3. RESUMEN DE RESULTADOS Y CONCLUSIONES
3.1. Resultados
Chegado o momento de conclusão deste trabalho percebo que as minhas questões instigadoras para o desenvolvimento desta pesquisa foram respondidas. Na busca por outros entendimentos da relação adolescência e Diabetes Mellitus posso dizer que este trabalho permitiu entrar em contato com a esfera dos sentidos e olhar para o outro como alguém que tem algo a dizer e a ensinar. Essa postura significa, a meu ver, abrir espaço para a construção conjunta das intervenções terapêuticas.
Quando coloco que as minhas questões foram respondidas destaco a multiplicidade dos repertórios interpretativos usados pelos adolescentes ao falarem sobre adolescência, corpo, saúde e diabetes. Diante da diversidade dos sentidos sobre cada um destes temas
podemos compreender que a adolescência é também uma etapa da vida que vem carregada de sentidos dotados de positividade tais como ter mais liberdade, autonomia, ser responsável, fazer mais amigos, dentre outros, contraponto algumas concepções existentes de que a adolescência é uma fase da vida turbulenta e conflituosa. Nesse sentido, vários adolescentes com diabetes descrevem esta etapa da vida de maneira gratificante e prazerosa.
O corpo está para além das transformações biológicas e os seus sentidos foram marcados pela possibilidade de trazer satisfação pessoal, estar em contato íntimo com o outro e pela necessidade de proteção e auto-cuidado do corpo marcado pelo diabetes, que traz vulnerabilidade. No entanto, mais do que insistir nas conseqüências e nas seqüelas que o diabetes pode acarretar, seria interessante promover formas de cuidar de si e do corpo que sejam potencializadoras usando outros repertórios disponíveis, conforme os apontados neste estudo. Isso significa sair do corpo “deteriorado” e ampliar para outras formas de significação.
A saúde também recebe diferentes modos de significação. Alguns deles colocam a saúde restrita a resultados de exames médicos, o que acaba por gerar uma visão reducionista de saúde, e suscitar descrições de si mesmos pautados no controle e descontrole. Em contrapartida, a saúde supervalorizada, colocada como “tudo”, traz também uma auto-exigência de ter tudo sob controle e em perfeita condição. Porém, este trabalho traz contribuições ao destacar outros repertórios possíveis para a saúde: Saúde
como auto-cuidado e saúde como disposição, ao apontar maneiras de cuidar de si, os adolescentes acreditam estar contribuindo para serem pessoas mais saudáveis, e a saúde entendida como disposição os ajuda relativizar os momentos de mal-estar causados pelo diabetes, como momentâneos e não como um processo severo de adoecimento. Dessa forma, ao invés de se adotar formas de compreensão para a saúde que sejam determinadas
por indicadores biomédicos ou que se supervalorize a saúde de modo a funcionar como ameaça diante de um processo de adoecimento, podemos investir em concepções mais ampliadas de saúde que valorizem o auto-cuidado e também os momentos em que a pessoa sinta-se bem disposta e saudável, apesar de ter uma doença crônica.
Quanto ao diabetes, é importante considerar que os repertórios usados para situá-lo não partem apenas da definição de doença crônica, sendo esta uma dentre outras concepções possíveis. Neste estudo, o diabetes foi apresentado também como um problema e a partir da convivência com esta condição de saúde. Situado como doença crônica, gera descrições que dão ênfase no processo de adoecimento, ou seja, nas seqüelas que o diabetes pode trazer. Porém, o diabetes como problema e diabetes como vivência apontam para uma convivência possível e descrevem maneiras de lidar com o diabetes que não recortem apenas seus aspectos crônicos. No entanto, conforme apontando neste trabalho, os estudos sobre adolescência e diabetes parecem partir apenas do repertório diabetes como
doença o que direciona o olhar somente para os aspectos de adesão ao tratamento, o que reforça uma lógica prescritiva de se tratar tal questão. Diante disso, há de se considerar outras maneiras dos pacientes significarem a sua condição de saúde e estes modos de subjetivação devem ser considerados ao se trabalhar com esta população.
Metodologicamente, percebo que a pesquisa qualitativa associada à perspectiva construcionista social e a abordagem da Práticas Discursivas e Produção de Sentidos, ao oferecem uma proposta alternativa para investigação científica sugerindo outros valores para a produção do conhecimento, me ofereceram bases orientadoras para atingir os objetivos deste estudo.
O construcionismo social, ao apontar para a necessidade de se legitimar a ótica do paciente na compreensão do processo saúde-doença, convida os profissionais da saúde a se abrirem para o diálogo e considerarem os significados de saúde e doença para o paciente.
Neste estudo, os adolescentes com diabetes, ao serem ouvidos, apontaram para diversos modos de se compreender saúde e doença, gerando descrições que parecem ser mais facilitadoras de ser adolescente e viver com diabetes que poderão ganhar força no cotidiano, oferecendo um contraponto às descrições que parecem ser difíceis e carregadas de sofrimento para eles.
A abordagem das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos ao se afiliar às perspectivas construcionistas possibilitou um arcabouço teórico-metodológico que permitiu a identificação dos repertórios interpretativos dos temas investigados neste trabalho. Através da construção dos Mapas de Associação de Idéias pode-se compreender o caráter dinâmico e contextual em que os repertórios são usados para descrever, justificar, posicionar e explicar. Isso explica o porquê os repertórios interpretativos ocupam um lugar central na compreensão da produção de sentido, pois as pessoas ao se verem diante de situações diversas irão buscar diferentes repertórios que lhes sejam úteis e tenham funcionalidade para lhes ajudar diante de algumas situações, conforme mostrado no estudo de caso apresentado neste estudo. Diante disso, neste trabalho, vários repertórios foram usados pelos adolescentes com diabetes, ampliando o entendimento dos aspectos presentes na relação adolescência e diabetes.
Por fim, as pesquisas qualitativas em suas bases epistemológicas e metodológicas conferem ao pesquisador um lugar ativo do processo de produção de conhecimento, considerando o conhecimento como algo construído na relação pesquisador-pesquisado, e principalmente, valorizando a qualidade e a singularidade das expressões dos participantes, não usando o critério quantitativo para validar seus achados. Tal postura confere um lugar legítimo aos sentidos produzidos em situação de entrevista pela pesquisadora e pelos pesquisados sobre os temas abordados neste estudo.
Neste estudo, convidamos a um olhar para a adolescência e diabetes que se interesse pelo seu caráter histórico, cultural, dinâmico e contextual. Nesta pesquisa, em uma situação específica de entrevista com adolescentes portadores de diabetes tipo 1, diversos sentidos foram produzidos, ressignificando e apontando para novos modos de compreensão da adolescência e diabetes. Não tenho o intuito de desconsiderar os repertórios usados pela ciência para falar destas questões, porém, aponto para a necessidade da participação ativa do adolescente juntamente com a equipe de saúde na construção do projeto terapêutico que valorize a sua maneira de significação sobre a adolescência e sua condição de saúde.