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Alguns autores, apesar de reconhecerem a fecundidade da experiência italiana, e sua importância como referência tanto para a teoria como para políticas de desenvolvimento, argumentam que o conceito de Distrito Industrial (DI) é inadequado para a abordagem de regiões marcadamente rurais e, de forma mais ampla, de economias não especializadas. Para Saraceno (2000:03), por exemplo, enquanto ainda há muito para se discutir em relação aos Distritos Industriais, os "pesquisadores italianos têm muito pouco a dizer sobre os sistemas não especializados".

Saraceno argumenta que há uma grande rigidez na leitura dos processos de desenvolvimento local por alguns pesquisadores italianos. Em primeiro lugar,

porque a experiência da Itália oferece exemplos de economias locais especializadas baseadas na busca de economias de escala tanto na indústria quanto na agricultura. Em segundo porque oferece também exemplos de economias locais diversificadas. Mas apesar disto, a referência analítica de boa parte da literatura, até mesmo quando se advoga uma abordagem territorial, é a busca de economias de escala na indústria, seja através da grande empresa ou dos Distritos Industriais. (ibid p.17). Tanto a agricultura como, de forma mais ampla, as economias locais diversificadas tiveram tratamento secundário. Cabe ressaltar que esta distinção de forma polarizada entre economias de escopo e de escala tem o objetivo de tornar o argumento mais claro. A autora esclarece que se tratam de duas alternativas de desenvolvimento não necessariamente conflitantes ou excludentes, não havendo, portanto necessidade de estabelecer uma hierarquia entre elas: "Uma estratégia não é necessariamente melhor ou mais eficiente que a outra e, evidentemente, na realidade há formas intermediárias ou mistas das duas" Saraceno (2000:03). No entanto, a autora lembra que, sob forte influência dos países do norte europeu, a abordagem das políticas de desenvolvimento local adotadas pela União Européia - UE enfatiza, não a especialização industrial, mas a "diversificação das economias locais como forma de prover uma solução alternativa ao declínio do setor agrícola" Saraceno (2000:18).

Na verdade a diversificação das áreas rurais, sob a forma de pluriatividade, é um processo bastante antigo que pode ser esquematicamente resumido da seguinte maneira. As suas origens remontam ao período pós-guerra, quando se registra uma queda da população rural proporcionalmente bastante inferior à queda no número de agricultores. Com as mudanças no panorama econômico a partir dos anos 70, este primeiro tipo de diversificação, "endógeno" e "invisível", ganhou grande impulso e intensidade, adquirindo novas dimensões. O surgimento de deseconomias de aglomeração em alguns centros urbanos somado à crescente preocupação com o meio ambiente e formas sustentáveis de desenvolvimento, propiciam a criação de novas oportunidades para o meio rural. Cresce significativamente a demanda externa pelo espaço rural, seja para finalidades de lazer, moradia ou investimento e trabalho. Este processo criou "novas oportunidades e novas formas de integração entre a economia local e as economias

externas, que por sua vez contribuiu para aumentar a diversificação interna" (Saraceno (2000:24).

Devido à identificação de modernização com especialização produtiva e o mito da redutibilidade do rural ao agrícola, este longo e gradual processo de diversificação não foi corretamente percebido e foi, portanto, ignorado como relevante para fins de políticas públicas. De acordo com Saraceno, somente em fins dos anos 80 a Comissão Européia "reconheceu esta tendência e a sua utilidade para o desenvolvimento rural". Mais à frente ela afirma que provavelmente "o processo de diversificação se converterá na real modernização das áreas rurais, interagindo, em formas ainda não exploradas, com a” velha “modernização do setor agrícola" Saraceno (2000:25).

Um dos elementos centrais na argumentação de Saraceno é o papel desempenhado pela agricultura, especialmente de porte familiar, nas experiências de desenvolvimento italiano. O sucesso tanto das estratégias baseadas na especialização quanto das economias locais diversificadas são amplamente dependentes da persistência no decorrer do tempo, não apenas nos estágios iniciais do desenvolvimento, de uma estrutura formada por pequenos agricultores e artesãos. Cabe ressaltar, no entanto, que a ênfase do argumento não é em um sistema de agricultura familiar visto de forma isolada, mas em “estrutura agrícola articulada", que consiste na convivência de um significativo número de pequenas e médias unidades com as unidades comerciais de grande escala. O caso italiano mostra que a evolução e organização de um sistema de agricultura familiar, antes e depois da modernização, se deram em uma relação marcada mais pela complementaridade do que pelo conflito, seja com unidades agrícolas de grande escala ou com empresa agroindustriais Saraceno (2000:12). Em relação às “funções” desempenhadas pela agricultura familiar na experiência italiana, vale destacar dois aspectos: 1) seu papel como fonte de diversificação das atividades dentro do setor agrícola e, devido ao seu caráter pluriativo, e como base para a diversificação da economia rural. (Saraceno (2000:13) e: 2) Embora seja menos enfatizada na literatura, a agricultura familiar pode desempenhar o importante papel de estabelecer conexões entre os diferentes setores da economia local Saraceno (2000:14).

Vale observar que a discussão procurou mostrar, pelo menos de forma parcial, a evolução mais recente do conceito de Distrito Industrial (DI). Pode-se afirmar que um certo relaxamento de sua variante marshalliana/italiana tem servido como instrumental analítico, gerando um bom número de estudos de caso, e referência para formulação de políticas de desenvolvimento. Esta ampliação do conceito tem dois aspectos importantes. De um lado há uma maior atenção ao papel da grande empresa, ao invés de se ignorar, ao apenas admitir a sua presença (incômoda e ameaçadora), passa-se a considerar a sua importância, inclusive, para o fortalecimento dos sistemas de Pequenas e Médias Empresas (PMEs). Ocorre também um relaxamento dos requisitos de especialização e divisão do trabalho entre as empresas. Esta 'flexibilização' do conceito permite captar melhor tanto a realidade de regiões mais urbanizadas e diversificadas quanto daquelas com características mais acentuadamente agrícolas e rurais (com níveis maiores ou menores de especialização/diversificação), principalmente onde há forte presença de grandes agroindústrias. O conceito ampliado de DIs possui portanto um inegável potencial para análise e formulação de políticas de desenvolvimento para estas regiões.

Mas convém lembrar que mesmo com o relaxamento da forte ênfase na especialização (em determinados produtos), a abordagem dos DIs possui ainda um forte viés ‘setorial’ e 'industrialista' (Veiga, 1999:09). A necessidade de se lidar com a complexidade e diversidade das economias locais impõe a utilização de uma terminologia mais abrangente. Por isto, têm se registrado uma crescente utilização das noções de Arranjos e Sistemas Produtivos Locais.

Distrito Industrial é uma entidade sócio-territorial que se caracteriza pela presença ativa de uma comunidade humana e de uma população de empresa num espaço geográfico e histórico, observando-se que a comunidade e as empresas tendem a ser reunir.