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Kapittel 4 Det seremonielle aspektet:

4.2 Ritualiseringsprosesser

Temos presenciado, no meio acadêmico, um intenso e renovado debate em torno do Estado moderno, especialmente quanto à sua formatação ou definição como Estado- nação. O interesse em torno desse tema tem sido motivado tanto pelo crescente número de movimentos “nacionalistas” regionalistas e étnicos – que, sob a bandeira do direito à autonomia e à autodeterminação, contestam, muitas vezes, de forma veemente, o formato uninacional dos atuais Estados nacionais – quanto pela nova lógica assumida

pelo capital internacional que, exibindo uma argumentação124 diferente daquela dos movimentos contestatórios, vem igualmente pondo em xeque a pertinência do conceito de Estados Nacionais. Estes elementos conjunturais têm contribuído para o aprofundamento do debate teórico sobre os elementos constituintes da nação e das nacionalidades e sobre os vários interesses possíveis de se evidenciar na relação Estado/nação.

No debate contemporâneo sobre o processo de formação dos Estados Nacionais, destacam-se duas linhas interpretativas principais. De um lado, a concepção teórica classificada como histórico-culturalista, pela qual o Estado-nação é apreendido como uma construção derivada do consenso e do interesse comum entre os membros da sociedade. Por essa concepção, são os elementos culturais, lingüísticos e históricos, comuns e pré-existentes no seio da sociedade, que conduziriam à consolidação de uma identidade nacional, a qual, posterior e devidamente canalizada, levaria à formação de um Estado Nacional.

Por outro lado, temos a escola modernista, que atribui ao Estado o papel motriz no processo de formação da nação e da identidade nacional, e não o seu inverso. Para essa corrente, o Estado é a expressão política de um setor social que, em busca de legitimação e do fortalecimento do seu poder, utiliza-se das instituições públicas para construir ou forjar um sentimento de comunhão entre os indivíduos e grupos abrangidos por sua autoridade. A ação estatal se dedica, então, a criar ou reforçar elementos culturais e históricos, objetivando congregar e “homogeneizar” o conjunto social, que passaria a ser composto por indivíduos que partilham as mesmas origens e os mesmos destinos. Por esta estratégia, esconde-se ou escamoteia-se a existência das diferenças sociais e classistas que perpassam o tecido social, ao mesmo tempo em que se edifica um consenso em torno do papel que o Estado deve ocupar na sociedade. Identificado com os interesses da nação, o Estado se converte em uma instância socialmente neutra, o que permite, assim, a consolidação do domínio dos grupos dirigentes sobre o conjunto da população. Dessa forma, os sentimentos de identificação nacional são apreendidos,

124 Existe, atualmente, um intenso debate sobre os efeitos da globalização na soberania dos países, em

que alguns teóricos advogam que a expansão capitalista, nas últimas décadas, modificou completamente a autonomia política e econômica dos Estados Nacionais, alterando a soberania dos países e o questionamento do seu caráter nacional. Enquanto, na opinião de outros, em que pese às considerações sobre a fragilidade política e econômica dos Estados Nacionais frente ao poder dos organismos internacionais e empresas transnacionais, ainda considera inegável a capacidade dos Estados, mesmo entre os países periféricos, de interferir na política econômica do país.

pela escola modernista, como elementos forjados pelo Estado para a consolidação do controle social.

Essa corrente modernista acabou por agregar pensadores tanto de filiação liberal como marxista. Entre estes últimos, destaca-se Ernest Gellner, que, nos seus estudos, ressalta a importância das políticas conduzidas pelo Estado na construção de sentimentos comuns, voltados para a construção da unidade e da identificação nacional. Segundo Gellner,125 além de seus instrumentos legislativos e de comunicação, o Estado atribui a seus instrumentos educacionais um papel central na formulação, criação e divulgação de símbolos e sentimentos patrióticos, na massificação de costumes e comportamentos morais, na adequação entre os relatos históricos e os interesses do presente e, ainda, na uniformização da linguagem comum. Para o Estado, portanto, a educação visa, essencialmente, estimular uma identificação entre os membros da sociedade.

Embora essas correntes teóricas sejam, em grande parte, apresentadas como antagônicas – especialmente no estudo de casos relativos à formação dos Estados europeus –, é possível constatar a existência de formulações teórico-metodológicas que, sem desconsiderar as distâncias que separam culturalistas e modernistas, apregoam a possibilidade – e a necessidade – de, em alguns casos, se estabelecer uma abordagem conciliatória entre as duas concepções. Natividad Chong126 e Elisé Marienstras,127 por exemplo, em seus trabalhos sobre os processos de formação da identidade nacional no México e nos EUA, respectivamente, defendem que a “nação” pode ser pensada tanto com base na existência de elementos comuns entre os membros de uma determinada comunidade, quanto como uma elaboração artificial, construída pelo Estado e por suas instituições públicas. Somente o estudo de cada caso particular poderia oferecer uma maior clareza sobre os fatores determinantes em um processo histórico específico.

Para os casos latino-americanos e, mais especificamente, o equatoriano, em que o Estado nacional emerge no contexto das transformações ocorridas no final do século XVIII e início do século XIX – período caracterizado pela crise do sistema colonial, pela expansão das idéias iluministas, pela ampliação dos interesses das novas potências européias em torno do “Novo Mundo” e pelo forte interesse das elites crioulas em

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GELLNER, Ernest. Nações e nacionalismo. Tradução de Inês Vaz Pinto. Lisboa: Gradiva, 1993.

126 GUTIÉRREZ CHONG, Natividad. Mitos nacionalistas e identidades étnicas; los intelectuales

indígenas y el estado mexicano. Tradução de Graciela Salazar. México: Editora Plaza y Valdés, 2001.

127 MARIENSTRAS, Élise. Les mythes fondateurs de la natión américaine. Paris: François-Maspero,

1976. Conforme apontamentos de aula do Prof. Dr. Antonio Carlos Amador Gil e das observações feitas no seu livro: Projetos de estado no alvorecer do império. Vitória (ES): IHGES, 2002, p. 33-34.

romper os laços de dependência que as uniam às respectivas metrópoles –, o modelo teórico modernista será o nosso referencial para análise do projeto de construção da identidade nacional.