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O jornal aparece como fonte de informação de quatro leitores que o situam em seus textos. Exemplo: “Antiga dúvida pessoal foi respondida na reportagem Um rio de problemas no coração de BH”105. As demais não falam do jornal diretamente,

porém quatro delas elogiam a forma como os jornalistas abordam a cidade. Exemplo: “Parabéns ao autor da matéria abaixo, pois soube sintetizar um episódio e conjugá-lo com a realidade de praticamente toda a Cidade”106. Dessa forma, os leitores demonstram concordar com o tratamento dado pelo jornal às notícias sobre sua cidade.

Todas as cartas foram escritas em tom de reclamação, sendo que para 11 leitores a solução dos problemas não passa por suas mãos. Exemplo: “exigimos

100

Títulos e datas dos textos publicados sobre a dengue: 10.02 - Artilharia reforçada contra o mosquito; 11.02 - Concentração da doença preocupa; 14.02 - Alerta de dengue por telefone; 20.02 - Confirmada primeira morte; 26.02 - BH cria plano especial para doentes de dengue; 27.02 - BH se arma contra a epidemia; 28.02 - Ameaça é maior que a de 1998; 01.03 - Dengue movimenta Upas; 04.03 - Cresce ameaça da febre hemorrágica; 06.03 - Isolar ‘dengoso’ é boa ideia; 07.03 - Cidadão põe a boca no trombone; 08.03 - Upas cheias e leitos da dengue vazios; 09.03 - Venda Nova: Posto de saúde só para dengue; 10.03 - Dengue vira briga de vizinhos.

101

Títulos e datas dos textos publicados sobre a limpeza urbana: 15.02 - Lixo urbano invade sítio; 10.03- Lixo vai para fogueira.

102

Título e data do texto publicado sobre a Vila do Acaba Mundo: 05.03 - Vila Acaba Mundo.

103

Quatro deles tratam do trânsito em BH, três sobre a rodoviária. Os demais subtemas são tratados por uma carta cada: administração municipal, árvores, revitalização do centro, BH Shopping, patrimônio, carnaval e segurança.

104

Duas delas tratam do trânsito e os demais subtemas foram tratados por uma leitora cada: imóveis, árvores, dengue, carnaval, Vila Acaba Mundo e limpeza urbana.

105

Trecho extraído de outra carta: “No Estado de Minas de hoje tem uma reportagem e uma foto [...]”.

106

Trechos extraídos de outras cartas: “Primeiramente, parabenizo o EM pelas reportagens recentes que abordaram assuntos relacionados ao patrimônio histórico de Belo Horizonte”; “Se não fosse a confiabilidade depositada no repórter, poderia se dizer que ele apenas repetiu matéria dos anos anteriores”; “Sou leitor e assinante desse conceituado Jornal”; o jornal de vocês ainda é o único que respeita as tradições da família”..

uma providência da BHTrans a tempo e modo”107. Um leitor chega a enumerar 68 sugestões de mudança no sistema de trânsito de Belo Horizonte.

As palavras indicam que os leitores se consideram impotentes frente às questões da cidade e de seu bairro, sendo que sua administração cabe principalmente à esfera pública, e, em alguns casos, à iniciativa privada, dois setores da sociedade mais fortes que os/as cidadãos/ãs individualmente. O governo – um valor, segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca (2002) – é quem deve promover a melhoria na qualidade de vida da população. Nesse ponto percebe-se que a argumentação se faz com base numa hierarquia, ou seja, o Estado deveria agir primeiro, estar acima da ação do cidadão.

Sete deles relatam tentativas de reverter os fatos, mas mais uma vez se posicionam como impotentes frente à posição que ocupam diante das situações que enfrentam, cujo domínio pertence às instituições e não ao cidadão isoladamente. Exemplo: “Tentei falar pelo Disque BB, mas sem sucesso”108.

Outros três leitores se inserem como corresponsáveis pela mudança que depende essencialmente da modificação de valores como a consciência cidadã de cada indivíduo. Eles sugerem ações para a população como um todo. Exemplo: “Ainda nos falta consciência histórica, a vontade de preservar sem ser pela obrigatoriedade de um tombamento”109.

De certa forma, o jornal é considerado por todos como um veículo capaz de dar visibilidade aos problemas, o que facilita a busca da solução. Isso fica bastante claro nas palavras de um leitor: “Por favor, publiquem urgente esta carta, alertando as nossas famílias, autoridades e a prefeitura que é covarde e faz de conta que nada sabe”.

107

Trechos extraídos de outras cartas: “Lugares como os arredores da rodoviária e adjacências merecem e necessitam urgentemente de requalificação e o prefeito Lacerda precisa manter a mesma motivação de seu antecessor”; “Como a PBH poderá agir, juntamente com a Promotoria Pública e a Policia Militar e civil? Estamos apelando às Associações de Bairro, à Superintendência do BH Shopping ou à própria empresa executora que tomem uma posição imediatamente”; “No meu entendimento, falta acima de tudo vontade política”; “Ao invés de jogar nas mãos da prefeitura a decisão, não poderia o colégio, como proprietário dos imóveis, enxergar seu papel na construção de uma cidade melhor, tomar para si a responsabilidade de proteger o conjunto?”.

108

Trecho extraído de outra carta: “Jamais vou me esquecer de meu pai quando na inauguração da atual rodoviária; não havia como transitar dentro da Rodoviária de BHte, não gosto nem de lembrar, [...] cancelei o meu passeio”.

109

Trechos extraídos de outras cartas: “A população precisa ser melhor ouvida, para votar, com consciência, o Orçamento Participativo”; “Se queremos ter uma cidade jardim, teremos de cuidar das nossas árvores”.

Quatro buscam embasamento nas leis ou instituições públicas, falando na primeira pessoa do plural ou como cidadão inserido em uma sociedade. Exemplo: “Felizmente as atas do Conselho Deliberativo de Patrimônio Histórico, disponibilizadas no site da prefeitura, nos permitem acompanhar”110. Dois leitores, inclusive, citam um direito básico da cidadania. Exemplo: “A Constituição Federal assegura o cidadão o direito e ir e vir, menos, àqueles que utilizam as vias de acesso no entorno da rodoviária de B.Horizonte”111.

Ao colocar suas experiências individualmente e em grupo, ou suas expectativas como cidadãos inseridos num sistema de leis, os leitores posicionam as necessidades de sua região como de grande importância frente às demandas oriundas de todos os pontos da cidade.

Um dos leitores que reclamou da BHTrans qualificou seus administradores de “teóricos com suas lábias e o jeito manso de petistas natos e os motoristas de mal educados”. Outro rotulou os vereadores de Belo Horizonte de pessoas que sofrem “de pequenez de visão e de competência”. Já o leitor que abordou o bloco pré- carnavalesco o comparou à Sodoma e Gomorra e a seus foliões chamou de “bando de baderneiros e arruaceiros”; enquanto outro, ao tratar da administração da rodoviária, usou o termo “Filhos de Deus”; já a prefeitura e as empresas de ônibus rodoviários qualificou como “covardes”. Esses leitores sustentam esses pontos de suas argumentações no lugar da qualidade, visto que, ao depreciar os outros, se posicionam acima deles.

Dois recorrem a valores religiosos. Exemplo: “Temos que dar um fim nesta imoralidade. Por Deus, pela família, pelos nossos filhos e netos”112. Um recorreu a personalidades já falecidas: “Acredito que os espíritos de Juscelino Kubitschek, Magalhães Pinto, Milton Campos [...] estejam voando em seu gabinete”.

Dois, entre os 14 leitores, citaram sua profissão: consultor/administrador estudioso dos problemas das cidades; advogado. Outros dois se identificaram de outra maneira: um se disse “autodidata” e outro “sou como meu pai, semi-

110

Trechos extraídos de outras cartas: “Lembramos que existe um Código de Posturas que deveria ter no BH Shopping seu maior defensor e o primeiro a respeitá-lo”; “ A Constituição Federal assegura o cidadão o direito e ir e vir, menos, àqueles que utilizam as vias de acesso no entorno”.

111

Trecho extraído de outra carta: “Afinal o direito de ir e vir é de todos que acessam aquele trecho da Rua São Roque”.

112

Trecho extraído de outra cartas: “Escutei, não sei onde, guardei e dou de graça para quem quiser ouvir: DEUS limitou a inteligência do Homem, mas a ignorância, não”.

analfabeto”. Porém, a seguinte frase, retirada de uma das cartas resume melhor o que todos os outros que se identificaram apenas com seu nome parecem dizer: “ninguém precisa ser formado para saber que em uma cidade que cresce de forma tão intensa, cujo trânsito cada dia mais sobrecarregado”.