Após quatro décadas de atividade, a Escola Militar do Realengo, principal estabelecimento de ensino do Exército Brasileiro em sua época, foi transferida para o município de Resende, no sul do estado do Rio de Janeiro. Na nova sede, recebeu a denominação de Escola Militar de Resende, alterada em 1951 para Academia Militar das
Agulhas Negras265.
Conforme visto no segundo capítulo, a transferência para o Realengo, no final do ano de 1904, foi uma medida que traduziu a intenção do governo de afastar a Escola Militar do centro político da cidade, projeto que em longo prazo se mostrou malsucedido. As décadas seguintes foram marcadas por uma crescente participação dos militares na vida política nacional: no movimento tenentista da década de 1920, incluindo os levantes de 1922 e 1924; na Revolução de 1930, que conduziu Getulio Vargas ao poder; na Revolução Constitucionalista de 1932 e na implantação do Estado Novo em 1937. Mesmo após a extinção da escola, as gerações formadas no Realengo ainda tiveram participação na derrubada de Vargas, em 1945, e na articulação do golpe militar de 31 de março de 1964.
Uma considerável quantidade de estudos articula a participação de militares nesses episódios com sua formação na Escola Militar do Realengo - ou propõe até mesmo uma influência direta dessa formação nas posições ideológicas dos seus integrantes, em razão do ambiente sociocultural da escola, que permitiu à futura liderança do Exército partilhar as mesmas experiências de reflexão sobre a situação política do país em sua época (Silva, 1971; Drummond, 1986; Curvo, 2005; Svartman, 2006). Também existem pesquisadores (Motta, 1976; Franco, 2004; Alves, 2006; Grunennvaldt, 2006) que se
265 Decreto nº 29.484, de 23 de abril de 1951. Altera o atual nome da "Escola Militar de Resende" para
interessaram em tomar a Escola Militar como objeto de estudo a fim de abordar a questão da evolução técnica e pedagógica do ensino militar. Porém, no que se refere à influência da escola no desenvolvimento urbano de Realengo, e ao próprio patrimônio construído durante sua existência, os registros são escassos e praticamente inexistem trabalhos acadêmicos a respeito. Entretanto, como aponta Fernandes (2006), existiriam importantes razões para a realização de estudos nessa área:
Estudar os processos que envolvem as Forças Armadas como uma instituição, em seu processo de constituição multifacetado, justifica amplamente a pesquisa sobre as suas dimensões espacial, geográfica, política, social e paisagística da cidade do Rio de Janeiro. E tanto o tempo como o espaço do Rio de Janeiro estão se revelando um universo riquíssimo para se desenvolver tal proposta, porque aqui se concentrou um dos aspectos mais marcantes da história das Forças Armadas no século XX, ou seja, a sua modernização, cuja complexidade faz parte das transformações da sociedade e do Estado brasileiro. (Fernandes, 2006).
Apesar da existência de produções acadêmicas e literárias sobre a Escola Militar, o conhecimento sobre seu patrimônio no Realengo permanece como uma questão de pouco destaque. Abordar esse tema possui relevância na medida em que, como pode ser apreendido nos trabalhos citados acima, a escola não foi um referencial somente da tradição militar, mas também da história, da educação e do pensamento político e social brasileiro. Seu patrimônio material revela também aspectos da produção do espaço urbano carioca, representando projetos do poder público e de seus agentes em diversos momentos históricos.
O desenvolvimento de Realengo durante o período de funcionamento da Escola Militar ilustra um processo singular na urbanização do Rio de Janeiro, uma vez que esse bairro foi o centro histórico a partir do qual amplos espaços da zona rural do município foram ocupados pelas Forças Armadas. Assim, as instalações da Escola Militar e da Fábrica de Cartuchos são importantes marcos urbanos, constituindo registros materiais da história local e nacional, além de possuírem valor paisagístico como representantes de
diversos estilos arquitetônicos e períodos históricos, uma vez que erguidas ao longo de mais de cem anos, atravessando os períodos monárquico e republicano.
Figura 31 - Vista lateral da antiga Escola Militar.
Vista lateral do prédio da antiga Escola Militar do Realengo, situada na rua Bernardo Vasconcelos, atualmente ocupado pelo Comando da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada. Fotografia de Anderson Viana, ano 2010.
Hoje, no entanto, as antigas instalações militares, os imóveis destinados à residência dos integrantes da escola e da fábrica, e outros espaços que permaneceram sob jurisdição militar se encontram em deficiente estado de conservação. Após a transferência da escola para Resende, as edificações foram ocupadas sucessivamente por organizações militares diversas, que visando ao atendimento de necessidades imediatas promoveram uma série de alterações em suas estruturas, sem a observação de quaisquer critérios de preservação. Atualmente, o edifício principal da antiga Escola Militar se encontra ocupado pelo Comando da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada. A área principal da Fábrica do Realengo, após décadas de abandono, transformou-se em ruínas, e, apesar de tombada266 por uma lei municipal, apenas recentemente teve uma pequena extensão restaurada para abrigar uma unidade do Colégio Pedro II. Em uma segunda área da fábrica, também protegida pelo tombamento, está sendo realizada a construção de um centro federal de educação tecnológica, mas em sua maior extensão a mesma área ainda se encontra abandonada e em ruínas, sendo alvo constante de invasões e depredações.
266 Lei Municipal nº 1.962/93, de 4 de maio de 1993. Tomba o prédio da Fábrica de Cartuchos do Exército, e
O processo de deterioração dessas áreas se acelerou em 1977, quando a fábrica de cartuchos foi extinta; entretanto, a decadência dos prédios históricos do centro do bairro já havia começado a ser observada desde a transferência da Escola Militar para Resende, em 1944, a qual se seguiu o declínio do comércio e a ocupação desordenada das áreas periféricas do Realengo.