatro planos para a Cidade do Rio de Janeiro. Rio de

Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. p. 37

75 SILVA, Cristina da Conceição. O samba do Rio de Janeiro: elementos socializadores dos grupos

étnicos nos quintais de Madureira e Oswaldo Cruz. Dissertação (Mestrado) – Universidade do Grande Rio “Professor José de Souza Herdy”, Duque de Caxias, 2013.

exemplos disso fica por conta da famosa Tia Ciata, sua casa e a igualmente icônica “Praça Onze”.

De acordo com Moura:

Na sua casa, capital do pequeno continente de africanos e baianos, se podiam reforçar os valores do grupo, afirmar o seu passado cultural e sua vitalidade criadora recusados pela sociedade. Lá começam a ser elaboradas novas possibilidades para esse grupo excluído das grandes decisões e das propostas modernizadoras da cidade, gente que progressivamente se integraria, a partir do processo de proletarização que se acentua no fim da República Velha e da redefinição de sua vida cultural, com a solidificação das novas instituições populares, legitimadas e submetidas pela legislação de Vargas. Da Pequena África no Rio de Janeiro surgiriam alternativas concretas de vizinhança, de vida religiosa, de arte, trabalho, solidariedade e consciência, onde predominaria a cultura do negro vindo da experiência da escravatura, no seu encontro com o migrante nordestino de raízes indígenas e ibéricas e com o proletário ou o pária europeu, com quem o negro partilha os azares de uma vida de sambista e trabalhador.76

Vale lembrar que a casa da Tia Ciata não era a única que possuía tal caráter integralizador, uma vez que as famosas “tias” se espalhavam, principalmente em torno da extinta Praça Onze e de regiões próximas a esta, como a zona do cais do porto e a Cidade Nova, pontos que, de acordo com Heitor dos Prazeres, podiam ser reconhecidos como a “Pequena África” ou, ainda, de acordo com Azevedo, locais onde poderiam ser percebidas as “micro-Áfricas”, lugares que diante da metropolização e verticalização inseridas no processo de urbanização das elites hegemônicas da cidade, configuravam- se como um contraponto dissonante às formas culturais dominantes para operar outras cidades e outras vivências.77

A Praça Onze, no entanto, como tantos outros pontos hoje extintos da cidade do Rio de Janeiro, foi “abaixo” para que a moderna cidade republicana pudesse continuar a ser construída. A demolição, que teve início no ano de 1942 para ceder espaço à parte da famosa Avenida Presidente Vargas, não apagou, no entanto, a memória do que significou aquele lugar.

Praça 11, Berço do Samba (1973)

Favela Do Camisa preta

76 MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro;

Secretaria Municipal de Cultura, Dep. Geral de Doc. e Inf. Cultural, Divisão de Editoração, 1995. p. 152 – 153.

Do Sete coroas Pra ver o teu samba

Favela

Era criança na praça onze Eu corria pra te ver desfilar

Favela

Queremos teu samba Teu samba era quente Fazia meu povo vibrar

Até a lua a lua cheia Sorria, sorria

Milhões de estrelas brilhavam por um lugar melhor Queriam ver a Portela

Mangueira, Estácio de Sá

E a favela com as suas baianas tradicionais Brilhavam mais do que a luz do antigo lampião a gás

Fragmentos de brilhantes Como fogos de artifícios Desprendiam lá do céu

E caiam como flores na cabeça das pastoras E do samba de Noel

Correrias e empurrões Gritarias e aplausos

E o sino da capela não parava de bater Os malandros vinham ver Se o samba estava certo, se

Enquanto as cabrochas Gingavam no seu rebolado

No ritmo da batucada De olho cumprido Que nem bobinho

Eu terminava dormindo na calçada De olho cumprido

Que nem bobinho

Eu acabava dormindo na calçada

Kéti, assim como Herivelto Martins e Grande Otelo,78 eternizou, em um samba, o que a Praça Onze havia significado imagética e sonoramente e o que com ela teria sido de certa forma “deixado pra trás”. Além disso, o autor mistura uma série de referências quase mitológicas em relação ao samba e ao próprio locus do morro da Favela que, de maneira direta, representariam, para ele, o que o samba feito na Praça significaria.

A letra inicia fazendo referência a dois famosos “desviantes”79 ou malandros

Camisa Preta e Sete Coroas –, que habitavam a chamada Favela, hoje, Morro da Providência, famoso principalmente por ter como ponto importante de sua história a marca de ter sido a primeira “favela carioca”. Kéti também cita, sem fazer juízos de valor, as três grandes escolas – Portela, Mangueira e Estácio de Sá –, que tiveram os seus primeiros anos como “escola”, ainda nas ruas de tal Praça que, para além de um lugar de competição, é apresentada como um local de festa e felicidade, onde Noel Rosa, as cabrochas, os malandros e a própria igreja teriam espaço.

A Praça Onze, enfim, seria esse local de “Correrias e empurrões, Gritarias e aplausos” assistido pela lua e pelas “milhões de estrelas que brilhavam por um só lugar”; esse lugar que fazia com que o pequeno José Flores de Jesus adormecesse, ali mesmo, sorrindo.

Em outras oportunidades podemos observar como as transformações urbanas da cidade do Rio de Janeiro influenciaram, diretamente, a vida de Kéti. Vê-se mais um exemplo disso na ocasião que levou o autor a compor o famoso samba “Jaqueira da Portela”:

Derrubaram a Jaqueira pra fazer a sede nova. Aí, eu fiquei penalizado. Me deram até um carrinho de mão pra mim puxar areia, terra, barro, pra limpar, porque a Portela nessa época, foi em 1940 e pouco, a Portela estava

78O samba em questão, campeão do carnaval de 1942 e intitulado como “Praça XI” dizia: “Vão acabar

com a Praça Onze/ Não vai haver mais Escola de Samba, não vai/ Chora o tamborim/ Chora o morro inteiro/ Favela, Salgueiro/ Mangueira, Estação Primeira/ Guardai os vossos pandeiros, guardai/ Porque a Escola de Samba não sai/ Adeus, minha Praça Onze, adeus/ Já sabemos que vais desaparecer/ Leva contigo a nossa recordação/ Mas ficarás eternamente em nosso coração/ E algum dia nova praça nós teremos/ E o teu passado cantaremos”

79 Termo dado a Sete Coroas pela grande imprensa do Rio de Janeiro. Para uma análise mais detalhada

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