Há quatro estudos (KANG et al., 2011; KANG et al., 2010; LAN et al., 2009; MONTAG et al., 2012), até então envolvendo genes candidatos e a gagueira.
A dopamina é um neurotransmissor produzido por neurônios dopaminérgicos oriundos de áreas distintas do cérebro. A distribuição dos neurônios dopaminérgicos pode ser resumidamente, classificada em três vias (STANDAERT; GALANTER, 2009):
x Sistema nigroestrial (80% da dopamina no cérebro): envolvido na estimulação do movimento intencional (movimento motor fino);
x Área tegumental ventral: projeções principalmente sobre o córtex cerebral e relacionado com a motivação, pensamento orientado, afeto, recompensa;
x Via túbero-infundibular: projeções sobre o hipotálamo, relacionada à inibição da produção de prolactina.
Uma vez sintetizada, a dopamina é dinamicamente transportada, no interior de vesículas secretoras, para o armazenamento e liberação na fenda sináptica. O neurotransmissor liberado nesse local pode tanto se ligar a receptores de dopamina pós- sinápticos quanto à autoreceptores pré-sinápticos (STANDAERT; GALANTER, 2009). Perturbações nesse processo podem interferir nas concentrações, ou para mais, ou para menos, desse neurotransmissor na fenda sináptica, causando doenças.
Dentre os diversos genes envolvidos nesse processo, dois (SLC6A3 e DRD2) tem sido associado como prováveis predisponentes, ou mesmo causadores diretos de algumas doenças como a esquizofrenia, doença de Parkinson, síndrome de Gilles de La Tourette, déficit de atenção e hiperatividade, autismo, casos de delinquência, casos de delírios, pré-disposição ao consumo de álcool, tabaco e outras drogas, entre outros.
O gene SLC6A3 (Solute Carrier Family 6, member 3), localizado em 5p15.3 está diretamente envolvido com a síntese da proteína transportadora de dopamina (DAT1) (GIROS; CARON, 1993). Essa proteína desempenha um importante papel na regulação dos níveis sinápticos de dopamina, mediando a recaptura do neurotransmissor para o interior do neurônio pré-sináptico (JABER et al., 1996). O outro gene, DRD2 (Dompamine Receptor D2) em 11q22-23, codifica a proteína receptora para o neurotransmissor (DRD2) que apresenta sete domínios transmembrânicos (NOBLE, 2000).
A dopamina por ter como uma de suas funções regular o controle do movimento motor fino e, a fala requerer a coordenação precisa de diversos pequenos músculos (COMINGS et al., 1996), alguns estudos tem proposto que uma das causas da gagueira seja devido ao excesso desse neurotransmissor no cérebro (MAGUIRE; RILEY et al., 2004; MAGUIRE; YU et al., 2004; WU et al., 1997). A redução da severidade da gagueira com o bloqueio da dopamina no cérebro a partir do uso de antidopaminérgicos pode servir como justificativa para essa teoria (GOBERMAN; BLOMGREN, 2003; KENT, 1963; MAGUIRE et al., 1999; STAGER et al., 2005). Um estudo avaliando a eficácia da risperidona (bloqueador de dopamina) no tratamento da gagueira desenvolvimental revelou resultados promissores, pois houve uma redução do grau de severidade da gagueira(MAGUIRE et al., 2000).
Observando que a prevalência de crianças gagas com déficit de atenção e hiperatividade (ADHD, Attention Deficit and Hyperativity Disorder) é de 4 a 26% e, que entre 10 a 20% das que gaguejam podem futuramente apresentar ADHA (HEALEY; REID, 2003), um estudo de associação da população chinesa Han, com marcadores SNP nos genes dopaminérgicos SLC6A3 e DRD2, em 112 casos com gagueira e, em 112 indivíduos controle foi realizado por Lan et al. (2009).
As análises foram feitas a partir de cinco polimorfismos: três (rs2617604, rs28364997, rs28364998) no gene SLC6A3 e, dois (rs6275 e rs6277) no gene DRD2. A partir da genotipagem e análise de associação foi observado que apenas a variação rs6277 apresentou significância (P = 0,001) (LAN et al., 2009).
Embora sem implicar na troca de aminoácidos (Pro 319 Pro), estudo in vivo tem associado o genótipo CC em rs6277 à baixa ligação da dopamina ao receptor DRD2 no estriato (HIRVONEN et al., 2004). Esse neurotransmissor presente na fenda sináptica sofre com a ineficiência dos receptores, promovendo precocemente em resposta, uma superatividade (excesso de dopamina) da fase pré-sináptica no cérebro (WU et al.,
1997). Portanto, para Lan et al. (2009), a presença do alelo C tem alta susceptibilidade como fator de risco para o desenvolvimento da gagueira.
A partir do trabalho de Riaz et al. (2005)que observaram evidências de ligação no cromossomo 12 em famílias paquistanesas consanguíneas,Kang et al. (2010)com o incremento do grupo amostral de Riaz et al. (2005) identificaram uma região de 10 Mb (Mega bases) em 12q confirmando as fortes evidências de ligação.
A região identificada por Kang et al. (2010) continha 87 genes que deveriam ser sistematicamente analisados através de sequenciamento para a identificação de variantes possivelmente envolvidas com o fenótipo. Ao grupo amostral contendo previamente famílias paquistanesas foram acrescidos novos casos com gagueira desenvolvimental persistente, não relacionados, (77 indivíduos paquistaneses e 270 indivíduos norte- americanos e britânicos) e um grupo controle (96 indivíduos paquistaneses e 276 indivíduos norte americanos neurologicamente normais) para reforçar estatisticamente esse trabalho.
O sequenciamento dos membros afetados da família paquistanesa (PKST72) que apresentou, em estudos preliminares, fortes evidências de ligação no cromossomo 12, indicou a presença de uma consistente mutação no gene GNPTAB (N- acetylglucosamine-1-phosphate transferase, alpha and beta subunit) localizado na região cromossômica 12q23.3. Posteriormente, novas mutações neste gene foram identificadas em cinco casos paquistaneses com gagueira desenvolvimental persistente, não relacionados e, em um caso no grupo composto por norte-americanos e britânicos.
A partir da análise sistemática da via metabólica para o transporte de enzimas lisossomais, a qual o GNPTAB faz parte, Kang et al. (2010) identificaram dois novos genes mutados: GNPTG (N-acetylglucosamine-1-phosphate transferase, gamma subunit) e NAGPA (N-acetylglucosamine-1-phosphodiester alpha-N- acetylglucosaminidase); ambos localizados na região cromossômica 16p13.3. Tanto o gene GNPTG quanto o NAGPA apresentaram mutações apenas nos casos norte- americanos e britânicos com gagueira desenvolvimental persistente e nenhuma mutação para ambos foi identificada no grupo controle (paquistaneses e norte-americanos).
Os genes GNPTAB e GNPTG até então estiveram relacionados apenas com a etiologia da mucopolissacaridose do tipo II e III (acúmulo de enzimas lisossomais), enquanto que o gene NAGPA não havia sido relacionado a nenhuma outra doença.
O gene GNPTAB é o responsável por codificar as subunidades catalíticas alfa ( ) e beta ( ) enquanto que o GNPTG, a subunidade gama (ɶ) da enzima GlcNAc-
fosfotransferase (BAO et al., 1996; RAAS-ROTHSCHILD et al., 2000). O gene NAGPA é responsável pela codificação da enzima N-acetilglicosamina-1-fosfodiester alfa-N-acetilglicosamininidade. Esses três genes estão envolvidos diretamente com a síntese de enzimas lisossomais em todo o organismo.
A enzima GlcNAc-fosfotransferase está envolvida na síntese do marcador M6P
(mannose 6-phosphate) responsável pelo direcionamento de várias enzimas lisossomais para o lisossomo. No entanto, as enzimas lisossomais são modificadas pela adição de M6P num processo envolvendo duas etapas. A primeira, transferência do resíduso alfa-
N-acetilglicosamina-1fosfato da enzima GlcNAc-fosfotransferase para o grupo hidroxila do carbono 6 da manose terminal produzindo um fosfodiester; segunda, os resíduos N-acetilglicosamina são removidos pela enzima N-acetilglicosamina-1- fosfodiester alfa-N-acetilglicosaminidade, também conhecida como uncovering enzyme permitindo desta forma a exposição dos resíduos M6P e o reconhecimento deles por
receptores específicos que medeiam a triagem e o transporte das enzimas lisossomais (KANG; DRAYNA, 2012; KORNFELD; SLY, 2001; KUDO et al., 2005) (Figura 3).
Figura 3. Esquema simplificado da via metabólica lisossomal (KANG; DRAYNA, 2012).
Posteriormente, em um novo trabalho apoiado nas conclusões de Lan et al. (2009),Kang et al. (2011) verificaram os mesmos marcadores SNP (rs6277 e rs6275) presentes no gene DRD2 (receptor de dopamina) porém numa população, etnicamente diversificada e maior, de pacientes portadores de gagueira desenvolvimental persistente
familial, não relacionados. As análises das variações, por sequenciamento, contemplaram 50 casos e 50 controles brasileiros, pareados por sexo, e 214 casos e 451 controles americanos com ascendência européia.
Nenhuma diferença significativa foi observada entre os alelos de casos e controles, brasileiros e norte-americanos, para as variações rs6277 (P value brasileiro =
0,26 e P value norte-americano = 0,25) e rs6275 (P value brasileiro = 0,77 e P value norte-americano
= 0,28), o que diferiu substancialmente dos resultados apresentados pelo grupo chinês. Na população chinesa Han estuda por Lan et al. (2009) a frequência do alelo C para rs6277 apresentou uma diferença significativa (P value chinês = 0,001) entre casos e
controles o que permitiu associá-lo à gagueira. No entando, Kang et al. (2011)ao compararem a frequência do alelo C no grupo controle chinês (88%) com a frequência da gagueira desenvolvimental persistente na população adulta (1%) observaram que a probabilidade de somente a presença deste alelo contribuir com o desenvolvimento da gagueira na população chinesa parece pouco provável.
Recentemente, Montag et al. (2012) analisando os resultados de Lan et al. (2009) e Kang et al. (2011) sobre o gene DRD2 e, as conclusões de Iverach et al. (2011) e Bleek et al. (2011) relacionados a evidências de que o neuroticismo pode ser identificado em adultos gagos, desenvolveram um trabalho de estudo de caso-controle com o marcador rs6277 em 105 indivíduos gagos neuróticos e 105 controles saudáveis.
O neuroticismo, segundo Costa & Maccrae (1987) é “uma ampla dimensão de diferenças individuais tendendo a experimentar emoções desagradáveis e aflitivas, possuindo ao mesmo tempo traços cognitivos e comportamentais”. Segundo Oliveira (2002) o neuroticismo é um traço ou tendência estável da personalidade o qual é praticamente inseparável da ansiedade. O neuroticismo também segundo esse autor pode ser considerado como um funcionamento perturbado, mais ou menos estável, da personalidade, que pode se agravar de acordo com as circunstâncias e momentos vividos.
A análise do marcador rs6277 identificou o polimorfismo C957T no gene DRD2. Os testes de associação aplicados em diferentes combinações levaram as seguintes conclusões: 1) pessoas com gagueira apresentaram um valor altamente significante para o neuroticismo quando comparadas ao grupo controle (F = 7,80, P<0,01); 2) a severidade da gagueira estava relacionada significativamente com o neuroticismo (r = 0,49, p<0,001, n = 94); 3) o polimorfismo C957T relacionado à personalidade de pessoas com gagueira se apresentou significativamente influente
(F=3,91, P<0,05); 4) os efeitos do marcador rs6277 sobre a severidade da gagueira não apontou significância (F = 2,18, P = 0,12), entretanto as variações alélicas (C+/-) revelaram significância para o alelo C+ com a severidade da gagueira (F = 3,81, P = 0,05).