• No results found

Para a coleta dos dados, foi desenvolvido um questionário simples e objetivo, que se encontra no ANEXO I. A formulação das questões se deu, em grande medida, com base no questionário (mais extenso e completo) formulado para o projeto do mapeamento encabeçado pela SENAES. Apesar do questionário aqui desenvolvido ser relativamente simples, as questões colocadas podem oferecer uma percepção interessante sobre três dimensões:

• Primeiro, buscou-se obter as informações mais gerais (além da identificação do empreendimento) sobre a forma de organização, a quantidade de participantes e o tipo de atividades desenvolvidas;

• Em seguida foram formuladas questões aos grupos sobre a dimensão econômica, como as formas de captação de recursos, os investimentos realizados, o nível de renda possibilitado e as formas de comercialização e inserção no mercado;

• Por fim, o último grupo de questões aborda o aspecto da (auto)gestão e da articulação sócio-política do empreendimento, verificando por exemplo, como se dá o processo de tomada de decisões e de que forma o empreendimento atua em benefício da comunidade em que se localiza.

Paralelamente à construção do questionário, foi feito contato com a coordenação do Fórum Mineiro de EPS para se analisar a viabilidade de sua aplicação na feira, assim como para a troca de idéias sobre que tipo de informação poderia ser relevante de acordo com a visão de quem trabalha diretamente com a ES, e de que forma o trabalho poderia trazer uma contribuição efetiva para o FMEPS. A pesquisa somou-se, ao final, a um trabalho inicial relativo ao programa de avaliação de feiras (PAF). Este é um projeto mais amplo que a SENAES pretende executar de modo coordenado nas feiras estaduais em todo o Brasil em 2005. Foi formada, assim, uma equipe com membros do FMEPS, um professor e alunos voluntários de uma faculdade localizada em BH.

Desse modo, além do questionário apresentado em anexo (que foi definido como um pré- mapeamento) foi feita a aplicação de dois outros questionários referentes à avaliação da feira. Deve-se lembrar que os questionários foram aplicados para todos os empreendimentos na feira, de diversas regiões do estado, não apenas os da RMBH, apesar

de trabalharmos aqui apenas com os grupos desta região56.

Uma feira de ES é um evento não apenas de comercialização, mas principalmente de divulgação e diálogo com toda a sociedade e também de formação, conscientização e intercâmbio de experiências entre os trabalhadores. Nesse sentido, isso facilitava o processo de aplicação dos questionários. Foram montadas cerca de cem barracas, onde dois ou três grupos dividiam o espaço em cada uma. A feira foi realizada em três dias, de nove horas da manhã às oito horas da noite, havendo, nos dois dias anteriores, um encontro de sensibilização, e diversas oficinas para discussão sobre a economia solidária, com uma grande assembléia geral, para decisões de constituição do FMEPS ao final. Durante a feira, ocorreram apresentações culturais e haveria alguns momentos para a atividade de “clubes de troca”.

Antes do início da feira foi estabelecido um certo número de grupos a serem entrevistados por cada membro da equipe a cada dia. Essa divisão foi simples, pois as barracas estavam numeradas e havia uma separação inicial entre tipos de atividades. A proposta era fazer as entrevistas nos horários de menor movimento (de manhã ou no horário de almoço) para não prejudicar o trabalho dos grupos, o atendimento ao público e não coincidir com o horário das apresentações culturais. Como no primeiro dia o movimento foi fraco, foi possível adiantar as entrevistas, que no final do segundo dia estavam quase todas realizadas. No último dia, o trabalho foi voltado quase inteiramente para a outra parte da pesquisa (de avaliação da feira, comentada anteriormente) que, é claro, só poderia ser realizada ao final desta.

Com as 250 cópias dos questionários em mãos, ficou claro que a distância entre esses dois momentos do trabalho (de formulação técnica do questionário até a sua aplicação) era imensa. Ou seja, sem os erros, acertos e as dificuldades, que necessariamente se apresentariam nesse caminho de aprendizagem, não seria possível compreender essa dinâmica. Que problemas surgiram? Primeiramente, houve pouco tempo para fazer um pré-teste no questionário, já que este até o último dia sofreu alterações. Outro problema também devido ao tempo reduzido, foi o fato de não ter sido possível uma discussão mais detalhada com os estudantes estagiários que foram responsáveis pela maior parte da

56

A análise completa do PAF e do pré-mapeamento do restante do estado ainda se encontra em execução e deve ser lançada em 2005 como um projeto do FMEPS.

aplicação das entrevistas57. Percebeu-se, durante o processo, que era necessário fazer uma apresentação, não apenas dos questionários, mas de toda discussão conceitual aos estudantes para que o questionário, apesar da relativa simplicidade das questões, pudesse ser preenchido da melhor maneira possível, para que eles pudessem dar um retorno a respeito dos problemas surgidos e enfim, para que pudessem também absorver melhor a experiência.

Outros problemas, menos relevantes, foram percebidos posteriormente como, por exemplo, equívocos em relação à diferença entre as atividades de reciclagem e de reaproveitamento58 ou a questão sobre o acesso ao crédito onde alguns responderam que não tiveram acesso a crédito, quando na verdade a resposta seria que não procuraram crédito. Por fim, percebeu- se que as questões sobre a forma de participação não poderiam nos fornecer informação para uma análise adequada, já que esse aspecto se diferencia muito, por exemplo, entre uma cooperativa formal com vinte trabalhadores de um lado e um grupo familiar com três trabalhadores de outro. Essa questão pode ser tratada de forma mais adequada nos estudos de caso.

Essas são as principais observações a serem feitas até aqui. Apesar destas deficiências, a aplicação dos questionários foi relativamente bem sucedida, oferecendo acesso a um conjunto de informações que não estavam disponíveis anteriormente. A seguir, daremos andamento a essa discussão qualitativa.

57

A aplicação dos questionários foi realizada na maior parte por cerca de 10 estudantes voluntários, cabendo ao autor deste trabalho, a coordenação, bem como a realização de algumas entrevistas. Além desses, um professor, um representante do FMEPS e alguns trabalhadores que participavam de um curso de formação durante a feira (e que não estavam expondo produtos) também contribuíram para o trabalho.

58

Enquanto o processo de reciclagem pode ser entendido como uma atividade onde há uma transformação químico-física do material utilizado (por exemplo, a transformação de garrafas de PET em tecido para roupas ou mesmo a reciclagem de papel), no processo de reaproveitamento, há apenas uma nova utilização de um objeto, sem alteração de suas propriedades químico-físicas (como a utilização de PET para a produção de arranjos decorativos, ou a utilização de calças jeans para a confecção de bolsas).