A criação da CEIS/UFRGS foi apenas uma das medidas levadas a cabo na universidade em função da “Operação Limpeza”. Um amplo processo de intervenção militar foi posto em prática, como parte da operação. No Rio Grande do Sul, nada menos do que 92 intervenções foram decretadas já nos primeiros dias após o golpe, 61 delas em Porto Alegre. Seis meses depois, a maioria dessas ações de controle e repressão já haviam sido encerradas, “por nomeação de titulares e conclusão de inquéritos”, restando seis entidades sob intervenção na capital e onze no interior do estado.192
De fato, logo após o golpe, houve intervenção militar nas instituições onde os líderes da coalizão civil-militar que assumira o poder acreditavam estar mais intensamente presente a “subversão”. Como os trabalhadores e estudantes mobilizados constituíram, durante o governo Goulart e especialmente em 1963, dois dos principais (se não mesmo os principais) setores sociais de apoio às Reformas de Base, não é de estranhar que tenham sido
192 INTERVENÇÃO Militar Perdura em 17 Órgãos. Zero Hora, Porto Alegre, p. 11, 29/09/1964.
Entidades ainda sob intervenção militar no Rio Grande do Sul naquela data, segundo a reportagem: Casa do Estudante de Porto Alegre, Cooperativa de Consumo dos Trabalhadores da Viação Férrea de Santa Maria, Departamento de Recursos Naturais Renováveis, Instituto de Pesquisas Agropecuárias do Sul, Inspetoria Seccional de Ensino Secundário de Santa Maria, Inspetoria Seccional de Ensino Secundário de Porto Alegre, Mesa de Renda Alfandegária de Quaraí, MASTER [Movimento dos Agricultores Sem-Terra], Posto de Saneamento Vegetal, S.A.P.S. de Santa Maria, Serviço de Repressão ao Contrabando de Santa Maria, Sindicato dos Empregados em Comunicações do Estado, SUDEP de Rio Grande, Sociedade Beneficente Maria Teresa Goulart, União Bentogonçalvense de Estudantes, União Rosariense de Estudantes de Rosário do Sul, União Estadual de Estudantes (com sede em Porto Alegre).
intensamente atingidos logo após a deposição do Presidente da República. Como observado acima, no Rio Grande do Sul, agentes repressivos atuaram em quase uma centena de entidades. Alguns foram designados para as principais entidades estudantis vinculadas à UFRGS. Enquanto isso, dirigentes universitários eram instados, por membros do Aparato Repressivo, a colaborar com ações da “Operação Limpeza” nas universidades. Para o caso específico da UFRGS, é significativo disso a Circular nº 31 de 14 de abril de 1964, do reitor José Carlos Fonseca Milano ao Diretor do Instituto de Filosofia, transmitindo solicitação do ten. cel. M. V. Sosa Bermudez, Secretário de Segurança, no sentido do fornecimento das “relações de alunos de todas as Faculdades, Escolas e Institutos subordinados a essa Reitoria”, em caráter de urgência, “tendo em vista a necessidade do serviço de segurança”.193
Imediatamente após o golpe, a Reitoria e a Rádio da UFRGS foram ocupadas pelos estudantes da universidade, como forma de resistência à ação civil-militar golpista.194 Vale lembrar que, nos primeiros dias após a deposição de Goulart, certas tentativas de resistência, nos moldes da Legalidade, foram implementadas, ao mesmo tempo em que alguns militantes de esquerda mais conhecidos, por precaução, evitavam aparecer em público.195
De 1952 a 1964, foi reitor da UFRGS o professor Elyseu Paglioli. Considerado um dos pioneiros da neurocirurgia no Brasil, tinha forte vínculo com o trabalhismo. Amigo pessoal de Getúlio Vargas, chegou a ser prefeito de Porto Alegre por um breve período, de 1º de fevereiro a 17 de novembro de 1951, por indicação de Ernesto Dornelles que, como se sabe, era primo de Vargas e, à época, ocupava o cargo de governador do Rio Grande do Sul.196 No ano seguinte, Paglioli assumiu a Reitoria da UFRGS. Dez anos depois, mais precisamente em 18 de setembro de 1962, foi empossado como Ministro da Saúde de João Goulart, permanecendo na função somente até 24 de fevereiro de 1963, quando, com o retorno do presidencialismo, foi substituído por Paulo Pinheiro Chagas e voltou à direção da universidade.
193 UFRGS. Gabinete do Reitor. Circular nº 31 de 14/04/1964. UFRGS/NPH/HIFCH.
194 KOUTZII, Flávio. Sobre sua trajetória estudantil na UFRGS e sua atuação política, no período da Ditadura [19/08/2008]. Entrevistador: Jaime Valim Mansan. Porto Alegre.
195 Foi o caso, por exemplo, do prof. Antônio de Pádua Ferreira da Silva e também de Flávio Kouzii, à época presidente do Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt (CAFDR), da Faculdade de Filosofia. Ambos permaneceram escondidos nos primeiros dias após o Golpe, em função de, à época, já possuírem significativo reconhecimento local, inclusive fora da universidade, como militantes de esquerda. SILVA, Antônio de Pádua Ferreira da. Sobre seu expurgo da UFRGS e sua trajetória política e docente [25/03/2008]. Entrevistador: Jaime Valim Mansan. Porto Alegre; KOUTZII, Flávio. Op. cit.
196
Assumiu o cargo por indicação, pois, como se sabe, desde o fim do Estado Novo até então não haviam sido realizadas eleições para prefeito em Porto Alegre, o que ocorreu justo naquele ano, com a vitória de Ildo Meneghetti sobre Leonel Brizola.
Logo após o Golpe de 1964, Paglioli foi afastado da Reitoria. Alguns indícios apontam para uma saída por iniciativa própria, outros para a existência de fortes pressões como determinantes.197 De qualquer maneira, diante de sua grande vinculação com o trabalhismo, parece bastante plausível que tenha sido, de um modo ou de outro, afastado do cargo em função dos acontecimentos de abril de 1964. Mesmo que a decisão tenha partido dele, em função de algum receio de retaliação por parte dos grupos locais (internos e externos à universidade) simpáticos ao movimento golpista, o fato teria, ainda assim, relação direta com as transformações políticas pelas quais passava o país naquele momento.
Tendo em vista a substituição do reitor, o prof. Pery Pinto Diniz da Silva, que ocupava o cargo de vice-reitor, optou pela renúncia.198
Em função da saída de Elyseu Paglioli e da renúncia de Pery da Silva, Luis Leseigneur de Faria assumiu interinamente a Reitoria, até que José Carlos Fonseca Milano, confirmado por Castello Branco a partir de lista tríplice a ele enviada pelo Conselho Universitário (CONSUN) da UFRGS, passou a ocupar oficialmente a função, em 18 de maio de 1964, nela permanecendo até 1968. O processo de escolha, via lista tríplice de professores catedráticos enviada ao ministério pela universidade, estava de acordo com o estatuto então vigente da instituição. A lista havia sido votada em 25 de abril daquele ano, no CONSUN, em reunião convocada pelo “Reitor em exercício” Luiz Leseigneur de Faria.199 Uma votação foi realizada, separadamente, para cada indicação, o que também seguia as determinações do estatuto da UFRGS. A distribuição de votos se deu conforme indicado na Tabela 1.
197
O prof. Nelson Souza, por exemplo, afirmou: “eles afastaram o Paglioli, que era o reitor legal, e puseram um outro. [...] Ele [Paglioli] era PTB. Ele era brizolista, amigo do Jango”. SOUZA, Nelson. Sobre seu expurgo da UFRGS e sua trajetória profissional e política [31/07/2007]. Entrevistador: Jaime Valim Mansan. Porto Alegre.
198 UFRGS. CONSUN. Ata da 327ª Sessão do Conselho Universitário, 25/04/1964. p. 2. UFRGS/CONSUN. 199 Id. ibid.
Tabela 1
Eleições no CONSUN/UFRGS para lista tríplice de candidatos a Reitor em 25/04/1964
Votos % Votos % Votos %
Armando Câmara (a) 5 16,1 3 9,7 6 19,4
Aurora M. C. Desidério (b) 0 0,0 0 0,0 1 3,2 Galeno Vellinho de Lacerda (c) 0 0,0 0 0,0 2 6,5
Ivo Wolff (d) 0 0,0 3 9,7 3 9,7
José Carlos Fonseca Milano (e) 15 48,4 0 0,0 0 0,0 Luiz Leseigneur de Faria (f) 11 35,5 25 80,6 0 0,0
Luiz Pilla (g) 0 0,0 0 0,0 18 58,1
Othon Santos e Silva (h) 0 0,0 0 0,0 1 3,2
Total 31 100,0 31 100,0 31 100,0
Escolhidos para indicação e f g
Professor Catedrático 1ª votação 2ª votação 3ª votação
Fonte: UFRGS. CONSUN. Ata da 327ª Sessão do Conselho Universitário da UFRGS, 25/04/1964. UFRGS/CONSUN.
Destacam-se, dentre os catedráticos mais votados, além de Leseigneur e Milano, o ex- reitor, líder católico e anticomunista convicto Armando Câmara (que fora reitor da UFRGS, de dezembro de 1945 a janeiro de 1949, e primeiro reitor da PUCRS, de 1948 a 1951) e Luiz Pilla, ambos vinculados ao Partido Libertador (PL) e à geração católica formada pelo padre Werner von Mühn, grupo que também incluiu Ernani Maria Fiori, Laudelino Teixeira Medeiros e alguns membros do Grupo da Filosofia, amplamente atingido pelos expurgos em 1969, dentre eles os irmãos Carlos e Victor de Britto Velho.200
Durante o curto período em que permaneceu ocupando interinamente o cargo de Reitor da UFRGS, Luiz Leseigneur de Faria assinou e determinou que fosse divulgada a Circular nº 35, dirigida aos diretores das unidades de ensino e pesquisa da universidade, os quais deveriam providenciar a divulgação da mensagem aos docentes, discentes e servidores técnico-administrativos vinculados às faculdades, escolas e institutos por eles dirigidos.201 Já no primeiro parágrafo da circular, fica evidente a orientação da mensagem, claramente alinhada com o movimento civil-militar golpista:
200 Sobre o Grupo da Filosofia, cf. capítulos 5 e 6. Sobre Pe. Werner e a “geração católica” na UFRGS, cf.: MONTEIRO, Lorena Madruga. A estratégia dos católicos na conquista da Sociologia da UFRGS (1940- 1970). Porto Alegre, 2006. 183 f. Dissertação – Mestrado em Ciência Política. Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sobre os aspectos citados do perfil político-ideológico de Armando Câmara, cf. alguns discursos seus, disponíveis em: <http://www.valorjustica.com.br/discursos.htm>. Acesso em 08/01/2009.
201 UFRGS. Reitoria. Circular nº 35. Do “Reitor em Exercício”, prof. Luiz Leseigneur de Faria, ao Diretor do Instituto de Filosofia, prof. Ernani Maria Fiori. s/d [Abr-Mai/1964]. UFRGS/NPH/HIFCH.
Senhor Diretor:
Nesta hora da vida nacional, em que os responsáveis pelos destinos de nossa Pátria fazem convergir os mais elevados esforços no sentido de alcançar, o quanto antes, os patrióticos objetivos que configuraram o movimento democrático restaurador, cumpre-me dirigir-me a V. Exa. e aos corpos docente e discente dessa unidade universitária, com a finalidade de manifestar-lhe a expressão dos sentimentos de integral apoio às considerações da Nota Oficial emanada do Comando do III Exército, vazada em termos de irrestrita consonância com o próprio das normas estatutárias e regimentais que regem esta Universidade, suas Escolas, Faculdades e Institutos.202
Na seqüência, dentre recomendações de que fossem respeitados os “limites dos deveres normativos”, contribuindo ao máximo com a promoção do “prestígio sempre crescente da Universidade”, dentre outras no mesmo sentido, Leseigneur determinava a abstenção de qualquer ato que pudesse “importar em perturbação da ordem, dos bons costumes e no desrespeito às autoridades em geral”.203