Nas instituições educacionais, a sala de aula representa o espaçotempo micro onde a maioria das práticas educativas é efetivada. Para o desenvolvimento de tais práticas a organização do espaço interno das salas de aula, bem como as relações estabelecidas entre educadores e educandos
evidenciam as concepções construídas a respeito deste espaço que apontam para a construção de um currículo, no cotidiano educacional, com perspectivas emancipatórias.
Uma situação interessante, percebida no período de observação, no que diz respeito às salas de aula, foi a necessidade, vivenciada por alguns educadores, de manterem as portas das salas de aula trancadas, com chave, durante o período das aulas. Os educadores alegam que tal prática se faz necessário em função dos educandos que não conseguem permanecer em suas salas, andam pela instituição e entram em outras salas atrapalhando o andamento das atividades realizadas em seu interior, bem como evitar pequenos furtos que já aconteceram nas salas de aula.
No começo, a entrada dos educandos na Unidade foi um caos, eles queriam explorar o espaço. Eles entravam pela porta e as janelas também eram utilizadas como entrada e saída porque eles pulavam. Na FUNDHAS, depois que eles entram, fecha-se os portões e os meninos pulavam o portão de fora pra dentro, não tem limites e o portão não significa interdição. A gente teve que ter muita calma, reutilizar o tempo para a organização, estabelecimento de regras, para depois iniciar o trabalho. Eles entravam em sala errada não por engano, mas para ver se o educador o identificava, não dá para conhecer de forma geral, é necessário nomear, conhecer um a um. (Educ F – 03).
É perfeitamente compreensível este comportamento dos educandos no início do funcionamento das duas instituições. A dimensão do limite espacial não é uma experiência construída pelos educandos quando moravam nos barracos das favelas. Portas internas que separam os cômodos, portões que indicam interdição de entrada ou saída, a chave como símbolo daquilo que está
impedido, os limites dos horários que definem autorização para entrada e saída, não são situações com as quais eles tiveram que conviver e aprender antes de irem para o Conjunto Habitacional. A vida na favela não impõe esses limites e, ao mesmo tempo, a experiência com esses limites no contexto sócio- cultural da cidade é vivenciado sempre como tentativa de burlá-los, sobretudo pela própria necessidade de lutar pela sobrevivência.
Em cada sala de aula, existe um armário, onde são guardados todos os materiais didáticos pedagógicos utilizados nas aulas (papéis de vários tipos, lápis, borracha, lápis de cor, revistas, tesouras, colas, livros paradidáticos, trabalhos realizados pelos alunos, cadernos, entre outros). Esse armário, durante o período de aula, permanece aberto e os educandos têm liberdade de se servirem do que necessitarem durante a aula.
Segundo o testemunho de uma educadora, este exercício da autonomia e do respeito ao “bem material coletivo” foi uma construção que, ao longo desses dois anos de trabalho (2005 – 2006), estruturou-se a partir do desenvolvimento de projetos que envolvessem “as atitudes pessoais e coletivas” e “os valores morais e sociais” como temáticas. Porém, tais projetos não são interpretados como atividades realizadas em um passado, pelo contrário, são reflexões que permeiam diariamente o cotidiano educacional.
Quanto à organização das salas de aula para o desenvolvimento das atividades, podemos observar, em todas as salas, que as carteiras são dispostas em pequenos grupos para o trabalho pedagógico desenvolvido diariamente. Este é um cuidado que os educadores apresentam mesmo antes da chegada dos educandos em sala de aula.
Os grupos, em geral, são constituídos em função do objetivo de cada atividade. Existem aqueles grupos, como é o caso do segundo ano, em que o nível de escrita dos educandos determina a formação dos grupos, a fim de que esses sejam produtivos e contribuam para o avanço na aprendizagem de cada educando.
Há também, como é o caso do quarto ano, em que a sociabilidade é um fator determinante na formação dos grupos de trabalho. Assim, a diversidade se mostra como um critério para que os educandos trabalhem com todos os seus colegas da classe.
No caso da Unidade FUNDHAS, tal agrupamento é definido pela escolha que os educandos fazem dentre as opções de oficinas propostas pela Unidade. Neste caso, é perceptível a constituição de agrupamentos com educandos de diferentes idades.
Imagem 19 – Organização das salas de aula na Unidade FUNDHAS
Esta primeira contextualização que apresenta algumas questões referentes à organização da sala de aula, evidencia que estamos diante de uma contradição em que é nítida a percepção de que não é possível construir práticas curriculares que sejam identificadas, totalmente, como práticas regulatórias ou emancipatórias. Existe uma transitividade, que ora aponta para questões de regulação e ora para perspectivas emancipatórias, demonstrando, assim, a dinamicidade da prática pedagógica.
Ao mesmo tempo em que percebemos evidências de dignidade no trabalho educacional, a partir do exercício de uma autonomia responsável no interior das salas de aulas, seja nos trabalhos em grupo ou na utilização consciente do material disponível em sala de aula, tal autonomia encontra seu
limite ao deparar-se com a porta da sala que ainda, em diferentes situações, permanece trancada.
Podemos, então, inferir que na construção do currículo, deste cotidiano educacional, é possível perceber práticas pedagógicas que colaboram, por um lado, com a formação de uma autonomia emancipatória, capaz de valorizar o bem comum e favorecer com que os educandos se responsabilizem pelas suas ações, por outro lado, percebe-se a institucionalização de uma “autonomia” que é regulada pelas limitações da concepção da organização, do uso, e mesmo, em alguns casos, do controle total deste espaço físico e das movimentações das pessoas neste espaço, tornando evidente a compreensão de que a sala de aula é o “único” lugar da instituição educacional em que o processo de ensino e de aprendizagem deve ocorrer.