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Os resultados do teste est˜ao agrupados na Tabela 5.5. Observa-se que os perfis de maior sucesso foram os artificiais, especialmente Artificial-6 (sem modo fr´ıgio), que obteve uma taxa geral de sucesso de 85%. As m´usicas do corpus Campin foram “mais f´aceis” de identificar do

que as do corpus Paz. Os piores resultados foram para as tentativas de identificar os modos do

corpusPaz atrav´es dos perfis obtidos do corpus Campin: apenas 49% de sucesso.

Em v´arios casos, o modo correto ficou em segundo lugar (ou empatado em primeiro com algum outro modo). Quando combinados os resultados em que o modo correto ficou em 1.oou 2.o lugar (incluindo empates), o percentual geral (testes nos dois corpora) atinge 89% com os grupos de perfis Artificial-7, Artificial-6 e Paz, e com os perfis Campin atinge 83%.

Tabela 5.5: Taxa de sucesso dos grupos de perfis

Grupo de perfis CorpusPaz CorpusCampin Paz+ Campin

Artificial-7 49/71 (69%) 48/52 (92%) 97/123 (79%)

Artificial-6 55/71 (77%) 45/47 (96%) 100/118 (85%)

Campin 35/71 (49%) 44/52 (85%) 79/123 (64%)

Paz 46/71 (65%) 34/47 (72%) 80/118 (68%)

5.4

Discuss˜ao

Os resultados dos testes mostram razo´avel sucesso do uso de perfis de classes de alturas para identificac¸˜ao de modos.

Surpreendentemente, a despeito de sua simplicicade, os perfis artificiais mostraram-se bas- tante satisfat´orios, e de fato foram os perfis que obtiveram os melhores resultados nos testes. A hierarquia do “espac¸o b´asico” de Lerdahl (2001) mostra outra vez sua relevˆancia, servindo de fundamento `a construc¸˜ao de perfis.

Adicionalmente, nota-se que nem sempre usar perfis “aprendidos” de um repert´orio musical ´e a melhor opc¸˜ao. Poss´ıveis raz˜oes para a limitada eficiˆencia dos perfis obtidos dos corpora, no caso dos testes em foco, seriam: o pequeno n´umero de amostras usadas na gerac¸˜ao de perfis de referˆencia (deixando alguns modos mal representados); os crit´erios de inclus˜ao e categorizac¸˜ao de amostras (ou seja, a qualidade geral do corpus); e vieses estil´ısticos (´e de se esperar que os perfis obtidos de um dado repert´orio sejam mais eficientes para identificar o modo em m´usicas similares).

Quantitativamente, ambos corpora usados nos testes s˜ao pequenos, e o n´umero de amostras por modo ´e bastante variado. Por exemplo: para o modo l´ıdio, h´a apenas 4 amostras em cada

corpus; para o e´olio, h´a 10 em Campin e 16 em Paz; para o mixol´ıdio, o corpus Paz tem 33 amostras, mas Campin apenas 8 (ver Sec¸˜ao 5.2.1, p. 44).18

Qualitativamente, o corpus Campin foi produzido com muito maior rigor e sistematismo do que o corpus Paz. Campin (2010) apresenta os exemplos musicais separados por modos considerando o n´umero de graus, e portanto os exemplos de modos heptatˆonicos selecionados contˆem realmente todos os sete graus dos modos (e ocasionalmente algum raro grau alterado). Por seu turno, o corpus Paz, selecionado de Paz (1989), n˜ao foi verificado quanto a estarem os modos completos ou n˜ao. Nessa fonte, as m´usicas modais n˜ao s˜ao discriminadas por tal crit´erio. Al´em disso, o corpus Paz aparenta ser mais variado em gˆeneros musicais. Talvez a heterogeneidade seja um importante motivo para a baixa taxa de acertos do programa na identificac¸˜ao dos modos das m´usicas do corpus Paz. Ficam a ser pesquisadas a relevˆancia da completude/incompletude das escalas e outros poss´ıveis fatores para confus˜ao entre modos. Uma coletˆanea posterior da mesma autora (PAZ, 2002) apresenta crit´erios mais refinados para classificac¸˜ao de melodias modais, e poderia ser objeto de testes futuros.19

A presenc¸a de perfis para o modo fr´ıgio afetou negativamente os resultados. Sob um certo aspecto, pode-se dizer que o acr´escimo de perfis para modos candidatos tende a aumentar o risco de confus˜ao e reduzir o n´umero de acertos esperados do programa. Considerando-se que o fr´ıgio n˜ao ´e usual, seja na m´usica escocesa e sobretudo na brasileira, uma possibilidade pr´atica para obter melhores resultados do programa ´e descartar esse modo. Outra opc¸˜ao ´e adicionar um fator que reduza a possibilidade de escolha de modos raros pelo programa, ou seja: al´em da similaridade dos perfis, o grau de freq¨uˆencia de cada modo poderia ser pesado para se obter a melhor aposta sobre qual ´e o modo correto.

Nos testes com os perfis dos grupos Artificial-7 e Artificial-6 foi inclu´ıdo o perfil minor, referente `a escala menor harmˆonica, apesar de nenhuma m´usica nos testes estar em tonalidade menor. Mas, ao contr´ario do perfilphrygian, o perfil minor n˜ao causou confus˜ao nos resulta- dos.20

Ainda sobre o perfil artificial da escala menor harmˆonica, pode ser oportuno saber que n˜ao se trata de um perfil muito eficiente nem sequer para identificar m´usicas tonais. Os perfis Artificial-6 foram testados em todas as fugas de O cravo bem-temperado de J. S. Bach.21 O programa de identificac¸˜ao de modos associou todas as 24 fugas de n´umeros pares (em tonali- totalizaria oito amostras para o l´ıdio, por exemplo). Nos testes aqui relatados, foi priorizada a comparac¸˜ao entre os dois corpora, e por isso eles n˜ao foram mesclados.

19A fonte que foi usada nos testes (PAZ, 1989) tem a conveniˆencia de apresentar as m´usicas agrupadas por

modos (d´orico, e´olio, mixol´ıdio. . . ), cada modo com uma sec¸˜ao pr´opria. Em outra coletˆanea de Paz (2002), as m´usicas s˜ao divididas, por exemplo, em sec¸˜oes de “escalas completas” e “escalas incompletas”, e as amostras dos diversos modos se encontram espalhadas dentro de cada sec¸˜ao.

20A escala menor harmˆonica alcanc¸ou, no m´aximo, o segundo lugar em alguns casos de testes no corpus Paz. 21As pec¸as foram convertidas do formato Humdrum**kern para ABC atrav´es do programa hum2abc. M´usicas

dades menores) aos tons corretos, como modoaeolian, que ´e a escala menor natural. Al´em disso, de todas as fugas em tonalidades maiores, somente houve erro em trˆes fugas do II.ovo- lume (n´umeros 5, 13 e 15). Em resumo, das 48 fugas, o programa com os perfis Artificial-6 identificou corretamente a tonalidade de 45, acertando em 94% dos casos.22

A identificac¸˜ao da tonalidade menor (em distinc¸˜ao a modos como d´orico e e´olio) pode requerer aprimoramento do perfil, ou talvez o uso de m´ultiplos perfis — um para cada forma da escala —, como sugerido por Vuvan, Prince & Schmuckler (2011). A diferenciac¸˜ao entre

tonalidadee modo requer, portanto, mais pesquisa.23

Considerando-se as limitac¸˜oes do algoritmo e dos perfis testados, o fato de o modo correto ter figurado em segundo lugar em porc¸˜ao consider´avel dos casos de erro pode ser encarado positivamente. Primeiro, porque indica possibilidade de aprimoramento, por exemplo pelo re- finamento dos perfis.24 Al´em disso, para os fins de medic¸˜ao do grau de conformidade de um trecho musical em relac¸˜ao a um modo, resultados aproximados podem ainda ser ´uteis.