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4. Religiøs pluralisme i RM

5.1 ROK og staten – rivaler?

Segundo Charaudeau (2008, p.109), o modo descritivo deve ser tratado em três níveis distintos: (a) a situação de comunicação que se define de acordo com o contrato e determina a finalidade do texto; (b) o modo de organização do discurso que utiliza categorias de língua em seu fazer; (c) o gênero de texto que extrai sua finalidade dos interesses em jogo na situação de comunicação. Podemos exemplicar com o gênero “receita de cozinha”, cuja situação é de “guia” e o modo de organização é descritivo, por meio da descrição de uma sucessão de ações (fazer, pegar, pôr na água, descascar, etc), e da descrição de atos enunciativos, que se referem às ordens (faça, pegue, ponha na água, descasque, etc.). Outro exemplo é o “catálogo de venda”, em que temos a situação de informar e de incitar a fazer, e o modo de organização descritivo por meio de qualificações de ser e fazer.

Charaudeau (2008, p.111) propõe que o termo descritivo seja utilizado para definir um processo, ou seja, um procedimento discursivo, enquanto o termo descrição define um resultado, ou seja, um texto explícito ou fragmento dele. Tal proposta possibilita que o descritivo possa combinar-se com o narrativo e o argumentativo no âmbito de um mesmo texto; que um texto possa ser organizado de maneira descritiva e que tal modo de organização possa intervir tanto em textos literários quanto não-literários.

O modo de organização descritivo conta com três tipos de componentes: nomear,

localiza-situar e qualificar. Nomear é “fazer existir seres significantes no mundo”, os quais

serão classificados a partir de sua semelhança ou diferença em relação a outros seres. A existência dos seres no mundo é verificada por consenso, ou seja, de acordo com os códigos sociais, e sua identificação é limitada pela finalidade das situações de comunicação nas quais se inscreve: apresentar uma personagem, explicar, informar, incitar, etc. (CHARAUDEAU, 2008, p. 112)

Localizar-situar é determinar o lugar que o ser ocupa no espaço e no tempo, de modo a tornar um relato mais objetivo ou estabelecer uma hierarquia dos seres no mundo, por exemplo. Mas o autor nos lembra que tal recorte objetivo do mundo dependerá da visão projetada por determinado “grupo cultural”. (CHARAUDEAU, 2008, p.114)

Qualificar, por sua vez, representará caracterizar e especificar um ser, classificando-o em um subgrupo. A qualificação se distingue da denominação, pois a denominação estrutura o mundo de maneira não orientada, enquanto a qualificação atribui um sentido particular aos seres, a partir da visão do enunciador sobre os outros seres e o mundo. Deve-se lembrar, porém, que sendo o enunciador parte de uma sociedade, ele se servirá das “normas da prática

social” que regulamentam as relações entre os seres e suas qualidades, as normas relativas aos sentidos (olfato, tato, audição, visão, paladar) que não são as mesmas em todas as sociedades, e as normas funcionais (finalidade do objeto, porque possuem determinadas qualidades). O enunciador pode, portanto, se utilizar de expressões estereotipadas que fazem parte de um consenso social para expressar uma visão pessoal, surgindo um jogo de conflito entre as visões normativas e as visões próprias do sujeito. (CHARAUDEAU, 2008, p.115)

Os componentes acima especificados são implementados por determinados

procedimentos discursivos e linguísticos. Tais procedimentos podem ser utilizados ao mesmo tempo de modo livre (sem lógica interna) e não arbitrário (por estar sempre relacionada a outros modos de organização).

Em relação aos procedimentos discursivos, Charaudeau (2008, p.117) considera que o

nomear (que faz com que um “ser seja”) suscita procedimentos de identificação, o localizar

(que faz com que um “ser esteja”) suscita procedimentos de construção objetiva do mundo, o

qualificar (que faz com que um “ser seja alguma coisa”) suscita procedimentos de construção ora objetiva ora subjetiva do mundo.

Os procedimentos discursivos de identificação podem ser encontrados em textos que têm por finalidade “recensear seres”, tais como inventários (vistoria de um apartamento, atividades de um dia, partes de uma casa, componentes de um móvel, etc.), listas recapitulativas (índices, bibliografias, catálogos, dicionários), listas identificatórias (bulas, legendas), e nomenclaturas, ou “informar sobre a identidade de um ser”, tais como ocorre nos relatos romanescos ou nos meios de informação (“O governador do Rio, Sérgio Cabral,...”). (CHARAUDEAU, 2008, p.118)

Os procedimentos discursivos de construção objetiva do mundo busca construir uma “visão de verdade” sobre o mundo, de acordo com o que o imaginário social crê ser verdade. Tais procedimentos podem ser encontrados em textos que tem por finalidade definir, tais como os verbetes de dicionários ou enciclopédias, jogos de adivinhações ou palavras cruzadas, textos de lei, textos didáticos; em textos que têm por finalidade explicar, tais como o modo de usar descrito em uma bula de remédio que propõe um modelo a seguir, textos científicos que descrevem experiências, crônicas jornalísticas (científicas, literárias, cinematográficas, etc.), reportagens, e entrevistas, as quais funcionam como prova em relação à explicação; em textos que têm por finalidade incitar, tais como anúncios de ofertas de emprego que descrevem o perfil do cargo, panfletos reivindicativos; em textos com a finalidade de contar, tais como passagens de relatos em que o narrador cria efeito de realidade, e resumos. (CHARAUDEAU, 2008, p.120)

Os procedimentos discursivos de construção subjetiva do mundo busca descrever os seres a partir do “imaginário pessoal do enunciador”, no qual o descritor pode deixar transparecer sentimentos e opiniões, ou construir um mundo mitificado, ancorado em uma certa realidade ou não, nesse último caso dando vazão às descrições ficcionais, como ocorre nos contos maravilhosos ou fantásticos. Tais procedimentos podem ser encontrados em textos cuja finalidade é incitar, tais como textos publicitários que descrevem as qualidades do produto de maneira sugestiva para seduzir certo público, textos de declarações (panfletos, manifestos, etc.) que exprimem compromisso da parte do enunciador, anúncios e mensagens de jornais, catálogos que não só apresentam a lista de produtos, mas descrevem suas vantagens; em textos cuja finalidade é contar, tais como textos jornalísticos de reportagens, canções em que o enunciador expõe sua visão pessoal, histórias em quadrinhos cujos personagens são apresentados de forma mítica, textos literários que expõem a subjetividade do narrador, e poemas. (CHARAUDEAU, 2008, p.125)

Dentre os procedimentos linguísticos mencionados por Charaudeau (2008, p.131), para nomear, estão: a denominação, que tem por objetivo identificar os seres seja através de nomes próprios ou nomes comuns que identifiquem uma classe, à qual é atribuída um papel (“um lenhador”, “o leão e o rato”); a indeterminação, que se opõe à denominação e inscreve o relato numa atemporalidade (“Era uma tarde de verão”), em lugares não identificados (“em algum lugar”), ou aplica nomes comuns a personagens; a concretização, com o uso de artigos que podem produzir efeito de singularidade, familiaridade ou idealização; a dependência, com o uso de possessivos, produzindo efeito de apreciação; a designação, com o uso de demonstrativos, produzindo efeito de tipificação; a quantificação, produzindo efeitos de subjetividade (“altos níveis de poluição”, “maior negócio”); e a enumeração, com o uso de dêiticos, artigos, ou de nomes no plural não precedidos de artigos.

Dentre os procedimentos linguísticos para localizar-situar estão as categorias de língua que precisem o lugar e a época de um relato, ou ao contrário, que os deixem sem identificação particular (no começo, antigamente, numa aldeia, certa vez,...). (CHARAUDEAU, 2008, p.137)

Dentre os procedimentos linguísticos para qualificar, costuma-se utilizar a

acumulação de detalhes e de precisões sobre a maneira de ser e de fazer, a fim de produzir um efeito realista; também através do uso de analogias explícitas (comparação) ou implícitas (metáforas, metonímias, personificação,...). A qualificação permite construir uma visão objetiva ou subjetiva do mundo e produzir efeitos de realidade ou ficção. (CHARAUDEAU, 2008, p.138)

Além de existirem componentes, conforme descritos nos parágrafos acima, que participam na construção descritiva, Charaudeau (2008, p.139) considera que existe uma “encenação descritiva” ordenada pelo descritor de maneira explícita ou implícita, consciente ou inconscientemente e que produz certos efeitos que podem ser percebidos ou não pelo leitor. O efeito de saber, por exemplo, é produzido a partir do momento em que o descritor fabrica para si uma imagem de sábio, de perito que se utiliza de identificações e qualificações detalhistas que o leitor desconhece. Os efeitos de realidade e de ficção, por sua vez, são tratados em conjunto pelo autor, visto que o interesse dos relatos é justamente alternar essas duas visões de mundo, construindo uma imagem dupla de narrador-descritor, a qual ora é exterior ao mundo descrito, ora interessada em sua organização, como ocorre no gênero fantástico, em textos jornalísticos de relatos esportivos, e em algumas autobiografias. O efeito de confidência é produzido quando o descritor exprime sua apreciação pessoal, seja por meio de reflexões pessoais, interpelando o leitor, chamando o leitor para a reflexão, por compartilhar com o leitor os critérios que nortearam a descrição, por negar algumas qualificações antes de afirmar outras. O efeito de gênero é produzido por se utilizar procedimentos característicos de um gênero, como “era uma vez” para produzir efeito de conto maravilhoso; uso de frases mais ou menos estereotipadas ao iniciar um relato de um acontecimento de atualidade para produzir efeito de gênero policial, realista, fantástico, etc.; produzir um texto mantendo as funções discursivas do texto original e criar efeito de semelhança, como ocorre nas paródias e plágios.

De acordo com Charaudeau (2008, p.144), o texto descritivo é também construído a partir de procedimentos que se referem à extensão da descrição, à disposiçãográfica de seus elementos e à sua ordenação. A extensão de uma descrição prender-se-á à finalidade discursiva em que se inscreve: informação, relato, ou explicação. No caso de informação, a extensão dependerá da quantidade de informação, do suporte material utilizado e do tipo de destinatário ao qual se dirige. Por exemplos, título de matérias jornalísticas, slogans, cartazes, anúncios, notas, sinopses, devem ser curtos. No caso do relato, a extensão dependerá da dramatização do relato, e quando se refere à literatura, dependerá também do período literário. No caso da explicação, a extensão será limitada pelas exigências do recurso argumentativo. Quanto à disposição gráfica, ela dependerá do suporte material e da necessidade de tornar o texto legível, de modo que é comum o uso de disposições verticais e hierarquizadas, como as encontradas em guias e programas; disposição em estrela, em quadro ou em legenda, a fim de identificar ou classificar. Quanto à ordenação, os elementos podem ser ordenados de maneira cumulativa, hierarquizada ou seguindo um certo percurso (guias turísticos).