Neclenstaaende opgaver er meddelt efter skatteligningen for 1907
I. Rikets toldintrader i april 1908, sammenlignet med tidligere aar
Passo a seguir a uma breve apresentação dos capítulos que compõem essa produção. A tese que proponho se encontra organizada em duas partes: “as águas e a cidade” e “águas, casas e moradores”. Cada parte encontra-se subdividida em dois capítulos, que são respectivamente: “as águas e a cidade de Belém” e “em meio às águas, a construção da cidade”, que integram a primeira parte, e “entre o transportar, o lavar e o cozinhar: ofícios da água e casas de morada” e “objetos da água em casas de morada”, que constituem a segunda parte.
No primeiro capítulo, “as águas e a cidade de Belém”, pretendo desenvolver discussões sobre modos de pensar a cidade de Belém a partir dos registros de viajantes e moradores, suas chegadas e/ou partidas e como estabeleceram conexões com as águas presentes, sobretudo, no entorno da cidade. Nesse ponto pretendo analisar também
54 SILVA, João Luiz Máximo da. O Impacto do gás e da eletricidade na Casa Paulistana (1870-1930): estudos
de cultura material no espaço doméstico. Dissertação (mestrado). São Paulo: FFLCH/USP, 2002. P. 5.
55 GUIMARÃES, Luiz Antonio Valente. As casas & as coisas: um estudo sobre vida material e domesticidade
nas moradias de Belém – 1800-1850. Dissertação (mestrado). UFPA/PPHIST. Belém, 2006. Resumo.
Foi também importante a leitura de AUGUSTO, Isabel Teresa Creão. Entre o ter e o querer : domicílio e vida
material em Santa Maria de Belém do Grão-Pará (1808 – 1830). Dissertação (mestrado). Campinas, SP: [s.n.], 2007. - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
pensamentos associados às águas (consideradas) amigas, ou seja, as águas que banhavam nas folgas, que possibilitavam passeios, que saciavam a sede e as águas (tidas como) inimigas, por acarretarem problemas para os moradores da Cidade do Pará.
No segundo capítulo, “em meio às águas, a construção da cidade”, pretendo discutir as relações entre natureza e civilização através dos pensamentos externados por alguns moradores, em relação à questão da canalização das águas.
Também neste capítulo serão focalizadas as relações com os pântanos, as águas de chuva, a constituição de valas para esgotamento das águas estagnadas, bem como o uso de canalização para escoamento de águas. Com esse propósito, a discussão será direcionada para os processos considerados facilitadores para o controle das águas que “precisavam” ser removidas na cidade, posto que poderiam prejudicar os moradores, comprometendo-lhes o bem-estar.
Na documentação trabalhada não são incomuns as expressões “água potável”, “boa
água”, “boa água para beber”, só para citar alguns exemplos. Por outro lado, a expressão “água turva” indicava comprometimento na qualidade da água. A respeito disso pretendo relacionar este problema com os discursos das autoridades dirigentes, os discursos jornalísticos e com as discussões científicas sobre esta questão, pois apontam para os perigos que significava para os moradores, sobretudo na segunda metade do século XIX, o descuido com águas paradas nos terrenos, ruas, quintais e no interior do domicílio. Entre os perigos apontados estavam, por exemplo, as doenças. Nesse sentido, as águas seriam veículos de enfermidades muitas vezes fatais para vários moradores da cidade.
Ainda no capitulo em questão, discuto o estabelecimento da Companhia das Águas, nos anos oitenta do século XIX. Nesse ponto procurei destacar uma história da instituição da Companhia, relacionada aos locais referentes à preservação de mananciais, expansão da rede de canalização, algumas tensões sociais importantes naquele contexto e, a despeito das transformações emergentes no processo de controle da apropriação da água, às permanências que marcaram (e ainda marcam) o cotidiano de moradores de diferentes espaços de Belém.
No capítulo primeiro da segunda parte, “entre o transportar, o lavar e o cozinhar: ofícios da água e casas de morada”, objetivo discutir três ofícios que guardavam estreita relação com usos da água em Belém: o de aguadeiro, de lavadeira e de cozinheira (o). A escolha desses ofícios guardou conexão com as fontes que acessei durante a pesquisa e que denotam a recorrência dos habitadores de Belém aos aludidos serviços.
Referidos em uma variada documentação os aguadeiros e/ou condutores de água integraram o universo social da cidade de Belém. O trabalho mais diretamente relacionado ao
deslocamento dos carros com pipas pelas ruas da cidade era uma função essencialmente masculina, exigia esforço físico e grandes habilidades de manobra por parte dos trabalhadores a fim de percorrerem as ruas da cidade com seus carros. Nesse contexto, pretendo discutir aspectos das relações entre aguadeiros e demais moradores da cidade, inclusive com os que representavam o poder público, no processo de apropriação da água, posto que tal relacionamento foi marcado tanto por momentos de solidariedade quanto por conflitos.
Além dos aguadeiros, também serão focalizadas nesse capítulo as lavadeiras. A documentação aponta para um interesse significativo de vários moradores para com o processo de lavagem e engomação da roupa. Tais serviços eram aparentemente desenvolvidos apenas por mulheres, escravizadas ou não. A lavagem era um serviço que poderia ser realizado fora ou dentro das moradias, neste caso poderiam acontecer nos quintais, mediante a intermediação de tinas e/ou bacias e o uso de vários outros objetos para a sua execução.
Além de aguadeiros e lavadeiras, o outro ofício que destaquei foi o de cozinheira (o). Dentre os saberes da cozinha, no que concerne ao uso da água estava a limpeza das vasilhas assim como a dos alimentos e a preparação dos mesmos. O uso da água era importantíssimo no processo de preparação de vários alimentos, no caso específico de Belém a documentação revela a recorrência ao uso dos caldos e sopas, por exemplo.
Algumas cozinheiras também eram obrigados a proceder a compra dos alimentos. Quanto aos homens, encontrei com maior incidência, a preferência pelos mesmos em cozinhas de hotéis, hospitais e restaurantes. De todo modo, a conduta morigerada e a preocupação com o asseio eram elementos considerados importantes por moradores com possibilidades de dispor daqueles trabalhadores.
No segundo capítulo da segunda parte, “objetos da água em casas de morada” pretendo estabelecer conexões entre as ideias de riqueza, pobreza, ostentação e diferenciação com as alterações promovidas nos interiores das casas de morada e, sobretudo, com os tipos de objetos da água que foram adquiridos, bem como os usos e/ou os desusos relacionados aos mesmos. Ou seja, busco relacionar a obtenção e os usos dos diversos objetos da água nos domicílios e as construções de necessidades por parte dos moradores de Belém, necessidades essas marcadas por múltiplas questões, tais como a condição social, o trabalho, o gênero, a formação intelectual, a nacionalidade enfim...
Sobre os usos das águas no interior das moradias, potes, bilhas, copos, garrafas, bacias, dentre outros, foram os objetos referidos nas fontes pesquisadas, o que suscitou a discussão sobre a relação dos mesmos com os moradores de Belém. Logo, serão objetos de meu enfoque, as ideias acerca de potabilidade, bem como outros elementos norteadores de
atribuição de importância, construídos em relação aos objetos da água encontrados nos interiores das residências.
Nesse capítulo também procuro analisar a relação entre a qualidade da moradia e a disponibilidade de água na mesma mediante modos de pensar expressados na documentação. Nesse sentido existe a indicação de que durante o século XIX, parecia ser importante informar se as “casas de moradia”, anunciadas nos jornais, dispunham de poço. Além disso, não raramente acoplada a essa referência, havia a observação quanto à qualidade da água ali existente.
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A presente tese tem por objetivo, portanto, apresentar uma história social da água em Belém do Pará no decorrer do século XIX. Não é um trabalho único sobre as relações dos moradores de Belém com as águas, conforme esclareço ao longo do mesmo, a problemática já instigou outros estudos que dirigiram seus focos para a investigação sobre as permanências e continuidades que marcaram os modos de lidar com as águas abundantes encontradas tanto nos arredores, quanto nos interiores da cidade.
Sendo uma produção historiográfica social, a história apresentada não pode deixar de focalizar as relações sociais construídas na capital da província, contudo, tais relações são estudadas em torno dos usos e não usos das águas pelos habitantes da cidade naquele período. Esses, por sua vez, são analisados em conexão com modos de pensar e/ou sentir as ideias de natureza, civilização, público e privado e com a recorrência a uma produção material associada, embora não unicamente, aos usos da água.
Os sujeitos históricos enfocados são diversos, reflexo irrefutável da população que constituiu a cidade de Belém desde o século XVII. Tal diversidade fundamentou-se em questões relativas à condição social, etnia, gênero, nacionalidade e naturalidade, que por sua vez vieram à tona a partir da pesquisa documental.
À guisa de resposta para a problematização que apresento, desenvolvi um exercício de reflexão acerca de sensibilidades esboçadas com relação aos usos de poços, fontes, pipas d’água, tinas, potes, bilhas, copos, garrafas, entre outros objetos e/ou recursos pertinentes aos usos da água.
No decorrer do interregno que proponho, o processo de apropriação das águas ocorreu mediante determinadas continuidades de procedimentos, ou seja, as águas usadas por muitos moradores de Belém eram coletadas nos exteriores de suas moradas e prédios. Pelos
logradouros da cidade elas foram transportadas, para enfim adentrarem os interiores de habitações e casas em geral, para o que fizeram uso de potes, bilhas, baldes, bacias e demais vasilhas com vistas a múltiplos usos, numa reprodução de ações indispensáveis à vida na cidade ao longo do tempo.
Por outro lado, o processo de relação dos habitantes de Belém com as águas também passou por mudanças, conectadas aos modos de pensar o viver numa cidade que abrigava moradores diversos e que “deveriam” observar regras de progresso e civilização. Daí, a recorrência crescente aos encanamentos, às torneiras, aos lavatórios, latrinas entre outros, num persistente processo de (re)educação dos habitadores. Ou seja, como em outras tantas cidades, a água usada pelos moradores de Belém deveria ser organizada com base numa certa invisibilidade, percorrendo ruas e prédios através do encanamento, jorrando pelas torneiras mediante o comando de cada morador e sendo esgotada por intermédio de um sistema de canalização específico.
Enfim, busco discutir essas questões que marcaram as relações sociais construídas em torno das águas doces da Cidade do Pará. Você, prezado leitor, é um convidado a compartilhar desse mergulho. Seja então, muito bem-vindo.