4.1. Instrumentos de análise adoptados na investigação
A utilização simultânea, na mesma investigação, de metodologias quantitativas e
qualitativas demonstra-se enriquecedora e complementar e é o que se faz nesta investigação.
No campo educativo, área sobre a qual vai incidir a investigação a desenvolver, a utilização de dados quantitativos é muito complexa e insatisfatória: “é impossível construir séries completas para os últimos anos, tal como não se consegue obter do (…) ministério duas fontes coincidentes” (Barreto, 1996, p. 24). Só por este aspecto se constata a importância que a recolha de dados qualitativos tem neste trabalho, embora não perdendo de vista a quantificação necessária para o fenómeno que se pretende analisar.
A pesquisa documental implica a identificação de publicações, recentes e interessantes para o domínio sobre o qual incide a investigação e é essencial na fase de síntese de informação sobre o tema do abandono escolar. Para a contabilização do abandono escolar no concelho de Beja constroem-se tabelas com informações retiradas dos Registos de Abandono Escolar, existentes nas escolas sede dos 3 agrupamentos do concelho.
A recolha de dados qualitativos é feita através de entrevistas abertas às entidades intervenientes no processo de abandono escolar e semi-estruturadas a alguns jovens, estas últimas são constituídas por um conjunto de temas flexível, adaptado aos interlocutores, com um guia simples (consta do anexo 6) que conduz a interlocução. Em alguns casos, como o desta investigação, não é necessário um grande número de entrevistas para se obterem as informações necessárias: “observações em número reduzido, mas estrategicamente recolhidas e tratadas em profundidade, proporcionam um rendimento óptimo. (...) Do mesmo modo, até o caso único pode ter todo o seu valor” (Jean-Pierre Hiernaux in Albarello, 1997, p. 172). Contudo, deve ter-se presente que “o indivíduo é interrogado enquanto representante de um grupo social. (…) É útil recordar que aquilo que é dito nos presta informações, em primeiro lugar, sobre o pensamento da pessoa que fala e, secundariamente, sobre a realidade que é objecto de estudo” (Danielle Ruquoy in ibid., p. 85).
informação que está no interior do objecto em análise, o que nos dá o seu conteúdo. Este conteúdo indica “modelos culturais, quer dizer, sistemas de sentido típicos que orientam o comportamento dos sujeitos, que são interiorizados e socialmente produzidos, reproduzidos ou transformados” (Jean-Pierre Hiernaux in ibid., p. 161). Tendo em conta as limitações de uma análise de conteúdo, e como em todas as técnicas, retiram-se apenas as informações mais pertinentes para a investigação em curso.
O resultado final da análise de conteúdo é assim um modelo que permite ser uma resposta às questões levantadas pelo corpo teórico e deve ser o resultado da vinculação com este, embora surja como resultado das técnicas escolhidas no contínuo evolutivo criado pelo decorrer da investigação. A escolha das metodologias e técnicas a utilizar resulta da determinação dos objectivos e meios de realização do trabalho, concretizando as intuições teóricas em hipóteses, de forma a serem recíprocas com os métodos.
4.2. Metodologia da pesquisa empírica
A dissertação a desenvolver tem como pano de fundo a Escola, sistema de acção concreto e complexo. O abandono escolar é um problema social, por isso público e activo, o seu estudo necessita de um corpo conceptual sistémico, mas ao mesmo tempo estratégico. Torna-se imprescindível circunscrever o campo de análise e manter o bom senso na delimitação das hipóteses de trabalhar este processo social. Por estes motivos, opta-se por realizar um estudo de caso, circunscrito a ao concelho de Beja. A escolha de uma área concelhia para delimitar o estudo que se propõe deve-se a questões práticas: é um território bem definido, onde há políticas e contextos sócio-económicos específicos, que se vão reflectir nas escolas. É também uma unidade estatística onde há observações efectuadas, pela própria edilidade municipal, bem como planos de ordenamento e desenvolvimento social e territorial. No anexo 13 é feita uma pequena análise das características mais significativas da região e do concelho alvo do estudo.
O Alentejo é apontado como uma região bastante crítica no que respeita ao abandono escolar pelo estudo de Ferrão e Honório, 2000, sendo aí apontadas como principais causas o contexto pouco valorizador da educação e os mercados de trabalho pouco dinâmicos.
As metodologias que se utilizam na dissertação a realizar são de âmbito qualitativo, embora haja a consciência de que elas irão fornecer sobretudo “elementos dignos de confiança para o controle de hipóteses de carácter geral” (Quivy e Campenhoudt, 1998). As técnicas de investigação a utilizar são: pesquisa documental e entrevistas (com análise de conteúdo). Utilizam-se técnicas de âmbito quantitativo na recolha de dados sobre o número de alunos que abandonaram os três agrupamentos de escolas do concelho, sendo este o principal indicador a utilizar. Para a análise a efectuar, interessam os dados relativos aos processos administrativos de abandono escolar precoce desencadeados pelos agrupamentos verticais de escolas do concelho de Beja: Nº 1- com sede na Escola EB 2,3 Santa Maria), Nº 2 - com sede na Escola EB 2,3 Mário Beirão) e nº 3 - com sede na Escola EB 2,3 de Santiago Maior. A observação reporta-se a 3 anos lectivos: 2001-2002, 2002-2003, 2003-2004.
Para além do levantamento de dados quantitativos nas escolas (análise do Registos de Abandono Escolar e dados fornecidos pelos serviços administrativos e pelos órgãos de gestão), complementado com entrevistas aos presidentes dos órgãos de gestão das escolas, juntam-se outros dados estatísticos concelhios. Contudo, a principal fonte de informação deste estudo são dados qualitativos, numa perspectiva de “redução” das múltiplas dimensões e planos de expressão deste fenómeno social. Embora se recolham dados estatísticos relativos à educação (junto das escolas, do Ministério da Educação e do INE) e ao emprego (Delegação Regional do IEFP), as informações essenciais são fornecidas pelos Registos de Abandono Escolar e pelos principais intervenientes neste fenómeno: entrevistas abertas e semi- estruturadas a alguns alunos que abandonaram a escola e a pessoas intervenientes no processo de abandono escolar (CPCJ de Beja, PETI e Segurança Social).
As entrevistas aos jovens (ver anexo 6) têm como objectivo conhecer o seu percurso escolar e saber se exercem ou exerceram alguma actividade profissional. Os jovens são também questionados sobre os seus projectos de qualificação escolar ou profissional.
A relação entre o abandono escolar precoce e a transição para a vida activa é também investigada junto dos Centros de Emprego e de Formação Profissional de Beja, através de entrevistas aos seus directores e recolha de informação junto da Delegação Regional do IEFP, que permite aferir dados sobre os níveis de escolarização das pessoas inscritas nos Centros de Emprego no início de 2004.
“Para concluir, recordemos este princípio fundamental: quanto mais se restringe o campo
melhor se trabalha e com mais segurança” (Eco, 1991, p. 35, sublinhado do autor). Muitas
vezes os melhores investigadores “fazem muito a partir de muito pouco” (Silverman, 2000, p. 102) e é essa a máxima que se segue neste trabalho.
4.2.1. Actividades a desenvolver
Esta investigação empírica visa os seguintes objectivos:
• Analisar estudos realizados desde o início da década de 1990 sobre abandono escolar e inserção na vida activa em Portugal: pesquisa bibliográfica e consulta de dados e informações sobre a temática;
• Conhecer o abandono escolar no ensino básico no concelho de Beja: quantificação do número de alunos que são alvo de processo administrativo de abandono escolar, através Registo de Abandono Escolar (formulário preenchido pelo professor no 1º ciclo ou director de turma no 2º e 3º ciclos quando um aluno falta dez dias sucessivos à escola sem justificação, enviado para a Direcção Regional de Educação, CPCJ, IGT - Inspecção Geral do Trabalho e Departamento de Acção Social da Segurança Social); recolha de informações nas escolas – serviços administrativos, presidentes ou elementos dos órgãos de gestão – e junto de outros actores privilegiados, nomeadamente das instituições referidas (no caso da IGT os Registos são enviados para o PETI, onde se recolhem as informações);
• Analisar as formas de inserção na vida activa de jovens sem a escolaridade obrigatória: recolha de informação junto dos Centros de Emprego e de Formação Profissional; verificação junto dos alunos que abandonaram a escola do tipo de actividade que exercem;
• Relacionar a forma como o abandono escolar precoce afecta o desenvolvimento da região, no que respeita à inserção na vida activa: análise das qualificações escolares dos desempregados inscritos no centro de emprego, bem como das informações fornecidas por quem trabalha com a inserção de jovens desqualificados no mercado de emprego – nomeadamente os directores dos Centros de Emprego e de Formação Profissional e a equipa regional do PETI.