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In document Støyestimat for Gullknapp flyplass (sider 16-24)

Retomo um dado simples, mas extremamente importante: Sonata de outono é um texto-roteiro escrito1 por um homem – Bergman (1988) –, e também, um filme. Bergman relata, acompanha e divide sua perplexidade com maestria e sensibilidade, diante dessa “terrível combinação de sentimentos entre uma mãe e uma filha.”

É esse olhar masculino, capaz de relevar um universo próprio ao feminino, que coloco em evidência neste item. A competência de Bergman – nomear e transformar em uma obra de arte, um conflito característico do feminino – deve ser fruto da capacidade de integração de suas identificações: tanto masculinas, quanto femininas; ou seja, ele é hábil o suficiente para transitar por universos interligados, no entanto, distintos.

É o marido de Eva – Viktor – aquele que narra a dor entre a mãe e a filha. Na abertura do filme, como já descrito, Viktor fala de maneira angustiada da sua impossibilidade de encontrar as palavras certas e críveis para dizer que Eva é amada. A possibilidade de ela sentir-se amada vai se revelando como um repertório ausente. Seria “como procurar na escuridão” (BERGMAN, 1988, p.12), uma língua que se aprende com o objeto primário.

É Viktor que atentamente ouve sua esposa ler a carta que vai enviar à mãe. Eva parece buscar que sua adequação seja confirmada. É ele que escuta as

1 Como o item anterior – Sonata de outono, a insustentável nostalgia da mãe – contempla, predominantemente, as falas e cenas do filme, neste utilizo o livro-roteiro.

114 confidências dela sobre a constatação do muro narcísico intransponível, assim parece, entre Eva e a mãe:

Eva: Mãe estranha e incompreensível está aí, sem dúvida! (...) Acho que minha mãe é totalmente fria, não tem sentimentos.

(...)

Eva: Será que a gente nunca vai deixar de ser mãe e filha?

Viktor: São poucas as que conseguem sê-lo. (BERGMAN, 1988, p. 37).

É um comentário sem dúvida intrigante: não é possível deixar de ser, e, paradoxalmente, são poucas as que conseguem ser mãe e filha. Isso me leva a pensar em uma relação que se inclina ao estranho lugar de não poder deixar de ser e não poder ser: uma tensão paradoxal com poucas chances de desenlace para algumas mães e filhas.

Viktor entra em cena com pontuais intermediações apaziguadoras da potencialidade explosiva do relacionamento de Eva e Charlotte. A cena – na qual as duas tocam os prelúdios de Chopin – termina com os ânimos exaltados:

Viktor: Achei a análise de Charlotte simplesmente sedutora, mas a interpretação de Eva mais atraente. (BERGMAN, 1988, p.52)

Ele habilmente elogia, valoriza as duas, e não uma em detrimento da outra. A semelhança entre Viktor e Josef (pai de Eva) é explicitada no seguinte comentário sarcástico da mãe:

Charlotte: É um homem triste, o Viktor, arrepiantemente parecido com Josef, embora mais insignificante... Vivem enchendo a paciência um do outro, certamente! (BERGMAN, 1988, p.71).

Eva descreve o pai como alguém submisso à mãe; relata que o consolava dizendo que a mãe ainda o amava. Tanto o pai quanto a filha idealizavam a mãe, suas viagens e concertos em vários países:

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Eva: Nós ficávamos ali sentados, feitos dois imponentes idiotas, lendo suas cartas duas, três vezes, e achando que não podia existir pessoa mais maravilhosa do que você. (BERGMAN, 1988, p. 76).

Charlotte, assim me parece, estruturou-se psiquicamente por meio de uma armadura narcísica quase intransponível; apenas a idealização favorece fragilmente seus vínculos.

Eva (diz para a mãe):...eu te amava e vivia permanentemente convencida de que você tinha razão e eu estava errada. (BERGMAN, 1988, p. 91).

O pai estava constantemente presente na infância de Eva. Filha e pai consolavam-se pela ausência da mãe – de ambos, podemos especular. Talvez o pai de Eva se identificasse com o sofrimento da filha, pela ausência da mãe, ou seja, ele mesmo teria como referência materna uma ausência impregnada de idealização.

A criança está exposta à maneira como o casal parental se relaciona – conscientemente e inconscientemente –, contexto emocional materno e paterno no qual está completamente submersa1:

Eva: Tenho pensado tanto em vocês nos últimos tempos, mas a vida em comum de vocês permanece para mim um enigma. (BERGMAN, 1988, p. 84).

Viktor e Josef se assemelham, pois ambos consolam Eva em sua dor de não se sentir reconhecida e compreendida pela mãe. Eva descreve o modo como o pai a consolava após a partida da mãe para uma turnê:

Eva: E então eu chorava nos joelhos de papai e ele ficava

completamente imóvel com a sua mão pequena e macia, na minha cabeça. (...) Papai e eu compartilhávamos a solidão muito bem. Na verdade, não tínhamos muito a dizer um ao outro. Mas tudo era tranquilidade perto dele. (BERGMAN, 1988, p. 82).

116 A distinção mais evidente não está entre Viktor e Josef (marido e pai), mas nas características dos casais pertencentes a gerações diversas. Viktor e Eva são amigos confidentes; respeitam e tratam um ao outro com cuidado e carinho: “Viktor é meu melhor amigo. Não sei como seria a minha vida sem ele.” (BERGMAN, 1988, p. 63). Já no casal formado por Charlotte e Josef (pais de Eva), essas características não parecem estar presentes, mas, sim, a idealização e a submissão.

Viktor está sempre atento a Eva, observando a sutiliza de seus estados mentais:

Viktor: Às vezes fico aqui parado olhando pra minha mulher sem que ela se aperceba da minha presença. Ela tem sofrido muito, muito mesmo. (BERGMAN, 1988, p. 125).

Viktor parece aguardar, com esperança reservada, o momento no qual ele a terá integralmente: instante no qual ele encontrará as palavras certas para dizer o quanto a ama. Mas Eva, de maneira diversa da mãe, também está inacessível para sentir-se amada e amar:

Eva: Eu disse a Viktor que não o amava. Você finge que ama. Essa é a diferença. (BERGMAN, 1988, p. 74).

Aqui se evidencia o impedimento: provavelmente não seja uma questão de encontrar as palavras certas, mas talvez um território que tende a ser mais característico do objeto primário1. Expressando de outra forma, será que quando existe uma lacuna tão profunda na constituição psíquica, devida, principalmente, a uma insuficiência na relação inicial com a mãe, seja possível acessar esse território arcaico e abandonado à escuridão? O filme não parece otimista em relação a essa questão; ela permanece aberta para que o espectador ou leitor siga o rumo de seus próprios pensamentos.

Josef parece ter sido um pai acolhedor e companheiro. No entanto, é alguém impossibilitado de amar e de se sentir amado. A filha (Eva) era quem o consolava

117 em relação ao desamor da mãe. Ambos não se sentiam amados por Charlotte, e se confortavam mutuamente.

As características de conforto e acolhimento também estão presentes no casamento de Eva, assim como a impossibilidade de amar. Podemos especular que o relacionamento de Eva com Viktor é – considerando o doloroso limite da impossibilidade de sentir-se amado/amada – suficientemente satisfatório enquanto parceria possível entre os dois.

Viktor diz que Eva é amada, mas não consegue encontrar as palavras certas para dizê-lo. Eva clama por alguém que a ame como ela é; talvez consiga encontrar- se, ao sentir-se amada. O impasse está posto.

Prossigo com a discussão teórica de duas questões aludidas aqui: a primeira é a bissexualidade psíquica do casal parental e suas marcas identificatórias no psiquismo infantil, transpondo gerações. Com outras palavras: a experiência afetiva de Eva com o casal parental, e a decorrente constituição de uma trama identificatória, que faz parte tanto da constituição de um eu feminino, quanto da escolha amorosa feita na vida adulta. A segunda, interligada à primeira, é o estatuto diverso do pai como objeto e da mãe como objeto – discussão feita no item O pai no olhar da mãe.

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