Para o controle de qualidade adequado de medicamentos é imprescindível o uso de métodos analíticos bastante sensíveis que permitam, desta forma, a determinação de quantidades mínimas de substância ativa e produtos de degradação. A escolha do método depende de vários fatores, tais como: pureza, qualidade do fármaco, quantidade da amostra, bem como a finalidade da análise, seja ela qualitativa ou quantitativa (BRASIL, 2004).
A fim de assegurar a credibilidade do método, deve-se validá-lo. A validação tem como objetivo demonstrar que procedimento analítico é adequado para a aplicação pretendida (ICH, 2005). É um processo pelo o qual se estabelece, por estudos de laboratório, que as características de desempenho do método satisfaçam às exigências para a sua aplicação (USP 33, 2010).
A validação deve ser considerada como parte de um conceito integrado que visa garantir a qualidade, segurança e eficácia dos produtos farmacêuticos (ERMER, 2001; RIBANI et al., 2004).
Com a Resolução RE n° 899 de 29 de maio de 2003a (Guia para validação de métodos analíticos e bioanalíticos); a ANVISA passou a exigir para as preparações farmacêuticas a serem registradas no Brasil, estudos de validação de suas metodologias analíticas de controle de qualidade destes princípios ativos. As metodologias precisam ser avaliadas segundo critérios previamente definidos nos parâmetros de Linearidade, Seletividade, Intervalo, Limite de quantificação, Limite de detecção, Exatidão e Robustez de acordo com a finalidade da metodologia avaliada, de acordo com a Tabela 2 (BRASIL, 2003a).
Lucas Chierentin
Tabela 2. Categorias dos testes submetidos à validação
CATEGORIA FINALIDADE DO TESTE
I Testes quantitativos para a determinação do princípio ativo em produtos farmacêuticos ou matérias primas
II Testes quantitativos ou ensaio limite para a determinação de impurezas e produtos farmacêuticos e matérias-primas
III Testes de desempenho (ex: dissolução, liberação do ativo) IV Testes de identificação
Fonte: BRASIL, 2003a.
Assim, de acordo com cada categoria são exigidos que se avaliem determinados parâmetros de maneira a comprovar a capacidade do método em fornecer resultados confiáveis, de acordo com a Tabela 3 (BRASIL, 2003a).
Tabela 3. Ensaios necessários para validação segundo categoria
PARAMETRO CATEGORIA I CATEGORIA II CATEGORIA III CATEGORIA IV QUANTITATIVO ENSAIO LIMITE Especificidade / Seletividade
Sim Sim Sim * Sim
Linearidade Sim Sim Não * Não
Intervalo Sim Sim * * Não
Precisão- Repetibilidade
Sim Sim Não Sim Não
Precisão - Intermediária
** ** Não ** Não
Limite de detecção
Não Não Sim * Não
Limite de quantificação
Não Sim Não * Não
Exatidão Sim Sim * * Não
Robustez Sim Sim Sim Não Não
* Pode ser necessário, dependendo da natureza do teste específico; ** Se houver comprovação da reprodutibilidade não é necessária a comprovação da Precisão (Fonte: BRASIL, 2003a).
Lucas Chierentin
Os critérios adotados pela ANVISA seguem os parâmetros internacionais estabelecidos pela conferência internacional de harmonização (INTERNATIONAL CONFERENCE ON HARMONIZATION-ICH).
Os parâmetros que podem ser avaliados na validação de um método, de acordo com a Resolução n°899 (BRASIL, 2003a), ICH (2005) e USP 33 (2010) são:
¾ Linearidade: corresponde à capacidade do método de fornecer resultados diretamente proporcionais à concentração da substância em exame dentro de uma determinada variação. Recomenda-se que sua determinação seja realizada, no mínimo, com cinco concentrações. Os resultados devem ser analisados por métodos estatísticos. Além disso, deve-se apresentar as curvas obtidas, o coeficiente de correlação linear e o intercepto da reta;
¾ Precisão: representa o grau de concordância entre os resultados das análises individuais quando o procedimento é aplicado diversas vezes em uma mesma amostra homogênea, em idênticas condições de teste. A precisão pode ser medida pela repetibilidade, da precisão intermediária e da reprodutibilidade. A repetibilidade é efetuada por meio de várias análises, nas mesmas condições, em um curto intervalo de tempo. A reprodutibilidade se refere ao uso do procedimento analítico em diferentes laboratórios. A precisão intermediária expressa a variação laboratorial, com o mesmo procedimento realizado em dias diferentes, equipamentos ou analistas diferentes. A precisão pode ser expressa como desvio padrão relativo (DPR);
¾ Exatidão: representa o grau de proximidade entre os resultados individuais encontrados e um valor de aceito como referência. Pode ser determinada pelo teste de recuperação, em que quantidades conhecidas de substância química de referência são adicionadas à amostra, e então recuperadas. Neste caso, é expressa como percentagem de recuperação;
¾ Especificidade e seletividade: representa a capacidade de um método de avaliar de forma inequívoca a substância em exame na presença de componentes que
Lucas Chierentin
poderiam interferir com sua determinação, tais como excipientes, impurezas e produtos de degradação;
¾ Robustez: capacidade do método de não ser afetado por pequenas modificações nas condições analíticas;
¾ Limite de Detecção: representa a concentração mais baixa da substância em exame, sob as condições experimentais específicas;
¾ Limite de Quantificação: representa a concentração mais baixa da substância em exame que pode ser determinada com precisão e exatidão aceitáveis, sob as condições experimentais específicas.
A validação de um método pode também ser entendida como um processo baseado na obtenção, documentação e análise de dados, os quais permitem tanto descrever o mesmo de forma detalhada, como identificar e controlar os fatores de variação (BREAUX et al., 2003).
O objetivo da validação é assegurar a reprodutibilidade dos resultados e o estabelecimento de limites de aceitação do erro analítico, exigindo a adoção de procedimentos de validação que conferem a confiabilidade necessária para a aplicação das técnicas de quantificação. O desenvolvimento de metodologias que permitem quantificar fármacos em matérias-primas e produtos acabados é fundamental para o controle de qualidade destes produtos tanto no âmbito da indústria farmacêutica nacional e internacional bem como em farmácias magistrais públicas e privadas (TRAISNEL et al., 1995).
Este trabalho objetiva o desenvolvimento e a validação de novos métodos analíticos de norfloxacino comprimidos.
Lucas Chierentin