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À semelhança do Brasil, o fator que atualmente confere a maior vantagem geopolítica e geoestratégica à Rússia é a sua riqueza em recursos naturais. Na realidade, a sua classificação enquanto potência emergente ou reemergente advém, segundo Jérôme Guillet34, desta riqueza, e em particular, do facto de ser o maior exportador de gás natural. Se, por um lado, o Brasil tem inovado nas energias renováveis, a Rússia continua a deter as maiores reservas mundiais de gás natural e ainda grandes reservas de petróleo (ver Gráfico I, pág. 31), os dois recursos mais procurados mundialmente.

Gráfico III

Reservas Mundiais de Gás Natural

44 29 25 7 4,5 3 1 13 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 Trilhões de m3 Rússia Irão Qatar EUA Argélia China Índia Brasil

Fonte: OPEP – Annual Statistical Bulletin 2009

34

Jérôme Guillet, “La Russie: émergente ou réémergente?”, in L’enjeu mondial: les pays émergents, Presses de Sciences Po-L’Express, Paris, 2008, p. 150

Em termos energéticos, a Rússia encontra-se numa posição estratégica decisiva, por uma razão simples: é o maior fornecedor de gás natural da Europa e das ex-repúblicas soviéticas. Na realidade, a Rússia é o maior produtor mundial de gás natural (21,8% do total), o maior exportador (detém 24% das exportações mundiais), e tem a União Europeia como o maior importador mundial35. Significa, portanto, que a Rússia tem grande parte da Europa sob a sua dependência energética. A maior prova deste facto está na situação de quase desespero que criou na Europa, quando decidiu suspender o fornecimento de gás em 2005 e em 2009. A origem – importa salientar – esteve numa alteração de influência política regional: a aproximação da Ucrânia à NATO e à União Europeia. Ora, embora nem toda a Europa seja exclusivamente dependente do gás russo (casos da Península Ibérica e dos países escandinavos, em particular a Noruega), a verdade é que as maiores economias europeias e ainda todo o leste europeu importam o gás da empresa estatal russa Gazprom em grandes quantidades. Mesmo com o decréscimo no volume de importações de 2008 para 2009, a dependência do gás russo permanece bastante grande, sobretudo em países do leste, como a Ucrânia e a Bielorrússia, que importam ainda mais do que a Alemanha.

Figura I – Importações do Gás Russo (2008 e 2009)

Fonte: Relatório Anual da Gazprom (disponível em: http://www.gazprom.com/investors/reports/2009/)

35

Dados do artigo de Catarina Mendes Leal, “Gás Natural no Século XXI: Uma Visão Geoeconómica”, Da Sphera, Lisboa, 2007, p. 11

Ora é precisamente na Ucrânia que a Gazprom tem enfrentado sérias disputas, e apesar de a Europa ocidental estar livre deste conflito diplomático, o facto é que cerca de 80% do gás russo exportado para a Europa passa pela Ucrânia36. Consequentemente, qualquer conflito entre estes dois países afeta inevitavelmente quase toda a Europa.

A disputa é, mais concretamente, entre as duas grandes empresas estatais: a russa Gazprom e a ucraniana Naftogaz. Mas apesar deste contexto empresarial, a verdade é que as divergências são eminentemente políticas, pois começaram logo após a Revolução Laranja, entre 2004 e 2005, na Ucrânia, símbolo da maior perda de influência russa no leste europeu. A estratégia ucraniana de crescente aproximação à União Europeia e à Aliança Atlântica causou-lhe, visivelmente, grandes dificuldades nas relações com a Rússia, e o setor energético ficou particularmente afetado, com a Rússia a aumentar significativamente os preços de venda do gás à Ucrânia. A disputa central envolve o preço real do gás vendido pela Gazprom: tanto a Rússia como a Ucrânia reclamam que os preços nominais não correspondem à realidade, sendo que, nas negociações, a Rússia apresenta um preço sempre superior ao proposto pela Ucrânia37. Ora, sempre que é necessário renovar o acordo de fornecimento de gás entre os dois países, a intransigência de ambos os lados termina num impasse. A consequência mais visível traduz-se nas ações drásticas tomadas pela Rússia, ao reduzir o fornecimento de gás à maioria da Europa ocidental que, em Janeiro de 2009, se viu confrontada com um corte total no fornecimento de gás natural.

Com efeito, a Rússia utiliza a sua enorme capacidade energética para executar uma estratégia geopolítica que coloca grande parte da Europa, e em particular a Ucrânia, na sua dependência e influência. Na verdade, toda a estratégia energética da Rússia, após o fim da URSS, tem sido no sentido de exercer a sua influência política nas ex-repúblicas soviéticas. A Bielorrússia, por exemplo, concede ficar sob influência política russa em troca do petróleo38. O mesmo acontecia com a Ucrânia antes da Revolução Laranja: recebia o gás natural russo a preços muito reduzidos. Após a revolução, a Rússia passou a exigir preços de mercado à Ucrânia, justamente no mesmo ano da mudança política. Acresce ainda que, no futuro, a relação de dependência não sofrerá alterações significativas, uma vez que a Rússia situa-se na região do mundo com maior potencial

36

Dados do artigo de Edward Chow e Jonathan Elkind, “Where East Meets West: European Gas and Ukrainian Reality”, The Washington Quarterly, vol. 32, nº 1, Washington, 2009, p. 78

37

“Ukraine claims to receive gas, while Russia claims to sell gas, at nominal prices that do not correspond with reality.” Edward Chow e Jonathan Elkind, op. cit. p. 83

38

José Alberto Loureiro dos Santos, O Império Debaixo de Fogo: Ofensiva Contra a Ordem Internacional Unipolar, Europa-América, Mem Martins, 2006, p. 132

de gás natural por descobrir. Estima-se, aliás, que continue a ser a maior produtora e exportadora mundial em 2040, altura em que a procura mundial atingirá cerca de 90%, ultrapassando o carvão e ficando atrás apenas do petróleo39.

No meio destas disputas está a Europa ocidental, cuja dependência do gás russo ascende a cerca de 25% das suas necessidades de gás natural40. Ora, a Rússia tem todo o interesse em manter esta dependência, não apenas por razões políticas que permitem exercer pressão sobre os países europeus, mas também porque dois terços dos lucros da Gazprom provêm das ligações que atravessam a Ucrânia41. Estas razões justificam o facto de a Rússia estar já a investir na construção de dois projetos de gasodutos que contornam justamente a Ucrânia no fornecimento de gás ao resto da Europa: o Nord

Stream, que atravessa o mar báltico e contorna a Ucrânia e a Polónia até à Alemanha; e

o South Stream, que atravessa o Mar Negro até aos países balcânicos, Áustria e Itália.

Figura II

Nord Stream e South Stream

Fonte: BBC (disponível em: http://news.bbc.co.uk/2/hi/8607214.stm)

39

Dados do artigo de Catarina Mendes Leal, “Gás Natural no Século XXI: Uma Visão Geoeconómica”, Da Sphera, Lisboa, 2007, p. 25 e p. 27

40

José Alberto Loureiro dos Santos Op. cit. p. 132

41

Dados do artigo de Edward Chow e Jonathan Elkind, “Where East Meets West: European Gas and Ukrainian Reality”, The Washington Quarterly, vol. 32, nº 1, Washington, 2009, p. 78

Todavia, se por um lado a Rússia dificilmente abdica da sua enorme vantagem energética enquanto instrumento geopolítico, por outro lado a Europa ocidental também já percebeu que tem de reduzir a sua dependência relativamente ao gás russo. O facto de a Rússia já ter provado que é capaz de tomar ações drásticas para conseguir os seus objetivos políticos e económicos, deixa a Europa numa posição frágil e receosa. É por esta razão que a Europa tem aumentado a procura por outras alternativas de abastecimento, além da hipótese da energia nuclear42. Por outro lado, impõe-se outra questão relativa à estratégia energética europeia, pois se é verdade que a Rússia é o maior fornecedor de gás natural de toda a Europa, também é verdade que a Europa é o maior comprador do gás russo. A situação é idêntica à que se passa entre o Brasil e a Bolívia, onde a relação de dependência não é tão grande justamente porque a Bolívia não tem outra opção. Ora, por que razão então existe uma relação de dependência tão grande na Europa relativamente à Rússia? A resposta está na falta de uma estratégia comum da Europa – ou, pelo menos, da União Europeia – que consiga unificar a posição europeia numa única voz, de modo a impedir a Rússia de seguir para posições radicais. Sem esta estratégia, a Europa continua dependente das decisões geopolíticas e geoestratégicas da Rússia, e só a procura por outras fontes de abastecimento ou a opção do nuclear poderão reduzir a dependência da Europa ocidental no futuro.

A “diplomacia do tubo” russa revela-se, assim, uma das grandes mais-valias do poder russo atualmente, e o melhor instrumento de influência política sobre toda a Europa, com especial incidência no leste europeu. Se a Rússia é considerada uma potência emergente, deve-o, em grande parte, a esta vantagem energética que lhe permite ter uma influência regional decisiva (apesar das crescentes inimizades regionais na sua esfera de intervenção). Esta estratégia, aliada à relevância política e ao crescente protagonismo internacional que assume através dos BRICS, coloca a Rússia numa posição seguramente mais sólida do que a que tinha em 1991. Percebendo que sozinha não conseguiria continuar a competir com os EUA, a Rússia ganhou agora a força das potências emergentes, e é enquanto tal que está a contribuir para alterar a ordem internacional exclusivamente unipolar.

42

Recentemente, a hipótese da energia nuclear foi, contudo, adiada e até afastada por vários países europeus (sobretudo a Alemanha), após o desastre nuclear na central japonesa de Fukushima, na sequência do terramoto e tsunami de 2011.

In document sjøtransport av behandlet (sider 35-48)