A aldeia mais portuguesa de Portugal, Monsanto, 1938
“Portugueses! Sigam o exemplo de Monsanto, a aldeia mais Portuguesa de Portugal! Sejam quais forem as vicissitudes, confiemos em nós próprios e nos chefes da nossa regeneração moral, saibamos guardar prudentemente, para lançar do alto da muralha, no momento oportuno, os cântaros da abundância... O Povo mais rico, (...), não é, certamente, o que tem mais dinheiro, mas o que tem mais alma!”228
228Félix, Pedro. “O concurso ‘A aldeia mais Portuguesa de Portugal’ (1938).” In Vozes do Povo: a Folclorização em
Esta é parte do discurso de António Ferro na entrega do Galo de Prata à aldeia de Monsanto, no entanto, vila desde 1927.
Em 1938, é criado pelo Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) a eleição da aldeia
mais portuguesa de Portugal. Seria bienal, mas apenas se limitou à primeira edição. O
objectivo seria a escolha da aldeia que “maior resistência oferecia a decomposições e
influências estranhas e o mais elevado estado de conservação no mais elevado grau de pureza das características” segundo uma série de características definidas no
regulamento do SPN.229
Em Portugal, fazia-se a reorganização administrativa do território, criavam-se as províncias e fronteiras, os primeiros mapas de pormenor, e intensificava-se o folclore e a tradição. O nome por trás de todo este aparato é António Ferro, o primeiro director do SPN que tinha por conceito político enaltecer o popular, o povo, a aldeia e a tradição. Para esta política cultural, povo é puro e a única fonte de bom gosto, o único caminho para a comunidade que vive perto da natureza e longe dos malefícios estrangeiros, que só contaminavam a sociedade com o caminho da perdição. A Aldeia torna-se a janela aberta para o passado, e a fonte inspiradora da chamada raça. A cidade “corrompe e polui”, são “almas dilaceradas pela dúvida e pelo negativismo do século”, segundo
Oliveira Salazar.230 O campo é transformado numa alegoria da pureza, um espaço onde a
natureza e Deus são unos e virtuosos, onde a pátria é presente nos traços de antiguidade Histórica, no orgulho, na autoridade e se preserva os valores familiares e morais. O trabalho árduo é visto como glorioso e um dever. É um espaço onde se encontra um
“sentimentalismo gentil, inocente, primitivo, puro, tradicional e verdadeiro”.231
Ana Cristina Brissos mostra em Vozes do Povo232 a importância que António Joyce teve na “construção” das duas Aldeias mais Portuguesas: Monsanto e Paúl. Paúl seria a aldeia vencedora, uma vez que Monsanto já era vila desde 1927, mas os esforços de 229 Félix, Pedro. “O concurso ‘A aldeia mais Portuguesa de Portugal’ (1938).” In Vozes do Povo:...Op.Cit p.207 e
213
230Idem, p.212 231idem
232Brissos, Ana Cristina. “António Joyce (1888-1964) em dois tempos ideológicos.” In Vozes do Povo: a
reclamação do prémio nunca foram ouvidos. Joyce, foi o responsável por muitos estudos e dinamização na recolha de cultura musical na época. Foi encarregado de organizar as apresentações das aldeias de Monsanto e Paúl, uma vez que depois do levantamento nacional, a zona da Beira Baixa destacou-se como a que mais correspondia aos objectivos do concurso. O musicólogo Rodney Gallop adquiriu um papel importante neste julgamento devido à sua obra, que se tornou uma referência para a época, Cantares do Povo Português e A Book of Folkways.
Para Joyce, Rodney Gallop descobrira na música da Beira Baixa um novo objecto de investigação, sendo de igual opinião Fernando Lopes Graça:
”(...) não é apenas o sol-e-dó em 6/8, que quási todos os nossos folcloristas, com raras excepções, nos têm apresentado, prova-o já esta modesta colectânea do Sr. Gallop, a qual deixa ainda entrever possibilidades de um alargamento de vistas neste campo”233
Para o maestro, estas canções estavam cheias dos “saborosos modos arcaicos”, de carácter estruturalista modal e ético no ponto de vista aristotélico da música, onde a cada escala modal corresponderia a um ethos. Acerca da música de Monsanto, no exemplo da canção de Santa cruz, Joyce afirmou:
“O Ethos da variante manifesta-se em forma decididamente mais épica e máscula, e a respectiva escala (correspondente ao Fá a Fá de notas brancas) a que tipo antigo pertence, se não ao modo gergoriano, o modo mais raro de todos, o velho modo ‘Lidio’?”234
Tudo isto levou a fazer de Monsanto a metáfora perfeita, de remotas origens, aldeia heroína épica da vitória na luta contra todos os inimigos, sejam eles mouros ou castelhanos. Joyce em conjunto com Sales Viana, criou uma atmosfera de entrada triunfal a caminho do castelo de Monsanto, encenada com os ranchos populares, grandes coros e grupos de sopro onde figuravam principalmente trompas que ladeavam a entrada. Ora, todo este aparato, tal como Ana Cristina Brissos diz, era em parte contra as directivas estatais, mas Joyce soube usa-las como estilo perfeito para o objectivo final
233Brissos, Ana Cristina. “António Joyce (1888-1964) em dois tempos ideológicos.” .Op. Cit. p.436 234Idem, p.437
do concurso e do próprio regime.
Nesta época passou-se a fomentar a produção cultural etnográfica em moldes controlados pelas recém criadas Casas-do-povo, que eram organismos estatais inseridos dentro das comunidades rurais, embora com cariz de associativismo, com o intuito de igualmente promover a alfabetização, organização de tempos livres, bem estar material e bom gosto. Toda esta organização dependente da FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho), que organiza e promove as exibições dos ranchos folclóricos, o
nacional cançonetismo e por assim dizer, a erudição popular e que levou também a que
estrategicamente nas cidades se falasse de fado e marchas populares repudiando o jazz ou qualquer outra influência estrangeira.
O Adufe
É neste contexto que o adufe ressurge como um instrumento de apreço cultural Nacional. Toda a simbologia de ancestralidade é revista na adufeira, ou nas adufeiras. O repertório musical maioritariamente religioso, salpicado de paganismo, leva à renovação de um culto feminino que parece resgatar o elo com a terra das lendas e fábulas medievais, tão do gosto do programa historiográfico do regime de Salazar. O incentivo à criação de ranchos folclóricos, leva igualmente a um trabalho mais ou menos sério de levantamento e recolha locais do repertório de moldes antigos, evoluindo para os variadíssimos grupos de adufeiras espalhadas por toda a Beira Interior, actualmente.
Hoje este instrumento é o símbolo do Município de Monsanto, é o nome de uma revista cultural do mesmo município, o nome de um grupo musical, e motivo de acções de formação em construção e toque um pouco por todo o país, associado não às antigas Casas-do-povo, mas sim aos novos movimentos populares, ligados à música e danças tradicionais, que foram por sua vez resgatar as recolhas de etnomusicólogos como Michel Giacometti, Ernesto Veiga de Oliveira, Benjamim Pereira ou Alberto Sardinha.
Encontramo-lo nas várias lojas de artesanato típico português em variadíssimos formatos a par com as “igualmente típicas” marafonas, também da região. O adufe rivaliza com o galo de Barcelos e os lenços de Viana, todos eles ícones criados nos longos anos da ditadura e que parecem perdurar na simbologia e iconografia nacional.