O Método de Rorschach é um instrumento diagnóstico importante para avaliação clínica, que pode oferecer informações tanto da estrutura, como da dinâmica da personalidade. É um teste de percepção e apreensão, que constitui uma tarefa cognitivo-perceptiva. Gera dados e informações úteis sobre o funcionamento psicológico da pessoa e pode ser abarcado por qualquer referencial teórico, não requerendo uma única teoria para sua interpretação.
4.4.2 O Sistema Compreensivo de Exner
O Sistema Compreensivo de Exner apresenta rigor psicométrico, sendo revisado desde 1960 através de pesquisas que visaram sua normatização e padronização. Possui um Módulo, composto por variáveis que avaliam a Afetividade e por isso consideramos um instrumento útil e adequado para a investigação a que se propõe este estudo.
Tal Sistema agrupa os dados em variáveis-chave para a sua interpretação. Estes agrupamentos de dados se baseiam em cálculos matemáticos, proporções numéricas, a partir da classificação das respostas dadas pelo sujeito. Este modo aponta dados que podem se referir à probabilidade de algum tipo de transtorno sintomático, caracterológico ou do desenvolvimento e ainda, variações normais do funcionamento da personalidade. Tem como objetivo sistematizar os dados e validá-los em relação ao comportamento observável. A estratégia de interpretação em seqüência chama a atenção para a abordagem de todos os dados do teste e determina um ponto de entrada na análise do protocolo (WEINER, 2000).
Os módulos do Sistema Compreensivo de Exner são os seguintes:
I. Processamento da Informação: como a pessoa dirige sua atenção ao mundo II. -Mediação Cognitiva: como a pessoa pensa sobre o que percebe
III. Ideação: como a pessoa percebe os objetos de sua atenção
IV. Controle e Tolerância ao Estresse: associado aos recursos adaptativos, os quais as pessoas dispõem para lidar com a demanda e gerenciamento do estresse.
vivenciam e expressam os afetos.
VI. Autopercepção: como as pessoas se percebem
VII. Percepção Interpessoal: como as pessoas percebem os outros e se relacionam com eles.
VIII. Estilo Vivencial: a oitava chave se refere a um estilo vivencial introversivo ou extratensivo, que não tem necessariamente implicações psicopatológicas.
O tipo vivencial introversivo refere-se ao sujeito que prefere demorar ao tomar suas decisões, ou solucionar problemas, procurando analisar as alternativas possíveis. Prefere manter suas emoções à margem e tende a basear-se em sua avaliação interna, usando a lógica e não perdem tempo com tentativas de ensaio e erro.
O tipo vivencial extratensivo mescla seus sentimentos com os pensamentos na resolução de tarefas. Isto não significa que seu pensamento seja menos consistente ou menos lógico que o introversivo, mas refere-se à pessoa que se expressa pelos canais da emoção e que se dedica a tentativas de ensaio e erro, na tomada de decisão.
4.4.3 Modulação dos Afetos
O presente estudo se deteve ao Módulo para avaliação dos recursos afetivos e, portanto, pretenderá fazer inferências sobre a Modulação do Afeto das crianças que apresentam TDAH.
A Modulação do Afeto se refere à maneira e à tranqüilidade como a pessoa processa a experiência emocional. Assim, implica no modo como as pessoas lidam com os sentimentos que surgem em si mesmas, e como reagem aos sentimentos de outras pessoas e a situações que envolvam uma descarga emocional. A capacidade de modular o afeto de modo eficiente, agradável e com moderação são requisitos de uma boa adaptação psicológica. A análise da modulação do afeto no Rorschach compreende os seguintes aspectos:
I. Modulação suficiente do afeto: consiste na capacidade de envolver-se em situações de tom emocional e trocar sentimentos com os outros, de sentir-se à vontade em situações em que um nível moderado de emoção está sendo eliciado ou expresso. Podemos avaliá-la pelo valor de Afr (proporção afetiva) e da proporção WSUMC: SUM C’ (soma ponderada das respostas de cor em relação a soma das respostas C’)
emocional positivo que contribui para a pessoa sentir-se bem e contente. Mede-se a modulação prazerosa do afeto pela análise de SUM C’(somatória das respostas de cor acromática), Cor-Sombreado, SUM Sombreado (somatória das respostas de sombreado) e C’ (respostas de cor acromática). Verificamos a tonalidade afetiva prazerosa se as respostas de cor cromática excedem às de sombreado ou cor acromática.
III. Modulação Moderada do afeto: consiste em manter um equilíbrio adaptativo entre os canais de expressão emocionais ou ideacionais, entre padrões de descarga emocionais reservados e expansivos, e entre níveis de esforço razoáveis e mais intensos para processar a experiência afetiva de maneira positiva. Verifica-se a modulação moderada do afeto pela análise da proporção Forma-Cor (FC: CF+C) que deve estar adequada para idade, não havendo respostas de Cor Projetada (CP).
Além desse agrupamento de variáveis citado, nossa análise das variáveis do Módulo do Afeto seguiu os passos apontados por Sendin e Exner (1999)
Passo1: Índice de Depressão Positivo: o ponto inicial da análise do Afeto é a verificação do Índice de Depressão.
Passo 2: O Tipo de Vivência “EB”: Indica os estilos introversivo ou extratensivo. Em nosso caso, nos interessará o estilo extratensivo, pois nos indivíduos que o apresentam, as emoções exercem um papel fundamental.
Passo 3: Experiência de base
“eb” FM+m : C’+T+V+Y
Decidimos incluir em nossa análise, a proporção de respostas que dizem respeito à Experiência de Base do sujeito: eb (FM+m:C’+T+V+Y), a qual se refere a uma proporção que compara os determinantes de movimento não humano e movimento inanimado (FM e m) com os determinantes de sombreado: Cor Acromática (C’), Textura (T), Vista (V) e Sombreado Difuso(Y). Estes são importantes para a análise do setor do Afeto e informam sobre a pressão dos estímulos experimentada pelo indivíduo. Pela sua análise é possível verificar a natureza das angústias e das pressões pelas quais a pessoa está passando e dizem respeito a uma situação de sobrecarga emocional e a sua natureza.
Os dados do lado esquerdo de “eb” representam os disparadores de tensão interna do tipo ideacional, que podem interferir nos processos de atenção e no curso do pensamento deliberado. Indicam a atividade psicológica sobre a qual o indivíduo não tem controle.
Os dados do lado direito da proporção incluem todos os determinantes que aparecem nos componentes referidos (ex. soma de T inclui FT, TF e T). Representam também estímulos que atuam no interior do indivíduo provocando mal estar, mas do tipo emocional, o qual supõe um aumento de afetos irritativos e perturbadores, indicando sofrimento e dor psíquica. Espera-se que o lado direito de “eb” seja menor que o lado esquerdo. Caso isso não ocorra, o grau de sofrimento da pessoa é bastante elevado. É necessário revisar a incidência de Forma nestes determinantes (C’, T, V, Y) que indicará o menor ou maior controle sobre estes afetos desconfortáveis, disparados em seu interior.
Desta forma poderemos ter informações sobre quais são os tipos de afeto que causam desconforto aos sujeitos.
Passo 4 : FC: CF+C
Esta proporção é um importante indicador da capacidade de modulação dos afetos. Analisamos se FC (respostas de Forma-cor ) se mostra em proporção maior ou menor que as respostas CF+C ( respostas de cor-forma e cor pura) que indicam que as descargas afetivas ocorrem sem que o sujeito tenha controle racional sobre elas. FC indica o melhor controle sobre das emoções.
Passo 5: A Modulação Suficiente dos Afetos Afr, WSUMC: SUMC’
Como citado acima, estas variáveis nos fornecem informações sobre a capacidade do indivíduo em envolver-se em situações emocionais e trocar sentimentos com os outros.
Passo 6: Análise de respostas mistas ou blends
Indicam a complexidade com que a pessoa processa os estímulos estabelecendo uma atividade de análise e síntese dos estímulos da mancha.
Passo 7: Análise das respostas mistas de sombreado
São as respostas de claro e escuro, ou cor acromática misturadas à de outros determinantes. Sua análise indicará a natureza do sofrimento psíquico pelo qual a pessoa passa.
Passo 8: A projeção da Cor: são as respostas em que o sujeito vê cor onde ela não existe. Indicará sentimentos de mal estar que precisam ser disfarçados.
Passo 9: Respostas do Espaço em Branco: são aquelas em que o sujeito processa áreas da mancha onde nada existe e indicam negativismo, tendência a autonomia e auto-afirmação.
Passo 10: Lambda e a abertuta a Experiência:
Determinamos este passo o da análise da variável Lambda, a qual verifica a abertura à experiência que o sujeito apresenta e informa se foco da atenção é restrito ou amplo.
Passo 11: As Notas D e Adj D:
Ao lado das variáveis do módulo do Afeto, analisaremos os valores das Notas D e Adj D, as quais fazem parte do Módulo do Controle e Tolerância ao Estresse. Fornece informações sobre o estresse permanente ou situacional pelo qual a pessoa passa e se dispõe de recursos para enfrentá-lo.
Passo 12: Análise das Constelações Positivas
Consideramos serem úteis ao nosso objetivo neste estudo, contribuindo com o esclarecimento de possíveis comorbidades. As constelações se referem a agrupamentos de dados que definem critérios semelhantes aos do DSM IV R (2003), indicam se a pessoa apresenta algum transtorno caractereológico ou psiquiátrico. São elas:
I. Índice de Transtorno de Pensamento ou Percepção PTI > ou =3 : indica se o sujeito apresenta índice de transtornos de pensamento e percepção.
II. Índice de Depressão DEPI: Se > 5 indicará a presença de traços de Depressão ou Transtorno Afetivo
III. Índice de Déficit Relacional CDI: Se > 4 indicará a presença de dificuldades para estabelecer e manter relacionamentos interpessoais satisfatórios
IV. Índice de Hipervigilãncia HVI: Positivo ou Negativo: indicará se a pessoa apresenta–se em constante estado de alerta, sentindo-se ameaçado ou vulnerável, mostrando cautela nas aproximações com os outros.
V. Índice de Estilo Obsessivo (OBS): Positivo ou Negativo. Indicará se o sujeito apresenta traços obsessivos de personalidade.
porém inválido para menores de 16 anos, portanto não considerado em nossa avaliação).