O objetivo principal deste estudo foi de comparar a ecologia e o comportamento de dois grupos de Chiropotes satanas vivendo sob diferentes graus de fragmentação de hábitat no reservatório de Tucuruí, visando identificar fatores limitantes para sua sobrevivência e informações que possam ajudar no desenvolvimento de planos de conservação e manejo para a espécie.
Desta maneira, dois grupos de animais foram estudados em dois sítios, o primeiro numa pequena ilha (19,4 ha), e o outro num fragmento maior (1300 ha). Para cada grupo foi analisada de que maneira parâmetros ecológicos influenciam estratégias comportamentais. Variações na produtividade de hábitat, principalmente a disponibilidade de recursos alimentares, foram relacionadas aos diferentes aspectos do comportamento (alimentação, uso de espaço e orçamento de atividades).
Os resultados mostraram que os dois sítios têm florestas relativamente bem preservadas e ricas em espécies, compartilhando características gerais semelhantes em relação ao formato do fragmento e à quantidade de bordas. A diversidade de espécies no sítio T4 foi ligeiramente maior e a Ilha teve, proporcionalmente, floresta mais alta, mas também mais áreas perturbadas. Estas diferenças se deveram à variação natural entre as duas áreas, mas também resultaram em parte da ação antrópica na Ilha (onde já foi ocupada uma pequena parte, parcialmente desmatada, e podemos observar sinais de atividade de caçadores) e possivelmente dos diferentes efeitos da fragmentação em cada sítio.
Uma das principais diferenças entre os sítios, a qual influenciou todos os aspectos do comportamento dos cuxiús, foi sua diferença de tamanho. Esta resultou em diferentes usos do espaço e do tempo, e em variações na alimentação e no comportamento social dos dois grupos. O espaço disponível em cada sítio determinou o número de cuxiús que podia ser sustentado por eles. Por sua vez, as diferenças no tamanho dos grupos afetaram a organização social e os padrões de interação social. O grupo T4 tinha uma organização social de fissão-fusão complexa, com um tamanho de grupo variável ao longo do ano, enquanto o grupo Ilha permaneceu durante
144 percorridas. O grupo T4 utilizou áreas maiores em cada mês e se deslocou mais mensalmente, o que causou diferenças entre os grupos no tempo dedicado à locomoção e conseqüentemente em outras atividades. A área disponível também influenciou a distribuição de recursos, o mais importante dos quais são os alimentos. O grupo Ilha não somente tinha uma menor disponibilidade absoluta de recursos como também uma variedade de espécies à sua disposição ligeiramente menor.
Os primatas interagem com seu hábitat de diversas formas, a mais importante das quais é a aquisição de alimento, e também de abrigo, e caminhos arbóreas. A variação na composição taxonômica dos sítios afetou, de maneira global e sazonal, as dietas dos grupos em termos de espécies e itens consumidos. Havia na Ilha uma mistura de áreas de floresta alta de boa qualidade e de sucessão inicial de baixa qualidade, as quais eram ao mesmo tempo melhores e piores (do ponto de vista alimentar) do que as transecções da T4. O grupo Ilha consumiu mais sementes de espécies preferidas pelos cuxiús, tais como aquelas pertencentes às famílias Lecythidaceae e Sapotaceae, particularmente durante a estação seca, quando os recursos como polpa são geralmente escassos. Enquanto o grupo T4 explorou as sementes de Vouacapoua americana intensamente em março, e se alimentou bastante da polpa de Attalea speciosa, nenhuma destas espécies estava presente na Ilha. É provável que ambos os grupos tenha tido meses “difíceis”, quando os recursos alimentares eram escassos (março e abril para o grupo Ilha; abril para o grupo T4) e os cuxiús recorriam a recursos menos preferidos, como flores. Este período de escassez parece ter sido mais agudo para o grupo Ilha, que chegou a se alimentar de medula de galhos maduros. Este grupo parece, do ponto de vista alimentar, passar da abundância (devida à exploração intensiva de algumas espécies-chave presentes na Ilha) à escassez (devida ao menor espaço disponível e a sua menor variedade de espécies vegetais) de maneira mais extremada que o grupo T4.
O presente estudo demonstra, globalmente, que os cuxiús têm um maior grau de flexibilidade comportamental face á mudanças ambientais e são mais tolerantes à perturbação de seu hábitat do que se pensava há uma década. As respostas comportamentais dos cuxiús, como adaptar sua dieta consumindo diferentes itens alimentares tais como flores e medula de galhos, e aumentar a flexibilidade de seus padrões de agrupamento (no caso de T4), permitem que eles vivam em áreas menores do que antes se considerava possível. Neste estudo a espécie mostrou a capacidade para sobreviver e se reproduzir em uma densidade de um cuxiú por aproximadamente 2,5 ha (em comparação com 5,6 ha para C. chiropotes em uma ilha antrópica: Peetz, 2001). No caso da Ilha
do João, esta sobrevivência tem durado mais de vinte anos em um ambiente extremamente restrito.
Não obstante esta maior tolerância à perturbação de seu hábitat, parece óbvio que populações de cuxiús vivendo em pequenas ilhas com poucas oportunidades de dispersão, tais como o grupo Ilha, não são viáveis a longo prazo devido à estocasticidade demográfica e à depressão endogâmica. Além disso, o pequeno tamanho e o isolamento de ilhas como a do presente estudo as tornam mais sensíveis aos desequilíbrios ecológicos.
O conhecimento sobre o comportamento animal é um elemento essencial no manejo e conservação da fauna silvestre. Isso é particularmente verdadeiro para primatas que demonstram flexibilidade comportamental face à diversidade de seu hábitat e da distribuição de recursos nele contidos. Para podermos identificar os fatores que limitam o crescimento populacional do cuxiú- preto, precisamos de informações sobre a relação entre, por um lado, sua organização social, estratégias reprodutivas, necessidades espaciais e densidade populacional, e por outro, a identificação de seus recursos-chave, e sua abundância e distribuição no tempo e no espaço. Também precisamos “traduzir” este conhecimento em informações capazes de orientar planos de manejo e conservação. Os dados do presente estudo, combinados com conhecimento sobre seu comportamento, apoiarão a concepção e implementação de planos de manejo e conservação para esta espécie ameaçada.
O cuxiú-preto já está localmente extinto na maior parte da sua área de distribuição original e o que resta desta área está muito fragmentado e sob constante pressão de desmatamento. A área protegida na região do reservatório da UHE - Tucuruí parece ter um excelente potencial tanto para conservação do cuxiú-preto quanto para uma avaliação sistemática dos fatores que podem limitar sua sobrevivência a longo prazo. É fundamental a proteção eficaz desta área. A implementação de programas de educação ambiental pode alertar sobre a situação da espécie e diminuir a pressão de caça. Uma grande quantidade de pesquisas complementares é necessária para fornecer dados sobre as características da espécie e sobre as influências externas na mesma.
As conclusões deste estudo trazem em seu bojo algumas questões as que necessitam um trabalho de pesquisa suplementar para serem respondidas, entre as quais:
(i) Quais os efeitos da exploração intensiva de certas espécies vegetais, como no caso do sítio Ilha, onde os cuxiús predaram Eschweilera subglandulosa de maneira intensiva,
146 longo prazo para a árvore não são conhecidas. Em áreas maiores, os efeitos deste tipo de predação são diluídos, o que não ocorre com áreas pequenas como o sítio Ilha;
(ii) Quais são os mecanismos de dispersão dos cuxiús? Os dados do presente estudo mostram
um grau inesperadamente alto de interação social entre machos. Durante o monitoramento dos cuxiús, fêmeas solitárias foram observadas a certa distância de seu grupo. Pode ser que os machos sejam filopátricos neste gênero, embora mais dados sejam necessários para confirmar esta suposição. Caso ela se confirme trata-se de uma informação que poderia ajudar em decisões sobre translocação de indivíduos e grupos;
(iii) Como ocorrem migrações entre ilhas? Apesar de haver evidências de movimento de
indivíduos entre ilhas, isto ocorre provavelmente somente entre ilhas conectadas por pontes de terra que se formam quando o nível da água do reservatório está baixo. As limitadas oportunidades de dispersão constatadas para populações isoladas são provavelmente insuficientes para garantir a manutenção de sua variabilidade genética. São necessários estudos para estabelecer a diversidade genética das populações existentes de cuxiú-preto, os quais contribuiriam para a concepção de um plano de manejo efetivo para o conjunto das populações remanescentes na área do reservatório de Tucuruí. Um programa de translocação poderia ser implementado para garantir a manutenção da diversidade genética da espécie. Uma opção seria a translocação de animais das pequenas ilhas para ilhas grandes onde eles não estão presentes e que tenham características adequadas de hábitat (Ferrari et al., 2004).