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O corpus constitui-se de 8 textos jornalísticos divulgados entre setembro de 2010 (veiculação das primeiras entrevistas, matérias, reportagens etc. sobre o processo de

travestilidade da Laerte) e maio de 2013 (últimas publicações anteriores ao início da

análise dos dados), extraídos dos seguintes veículos: Bravo online (set. 2010); Último

segundo - portal IG (out. 2010); Seção Moda - IG (out. 2010); Revista Trip (dez. 2010); Suplemento Pernambuco (jan. 2011); FFW (jul. 2012); Revista Época (nov. 2012) e

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Ignorantsky - adaptação de um texto publicado na Revista Piauí e postado no Tumblr

(mai. 2013).

Na composição da amostra de textos que compõem o corpus de análise, foram considerados textos que dispunham de quantidade e qualidade significativas de informações quanto ao assunto (processo de travestilidade da Laerte), e que foram publicados em diferentes seções, tais como: Literatura (Revista Bravo); Cultura (Último segundo); Moda (Moda IG); Entrevistas (Revista Trip); Perfil (Suplemento Pernambuco); Notícias (FFW); Meu erro (Revista Época) e uma adaptação da Revista Piauí (edição 79) no Tumblr. Compreendemos a importância dos gêneros discursivos, como modos de agir e interagir discursivamente (FAIRCLOUGH, 2003) na análise linguístico-discursiva33; no entanto, nesta pesquisa, em virtude dos nossos objetivos, buscamos analisar o modo como a ordem discursiva midiática representa os atores sociais, Laerte Coutinho e as trans, isto é, o que diz, de que modo diz, por que escolhe algumas informações em detrimento de outras etc. Ademais, nos ativemos à potencial relevância da seção na qual os textos se encontravam, uma vez que observamos, talvez em virtude do nosso tema/objeto de estudo ser altamente transgressivo, uma recorrente quebra de expectativas, isto é, temas e informações que, a princípio, não seriam comuns a dada seção, mas que foram frequentes e importantes na construção dos textos analisados. Assim, as seções focalizavam a forma como o tema seria desenvolvido, sugerindo certas construções de significados.

A seleção dos textos se deu com base na „hierarquia‟ dos itens, nos textos mais acessados no site de buscas Google que veiculavam discursos sobre a „transformação‟ da Laerte Coutinho, após aderir à prática da travestilidade.34 Optamos por selecionar os textos com maior destaque dentre os itens listados durante as buscas, levando em consideração que, por se tratar de um meio digital, os indivíduos adotam a prática comum do meio cibernético: a informação mais rápida e de mais fácil acesso é eleita pelos usuários em suas leituras cotidianas. Obviamente, atentamo-nos para os veículos midiáticos escolhidos, buscando variar as fontes (algumas delas são reconhecidas pelo caráter informativo, outras pelo entretenimento, outras por sua inovação no trato dos temas, etc.), assim como a seção na qual o texto estava publicado.

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“genres are important in sustaining not only the structural relations between, for example, the academy and business, but also scalar relations between the local, the national, the regional […] and the „global‟. So changes in genres are germane to both the restructuring and the rescaling of social life in new

capitalism.” (FAIRCLOUGH, 2003:33-34)

34

A Laerte, nos textos analisados, se identifica como praticante da travestilidade, e, por isso, respeitaremos e adotaremos esses termos para nos referirmos ao processo descrito no corpus.

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A busca dos textos se deu da seguinte forma: digitou-se as palavras-chave Laerte+transgênero/crossdressing no site de buscas Google; pré-selecionamos os textos mais acessados/populares que representavam a „transformação‟ da Laerte Coutinho,

após „aderir à prática do travestilidade‟; coletamos os textos que não se enquadravam

no gênero artigo de opinião e que se aproximavam dos gêneros entrevistas e reportagem.35 Optamos por textos veiculados entre os anos de 2010 (início da „prática‟) e 2013 („consolidação da prática‟) que tratavam das experiências da cartunista Laerte como uma trans.

Em seguida, catalogamos os textos da seguinte forma:

Texto Ano/ mês Disponível em:

1 “Laerte: „Tenho vergonha

de quase tudo que

desenhei‟” Edição 157 - Setembro 2010 http://bravonline.abril.com.br/mater ia/tenho-vergonha-quase-tudo- desenhei-laerte

2 “Laerte em carne, osso e

minissaia” 26/10/2010 -12:21:50 http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/livros/laerte-em-carne-osso-e- minissaia/n1237811802611.html

3 “Ser mulher é muito caro” 26/10/2010-15:05:47 http://moda.ig.com.br/modanomund o/ser-mulher-e-muito-

caro/n1237812404702.html

4 “Paradoxo de salto alto” 16/12/2010 http://revistatrip.uol.com.br/so-no- site/entrevistas/paradoxo-de-salto- alto.html

5 “Por que foi que esse

homem teve que partir” 03/01/2011 http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/component/conte nt/article/5-perfil/272-por-que-foi- que-esse-homem-teve-que- partir.html

6 “Laerte fala ao FFW

sobre moda, consumo e crossdressing

13/07/2012 http://ffw.com.br/noticias/cultura- pop/laerte-fala-ao-ffw-sobre-moda- consumo-e-crossdressing/

7 “Laerte Coutinho: „Fiz

campanha eleitoral homofóbica‟” 14/11/2012 07h53 - Atualizado em 14/11/2012 07h53 http://revistaepoca.globo.com/Socie dade/noticia/2012/11/laerte- coutinho-fiz-campanha-eleitoral- homofobica.html

8 “Laerte em trânsito por

Fernando de Barros e

Silva”

02/05/2013- retirado da revista Piauí e publicado em uma rede social (Tumblr)

http://ignorantsky.tumblr.com/post/ 49468211995/laerte-em-transito- por-fernando-de-barros-e

Quadro 5 - Compilação dos textos que compõem o corpus

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Compreendemos a relevância dos gêneros discursivos nas construções identitárias e representações sociais, mas, em virtude da proposta do nosso trabalho, não nos ateremos à análise genérica.

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A escolha por trabalhar com textos digitais se deve a alguns fatores. Hoje, o Brasil possui mais de 37 milhões de usuários de internet, e as práticas de escrita e leitura estão cada vez mais conectadas às novas tecnologias e, até, amplificadas pela comunicação em rede. O trabalho na internet exige rapidez na leitura e muita seletividade, pois não podemos ler tudo o que está na tela, e a capacidade de selecionar não é algo muito trabalhado na formação dos/das leitores/leitoras. Vemo-nos rodeados/rodeadas, através da rede mundial de computadores, de páginas e sites que, nem sempre trazem-nos informações relevantes sobre o que estamos procurando e precisamos saber, e a internet acaba criando novos hábitos de comunicação entre as pessoas, que acabam se adaptando às facilidades da nova tecnologia. Todavia, a internet, felizmente, também pode contribuir para a desconstrução de discursos e práticas hegemônicas excludentes, pelo fortalecimento de movimentos em favor das minorias.36 Além disso, optamos por trabalhar com esse meio em específico pela visibilidade dada aos assuntos que antes eram silenciados.

Ademais, compreendemos que as mídias, em geral, possuem um papel a exercer na construção de novas possibilidades identitárias e sociais, e, consequentemente, no

reconhecimento do „diferente‟. As várias percepções sobre os gêneros sociais devem ser

constantemente atualizadas/reconstruídas em virtude das diversas movimentações históricas, políticas e econômicas e, por isso, acreditamos que uma das razões que justificam a escolha de textos digitais que tratam das trans no meio digital seja em virtude da premissa de que, na contemporaneidade37, as representações de gêneros vêm ganhando lugar na mídia em decorrência de necessidades econômicas e mercadológicas. Por isso, a construção do corpus busca refletir a diversidade que pode ser encontrada acerca da construção do discurso quanto as trans, e, mais especificamente, como a ordem discursiva midiática massifica, exclui, representa e/ou (re)produz discursos hegemônicos sobre a Laerte Coutinho e as trans.

36 Para Fairclough (2003), retomando Silverstone (1999), “o gênero midiático [...] recontextualiza e transforma outras práticas sociais [...] e é por sua vez recontextualizado nos textos e nas interações de diferentes práticas, incluindo, crucialmente, a vida cotiana, na qual contribui para o modo como nós

vivemos, e os significados que damos para nossas vidas.” (FAIRCLOUGH, 2003:34, tradução nossa)

37 “Complex modern societies involve the networking together of different social practices across different domains or fields of social life (e.g. the economy, education, family life) and across different scales of social life (global, regional, national, local). Texts are a crucial part of these networking relations – the orders of discourse associated with networks of social practices specify particular chaining and networking relations between types of text. The transformations of new capitalism can be seen as transformations in the networking of social practices, which include transformations in orders of

discourse, and transformations in the chaining and networking of texts, and in „genre chains‟.

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