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Nesses últimos vinte anos, com a mudança de paradigma representada pela perspectiva do usuário (DERVIN & NILAN, 1986), muitos foram os esforços de pesquisa com vistas ao conhecimento de como as pessoas procuram, acham e fazem uso de informação em seu cotidiano. O comportamento informacional no trabalho tem merecido a atenção dos pesquisadores, o que se reflete nos diversos grupos ocupacionais estudados, a exemplo dos engenheiros e cientistas, com Gralewska -Vickery (1976) e Allen (1977), médicos, com Gorman (1995) e assistentes sociais, com Wilson et al. (1979). Mais recentemente, devem ser destacadas as contribuições das conferências internacionais sobre o tema Information Seeking in Context realizadas desde 1996, em Tampere, Finlândia, seguindo para Sheffield, Inglaterra (1998), Gothemburg, Suécia (2000), Lisboa, Portugal (2002), Dublin, Irlanda (2004) e Sidney, Austrália (2006).

Não obstante tantas e ricas contribuições, os pontos hoje considerados pacíficos pela comunidade acadêmica a respeito do comportamento informacional dos indivíduos ainda são bastante restritos. Um claro indicador desse cenário é o debate sobre a definição do que deve ser entendido por “comportamento informacional” (PETTIGREW et al., 2001).

Portanto, nada mais oportuno do que se estabelecer, no âmbito do presente trabalho, o entendimento sobre “comportamento informacional” e “comportamento de busca de informação”. Para tanto, são destacadas as contribuições de Wilson (2000b, p. 49):

Comportamento informacional é o totalidade do comportamento humano em relação às fontes e canais de informação, incluindo a busca ativa e a passiva de informação, assim como o uso da informação. Comportamento de busca de informação é o comportamento propositado de busca de informação como conseqüência da necessidade de se satisfazer algum objetivo.

Wilson ainda distingue “information seeking behavior” de “information searching behavior”, este último associado aos procedimentos de pesquisa do indivíduo em sua interação com sistemas de informação de todos os tipos.

sobre os processos subjacentes a estes comportamentos ainda são motivo de intenso debate.

Pelo menos três correntes de pensamento encontram-se presentes no debate acadêmico sobre os processos comportamentais associados à busca de informação. Estas correntes são representadas pelas abordagens cognitiva, social e holística35 (PETTIGREW et al., 2001).

A abordagem cognitiva se constitui, sem dúvida, o mainstream do pensamento acadêmico. Esta abordagem sugere a existência de uma série de construtos – estruturas de conhecimento – para explicar como acontecem os processos de busca de informação. Evidentemente, estas estruturas de conhecimento encontram-se enraizadas nos atributos pessoais de cada indivíduo e intermediam sua visão do mundo. Esta visão pessoal do mundo, por sua vez, contribui na percepção e na interpretação da informação. Importante salientar-se que a abordagem cognitiva não estuda o contexto do comportamento informacional e é em função dessa característica que se distingue de outras abordagens.

Pettigrew et al. (2001) creditam a Robert Taylor a explicação pioneira sobre a necessidade de informação com base na abordagem cognitiva: a deflagração do processo de busca de informação se daria em função de dois conceitos, vale dizer, a “não-completeza da visão de mundo” e a tendência do indivíduo a sempre buscar a “consistência cognitiva”.

A abordagem social começou a surgir no início dos anos 90, destacando-se como marco a International Conference on Conceptions of Library and Information Science, realizada pela Universidade de Tampere em 1991. A crítica fundamental à abordagem cognitiva era a de que seu fundamento não residia na informação, mas no homem. Nessa linha, todo o corpo teórico associado à cognição aplicada à ciência da informação teria como foco central o “information man” e suas estruturas de conhecimento. Em decorrência, a subjetividade humana estaria, por princípio, distanciada da realidade coletiva (TALJA, 1997) e, desta forma, a ciência da informação estaria voltada primariamente para o impacto da informação sobre o receptor (CAPURRO, 1991).

O foco principal da abordagem social encontra-se nos significados e valores associados aos aspectos sociais, socioculturais e sociolinguísticos do comportamento informacional. Sob esse prisma, o contexto social é considerado como um todo e interpretado como “condutor de significado” (TALJA et al.,1999, p. 752). Em decorrência, o estudo da informação e, por

35 O termo usado na literatura para esta terceira abordagem tem sido “multifaceted approach”. A escolha do

extensão, do comportamento informacional não poderia ser feito de forma isolada, vale dizer, no plano meramente individual ou fora de um contexto específico, mas deveria considerar a interação entre os indivíduos e o discurso através do qual se dá o compartilhamento da informação (TALJA, 2002).

A abordagem holística foi motivada pelo reconhecimento de que uma única abordagem, fosse cognitiva ou social, não seria suficiente para descrever, analisar, explicar e predizer o comportamento informacional humano em toda sua riqueza e complexidade. Desta forma, uma nova abordagem, construída a partir de diferentes teorias (e, portanto, “multifacetada”), passou a ser procurada. Pettigrew et al.(2001) destacam como exemplos desta nova corrente os trabalhos de Byström & Järvelin (1995) e de Leckie et al.(1996).

Na base dessas contribuições encontra-se o pressuposto de que o processo de busca de informação depende da tarefa e da complexidade enfrentada pelo responsável por desempenhá-la.

Byström & Järvelin (1995) desenvolveram uma pesquisa de natureza qualitativa em um contexto de administração pública, contemplando os efeitos da complexidade da tarefa sobre o comportamento de busca de informação. Para esses autores, os efeitos encontrados podem ser caracterizados como sistemáticos e lógicos. Nessa linha, à medida em que a complexidade da tarefa aumenta, também aumentam a complexidade da informação necessária, o uso de fontes de interesse genérico, as necessidades associadas à informação sobre o domínio e as necessidades associadas às técnicas com vistas ao equacionamento do problema36. Por outro lado, decrescem o uso de fontes especializadas, assim como a probabilidade de sucesso do processo de busca.

Leckie et al. (1996) pesquisaram diferentes categorias profissionais, desenvolvendo um modelo sobre o comportamento de busca de informação de profissionais atuando em seus locais de trabalho. Os autores sugerem que os papéis desempenhados pelos profissionais em seu cotidiano e as tarefas associadas deflagram as necessidades de informação as quais, por seu turno, conduzem ao processo de busca. Os papéis a que os autores se referem são os de provedor de serviços, gestor, pesquisador, educador e estudante. O comportamento de busca de informação, desta forma, estaria intimamente relacionado à construção (enactment) pelo indivíduo de cada papel assumido e das tarefas pertinentes, sendo também influenciado pelo

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nível de complexidade, pelo grau de importância e urgência da informação necessária e ainda pela maior ou menor previsibilidade quanto à necessidade dessa informação.

Importante observar-se que tanto Byström e Järvelin quanto Leckie e seus colegas enfatizam que a referência à tarefa e a sua complexidade constitui-se uma base promissora para o desenvolvimento de modelos holísticos de busca e uso de informação.

Byström (1999), em trabalho mais recente, enfatiza que, a despeito do interesse despertado pela perspectiva do usuário nos últimos 20 anos, muito ainda resta a ser estudado a respeito do indivíduo no processo de busca de informação. Sua argumentação destaca a necessidade de se contextualizar o comportamento de busca não somente em termos dos recursos disponíveis e das estruturas das tarefas. Além disso, a análise deve também incluir aspectos sociais e culturais pertinentes à tarefa, além dos condicionamentos de ordem pessoal do responsável pelo processo de busca. Esta necessidade se revela mais crítica quando se trata do comportamento informacional em um ambiente específico e particular: o do trabalho.

A preocupação da autora encontra respaldo nos estudos de Pfeffer & Salancik (2003)37 , que salientam as diferenças do comportamento no ambiente de trabalho, se comparado ao comportamento manifesto pelos indivíduos em outros contextos sociais. Para esses autores, essas diferenças são devidas a processos internos às organizações, que influenciam as crenças e os sentimentos do indivíduo, seja a respeito do seu próprio trabalho, seja no que se refere à organização a qual pertence.

Seguindo essa lógica, cada indivíduo constrói (enacts) seu próprio trabalho em função de suas motivações, crenças, sentimentos e atitudes, experiências e conhecimentos adquiridos. Desta forma, não há como se separar assepticamente o indivíduo e suas manifestações comportamentais (incluindo-se o comportamento informacional) das tarefas a ele delegadas em um ambiente de trabalho.