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Acentuara-se a pressão das migrações, reivindicando infra-estrutura para atender necessidades agravadas pelo adensamento populacional na periferia de Curitiba e Região Metropolitana. Um dos fatores da ocupação desordenada de solo estava relacionado à oferta de emprego, bem como à perspectiva de desenvolvimento apontada para a cidade. Os movimentos sociais organizados manifestavam inquietação com a falta de acesso aos serviços públicos de saúde, creche, escola e transporte, entre outros.

No ano de 1970, a população curitibana era 609.026 de habitantes, predominantemente jovens, 53% em idade produtiva. Os menores de 14 anos representavam 35% do total e apenas 11% estavam acima de 50 anos. Em 1977, o indicador de mortalidade

109 infantil era de 73,4 óbitos por mil nascidos vivos, em consequência da falta de políticas de prevenção e assistência materna e infantil, não só em Curitiba como em todo o país.

O acelerado processo de ocupação de solo pelo qual passou a cidade concentrou a população em áreas totalmente desprovidas de infra-estrutura urbana, com precário saneamento. Somente a região central (com apenas 34,71% da população) possuía esgoto tratado – o restante utilizava a rede pluvial ou valas a céu aberto. E somente na administração atual se tornou possível dar destino adequado ao lixo, com a construção dos aterros sanitários na Lamenha Pequena e da região sul da cidade. No entanto, apesar dos esforços envolvidos, continuava elevada a mortalidade por doenças transmissíveis, revelando serem ainda insuficientes as medidas de saneamento básico existentes e as medidas preventivas como imunização (CURITIBA, 1980).

Durante a administração Omar Sabbag (1968-1971), a gestão municipal de saúde foi marcada por mudanças em relação ao governo anterior, que enfatizava os atendimentos individuais. Iniciaram-se as ações programáticas para os grupos de famílias que viviam em situações de risco à saúde.

Em seguida, tomou posse o prefeito Jaime Lerner (1971-1975), que era representante do grupo de articulação do Ippuc, do qual fora diretor-presidente. Na maioria, os cargos estratégicos da administração municipal foram ocupados por seus companheiros de trabalho do Ippuc, os quais, como o próprio prefeito, vinham se preparando para assumir o projeto de gestão da cidade durante os quatro anos que antecederam a sua posse.

Em uma gestão de características modernistas, intensificaram-se as estratégias políticas e estruturais para implementação e monitoramento do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, apresentado em 1966. Foram iniciadas, na infra-estrutura da cidade, mudanças radicais que estavam em posição inexpressiva na anterior gestão municipal. O evento mais significativo foi à implantação da Cidade Industrial, e com isso houve crescimento de população vivendo em favelas e, diante disso, houve pressão dos movimentos de bairros, que buscavam melhorias nas condições de urbanização (posse da terra, saneamento básico, escolas, creches e expansão do número de unidades de saúde).

Enquanto outras cidades brasileiras sempre adiaram ou implantaram apenas parcialmente seus planos de desenvolvimento, Curitiba historicamente demonstrou continuidade de compromisso na implantação e implementação dos projetos de reforma urbana. Independentemente das conjunturas político-administrativas municipais, manteve-se a postura de realizar o que foi planejado.

110 Com a consolidação do planejamento urbano e sua continuidade histórica, o município passou a ser reconhecido e consagrado nacional e internacionalmente por seus avanços nos projetos econômicos e sociais, mantidos nas sucessivas gestões administrativas:

O Plano de Desenvolvimento Comunitário da época visou a responder, por um lado, à pressão de movimentos migratórios para Curitiba e Região Metropolitana, que traziam consequências sobre o afavelamento da cidade. Por outro lado, tratou- se de uma iniciativa antecipatória e proativa no sentido de prover a cidade e seus cidadãos com os equipamentos urbanos e serviços públicos geradores de qualidade de vida. (PEDOTTI; MOISÉS, 2000, p. 8)

Uma vez enfrentadas as contraposições da gestão anterior, contrária aos ideais tecnicistas dos planos de gestão urbana em Curitiba, e considerando que tal projeto não poderia ser implementado em apenas uma gestão, Saul Raiz (1975-1979) assumiu a prefeitura com um compromisso de continuidade, alicerçando as principais diretrizes da gestão Jaime Lerner. O Ippuc continuava bastante fortalecido politicamente em virtude das repercussões e dos resultados do planejamento urbano. E se enfrentava maior expressão dos movimentos da oposição política e de participação popular, buscando avanços na prestação de serviços de saúde pelo município, além de haver demandas relacionadas à ocupação de áreas inabitáveis, como fundos de vale e regiões insalubres. Ainda permeada pelas condutas autoritárias, a administração pública dificilmente negociava com as lideranças comunitárias sobre seus interesses, antes promovendo realocações das famílias para áreas mais distantes da região central da cidade.

As administrações Jaime Lerner (1971-1975), Saul Raiz (1975-1979) e novamente Lerner (1979-1982) incorporaram o plano diretor da cidade, principalmente quanto à distribuição das vias estruturais de tráfego exclusivo para o transporte coletivo (canaletas) ou para automóveis e a construção de terminais de integração das diferentes linhas de ônibus em vários sentidos de circulação (centro-bairro, interbairros, alimentadores etc.). O mesmo se deu em relação às políticas setoriais, a exemplo da construção de creches, escolas e unidades de saúde, implementadas nas sucessivas gestões segundo as bases de funcionalidade do espaço urbano e as reivindicações populares:

De fato, em poucos anos essa gestão idealizou e materializou as estratégias de intervenção no espaço urbano, previstas no plano diretor da cidade. E assim fazendo, ela garantiu de antemão que as reformas seriam irreversíveis. Com efeito, a administração de Saul Raiz deu continuidade e consolidou as intervenções precedentes, as quais foram mais uma vez confirmadas com a gestão seguinte de Jaime Lerner. (OLIVEIRA, 2000, p. 57)

111 Em 1978, houve reivindicações populares por parte das associações de moradores da região sul de Curitiba. Nessa época, apoiados no movimento das comunidades eclesiais de base, os moradores da Vila São Pedro manifestavam intensa organização por meio de uma associação de bairros, vilas e favelas e apresentavam demandas de melhoria da infra-estrutura urbana.4 Os dirigentes da prefeitura eram convocados para participar das reuniões comunitárias nas quais eram apresentados os problemas e entre as partes envolvidas eram negociados os encaminhamentos necessários.

Em tais assembleias, o maior problema apontado pelas lideranças comunitárias era a falta de infra-estrutura de serviços de saúde, principalmente para a população excluída do mercado de trabalho formal, característica das regiões periféricas da cidade. As lideranças da Vila São Pedro elaboraram um abaixo-assinado com mais de cinco mil nomes reivindicando uma estrutura de serviços de saúde e cobrando uma solução da gestão municipal.

Era a segunda gestão de Jaime Lerner, em um cenário marcado por mobilizações em direção à abertura política. Acentuava-se a expressão dos movimentos reivindicatórios para garantir a urbanização das favelas, serviços de saúde, transporte, creche e escola.