• No results found

Chapter 2: The Social Contract and Biopolitics in Five Days at Memorial

2.1 Reverse Triage and Social Darwinism

De acordo com Södersten e Reed (1994), em economias onde um setor de bens transacionáveis cresce a ritmo acelerado – especialmente aqueles que

exploram as rendas ricardianas8 –, a tendência é que ocorra uma redução na taxa de participação dos outros setores. Quando essa redução ocorre no setor de manufaturas identifica-se que a economia está passando por um processo de desindustrialização. O desequilíbrio entre os setores afeta as vantagens comparativas da economia, prejudicando a competitividade dos setores exportadores e elevando as desvantagens nas indústrias que competem com as importações.

De acordo com Rowthorn e Ramaswamy (1997), a desindustrialização é um resultado natural do crescimento das economias desenvolvidas que, geralmente, está associado com a elevação no padrão de vida da sociedade. Esse processo caracteriza-se pela redução relativa do número de empregos na indústria de manufaturas, juntamente com a redução da participação relativa desse setor no produto total. Os autores ressaltam que a diminuição da participação do emprego no setor manufatureiro deriva, principalmente, do elevado aumento da produtividade nesse setor em relação aos serviços, o que – somado à absorção de tecnologias poupadoras de mão de obra, comumente adotadas nas manufaturas devido à padronização tecnológica –colabora para refletir a redução do número de empregos nesse setor em relação ao setor de serviços. Desse modo, os determinantes da desindustrialização nos países desenvolvidos estariam relacionados ao aumento da produtividade e não à perda de competitividade. Os autores destacam, ainda, que a desindustrialização pode se tornar um problema no curso do desenvolvimento econômico em situações em que a perda de representatividade do emprego no setor de manufaturas acontece por choques que tendem a deslocar a economia da sua trajetória natural9, como por exemplo, aqueles advindos da manutenção de uma taxa de câmbio real apreciada.

Tregenna (2009) caracteriza a desindustrialização como a perda de participação do emprego do setor de manufaturas em relação ao emprego total e, também, em relação à queda do produto deste setor no que diz respeito ao produto total da economia. Os efeitos da produção e a consequente perda de

8

São rendas econômicas, que excedem o custo marginal, recebidas pela exclusividade ou abundância de um determinadofator.

9

A trajetória natural refere-se à perda de importância relativa do setor industrial no curso do desenvolvimento econômico(aumento da renda per capita) de determinada economia.

representatividade do setor de manufaturas devem ser avaliados, simultaneamente, por esses dois indicadores.Visto pela perspectiva kaldoriana, “a importância da produção de manufaturados para o crescimento opera por meio de ambos os canais, do emprego e o produto” (KALDOR, 1968, p.439). Assim, alterações na composição setorial no sentido de uma maior participação de manufaturados menos intensivos em trabalho e adoção de inovações tecnológicas que aumentem a relação capital-produto atuam no sentido de reduzir o emprego; mesmo que o produto industrial não esteja se reduzindo.

A caracterização da desindustrialização por esses conceitos favorece a compreensão do processo e as implicações dessas mudanças sobre as taxas de crescimento de longo prazo da economia.

O modelo elaborado por Corden e Nearry (1982) aborda os efeitos da desindustrialização, por doença holandesa, em uma pequena economia aberta que contempla três bens: dois comercializáveis, com preços determinados no mercado internacional, e um bem não comercializável, com preço flexível. O modelo trabalha apenas com variáveis reais e a taxa de câmbio é definida como a razão entre o preço relativo do bem não comercializado no mercado externo e o preço do bem exportado. Os autores desenvolvem um conjunto de análises caracterizadas por diferentes graus de mobilidade intersetorial dos fatores, a fim de analisar os efeitos do crescimento na produção do setor próspero sobre a economia. A questão central é identificar os dois efeitos que ocorrem nessa situação: o efeito de movimento de recursos e o efeito gasto. No primeiro, o crescimento do setor próspero, intensivo em recurso naturais, provoca o aumento do produto marginal dos fatores móveis empregados, extraindo recursos de outros setores. Isso implica na redução da produção e na alteração dos preços relativos, o que desencadeia uma série de ajustes na economia via taxa de câmbio. O efeito gasto ocorre pela elevação da renda real resultante do crescimento do setor de comercializáveis, o que eleva a demanda agregada dos setores públicos e privados. Ademais, ocorre um aumento na demanda no setor de bens não comercializáveis, ocasionando o aumento de produção e dos preços neste setor. Os salários na economia também tendem a aumentar, comprimindo

os lucros no setor comercializável, que tem seus preços fixados no mercado internacional.

Nesse contexto, de acordo com Gala (2006), as consequências da doença holandesa na economia podem ser descritas pelo deslocamento dos fatores de produção para o setor “próspero” (efeito deslocamento) e o efeito gasto decorrente do aumento na demanda por bens não comercializáveis. O deslocamento dos fatores para o setor com crescimento acelerado e o aumento da demanda em todos os setores, não apenas nos comercializáveis, acabam por ampliar as importações de bens de maior intensidade tecnológica – que têm sua produção interna restrita dado a sua baixa rentabilidade. Assim, no final do processo, o setor de não comercializáveis e o intensivo em recursos abundantes se ampliam, porém, o setor de comercializáveis de maior valor agregado se reduz – o que retarda o desenvolvimento dessa economia, devido à baixa intensidade tecnológica.

Por outro lado, Ismail (2010) defende que a extensão do efeito da doença holandesa na economia irá depender da intensidade de capital do setor de manufaturas e do grau de abertura desta economia aos fluxos de capitais. Os efeitos tendem a ser maiores em economias que são mais abertas aos influxos de capital e relativamente menores onde o setor de manufatura é intensivo em capital. Ou seja, indústrias intensivas em trabalho tendem a ser mais afetadas pela doença holandesa.