Nos primeiros anos da década de 1990, apesar de já se cogitar de outras opções energéticas para o estado, o que se via era a chegada de novas turbinas para o funcionamento das usinas termelétricas como solução para os problemas de falta de energia elétrica, que marcaram a década de 1990 na região. Essa era a solução mais rápida no momento. Era grande o número de reclamações da população com relação às faltas de energia elétrica. Essas reclamações levaram o então Presidente da Eletronorte, Valdemar Johanson a dar esclarecimentos na Câmara Municipal sobre a crise no fornecimento de energia, declarando que o racionamento de energia deveria acabar naquele dia, mas que a solução só viria com a implantação de um novo parque de geração (jornal Folha de Boa Vista. Crise de Energia é discutida na Câmara. 09/04/1990).
Em uma análise mais profunda da questão, o Presidente da Eletronorte ressaltou que alternativas para Roraima existiam, como por exemplo, a construção de hidrelétrica, a interligação do estado à usina na Venezuela ou no Centro-Oeste, mas que eram planos executáveis a médio e longo prazo e que dependiam de estudos minuciosos. No entanto, o Presidente complementava afirmando que, pelo menos para o município de Boa Vista, a
solução estava próxima, com a construção da usina termoelétrica do bairro do Caranã, que já estava sendo licitada.
No mesmo ano, mais precisamente em 11 de julho de 1990, o jornal Folha de Boa Vista anunciava a chegada de turbinas para a Eletronorte, em Boa Vista. Eram os primeiros componentes de um complexo energético que estava sendo construído no bairro Jardim Floresta que, segundo o representante da Eletronorte em Boa Vista, teria condições de abastecer a capital pelos próximos dez anos sem que houvesse necessidade de recorrer aos “terríveis” racionamentos de energia.
Em 1992, o racionamento ainda era um problema e mais uma vez o jornal Folha de Boa Vista anunciava a chegada de turbinas para aumentar capacidade da Eletronorte. Segundo o jornal, de 7 de outubro de 1992, “nos próximos 60 dias, Boa Vista estará livre do racionamento de energia elétrica”. Isso porque chegava à capital, a nova usina da Eletronorte, transferida pela empresa de Camaçari, na Bahia, para ser acoplada ao sistema elétrico local. De acordo com o governador Ottomar, “pelo menos nos próximos quatro ou cinco anos Boa Vista estará livre do espectro do racionamento de energia elétrica”.
No ano de 1993, o mesmo jornal anunciava que o governador Ottomar Pinto cumpria a sua promessa feita à população. Em 11 de agosto de 1993, chegava à cidade de Caracaraí um novo gerador da CER, para solucionar em definitivo os problemas de energia elétrica no município. O Presidente da CER, Elton Rohneit afirmou que os atuais geradores eram máquinas antigas, de procedência estrangeira, que vinham apresentando problemas de reposição de peças para sua manutenção. Isso fazia com que, por seu tempo de uso, entrassem sempre em pane.
Esse era o cenário energético na década de 1990 no estado de Roraima. Um estado com racionamentos de energia elétrica, e muitas promessas de que o problema seria resolvido. As termelétricas existentes no estado não supriam as necessidades locais e o governo tentava resolver o problema com a substituição de peças e aquisição de novos geradores. A ampliação dessas Termelétricas estava em “jogo” para solucionar definitivamente o problema da energia elétrica que estava deixando a população aterrorizada.
Os pesquisadores do INPA foram os maiores defensores da alternativa de ampliação das Termelétricas no estado de Roraima e os maiores críticos da construção de uma hidrelétrica na região. O plano decenal de 1993-2002 estabeleceu que em 1999, com a operação da hidrelétrica de Cotingo, haveria uma redução na geração térmica de 318,9 GWh ou, quase o total da demanda energética prevista para aquele ano. Essa redução na geração
térmica representava também uma redução no consumo do óleo diesel, cuja economia ficaria em torno de US$ 29 milhões anualmente (ELETROBRAS, 1992, p.38).
Durante a discussão das propostas, até 1995, talvez o maior impedimento à opção térmica tivesse sido o baixo “status” que essa forma de abastecimento possui dentro da cultura dos “barrageiros” (construtores de barragens) conforme explicam Fearnside e Barbosa (2002, p.15):
Barrageiros, ou construtores de barragens, representam uma distinta subcultura na sociedade brasileira, que exerce influência sobre as decisões de desenvolvimento hidrelétrico que vão além do que os números podem sugerir. Esta influência também pode ir além dos benefícios econômicos que uma barragem hidrelétrica poderia garantir. A construção de uma hidrelétrica é um empreendimento de alto “status” enquanto a instalação e o reparo de usinas termelétricas são atividades com baixo “status” social. Uma barragem como Cotingo, que envolve a construção de um túnel através de quilômetros de rocha e a construção de uma parede de concreto (em vez das simples estruturas de terra de muitas hidrelétricas) representa o tipo de desafio que faz brilhar os olhos de muitos engenheiros (FEARNSIDE, 1989, p.15)
Na opinião dos pesquisadores do INPA, as termelétricas não ocupavam lugar de destaque entre as alternativas energéticas para o estado. A alternativa desafiadora para eles era a construção da barragem de Cotingo, por ser mais complexa.
Para os técnicos ou equipe da CER, conforme afirmam Fearniside e Barbosa (2002), as desvantagens da geração térmica consistiam nos seguintes fatores: as usinas estavam envelhecendo e continuamente quebrando; e, nos períodos de estação seca, o rio Branco ficava com água insuficiente para permitir que as barcas que transportavam óleo diesel de Manaus para Boa Vista fizessem a viagem normalmente.
Para essas duas desvantagens apontadas pela equipe da CER, os pesquisadores Fearnside e Barbosa (2002) apresentaram a seguinte solução: como os períodos de estiagem são um fenômeno regular, a frequência dos “blackouts” (apagões) poderia ser evitada dentro de limites aceitáveis através de investimento na capacidade de estoque suficiente para geração contínua, a níveis normais, ultrapassando qualquer seca por mais prolongada que fosse.
A Amazônia Brasileira convivia com frequentes cortes de energia e a “culpa” recaía sempre na geração termelétrica. É o caso, por exemplo, da cidade de Belém, no estado do Pará, antes da inauguração da hidrelétrica de Tucuruí, em 1994. Ainda com relação a esses cortes, Fearnside e Barbosa (2002, p.15) defendiam a alternativa das Termelétricas, argumentando:
(...) ser uma tecnologia simples, que tem estado em uso por cerca de um século. Não existe mistério em projetar uma rotina de manutenção e substituição e, estimular a capacidade de geração extra que seria necessária para evitar blackouts.
Para esses pesquisadores, deixar que os equipamentos se deteriorem pode ser uma forma de antecipação, por parte das autoridades energéticas, da substituição de geradores térmicos por projetos hidrelétricos, mesmo que as hidrelétricas em questão ainda necessitem de importantes aprovações, tais como a do Congresso Nacional, para construí-las em uma área indígena.
Outra possibilidade levantada pelos pesquisadores é o fato das autoridades energéticas não expandir a capacidade termogeradora suficientemente rápido, permitindo que as usinas termelétricas ficassem deterioradas, como um meio de montar apoio popular para a barragem: em Boa Vista, por exemplo, a população tendia a culpar os índios por cada queda de energia e/ou restrições ambientais que impediam a construção de Cotingo (FEARNSIDE; BARBOSA, 2002).
A capacidade termelétrica em Boa Vista durante as discussões sobre Cotingo na primeira metade da década de 1990 era maior do que a demanda. A capacidade termelétrica instalada em Boa Vista totalizava 83,26 MW e só era considerada energia efetiva pela CER apenas 42,0 MW, devido algumas unidades serem estocadas para servir de reservas para uso em caso de paralisações (FEARNSIDE; BARBOSA, 2002). Segundo informações da CER (1994, p. 3-5), a demanda média para Boa Vista tinha sido projetada em 22,74 MW para o ano de 1994 e o pico da demanda em 36,60 MW. Com base nesses dados, percebe-se que existia certa “folga” ou uma “margem” na capacidade existente, mesmo sem os geradores de reposição.
O que ficava difícil de entender era o aumento brusco nos cortes de energia em Boa Vista em 1994, já que existia “margem” ou “folga” entre capacidade e demanda. Esse era mais um dos questionamentos de Fearnside e Barbosa (2002), adicionado as inúmeras críticas realizadas nos seus estudos com relação à alternativa de preferência do governo estadual (Cotingo) durante a discussão entre as duas alternativas existentes até o ano de 1995 (Cotingo x Termelétricas).
Os pesquisadores usavam como argumentos na defesa pela preferência em expandir a capacidade termelétrica, a vantagem de poder ser feita e incrementada em pequenos passos a partir da confirmação do crescimento da demanda e da necessidade de mais energia. Para eles, a natureza incremental da expansão da capacidade de geração termelétrica combinava bem com a incerteza “extraordinariamente” alta das projeções populacionais em Roraima.
De acordo com Sadi98, a alternativa de se substituir o combustível diesel pelo gás de Urucu fazia parte da alternativa de se ampliar o parque térmico, só que com uma forma mais eficiente de geração porque, teoricamente, o gás de Urucu99 é um combustível um pouco mais limpo. Uma turbina a gás é mais eficiente que os motores a diesel utilizados na região. O custo de operação e manutenção era um pouco menor. Só que a Petrobrás constatou que esse investimento era inviável para Roraima pelo pouco consumo. O mercado de Boa Vista representava dez por cento do mercado do Manaus. Então ela viu que não valeria à pena fazer um gasoduto de oitocentos quilômetros (de Manaus a Boa Vista), que é um custo muito elevado, para atender só aquele mercado de pouco porte e pouco retorno para ela. O aproveitamento do gás natural amazônico (Bacia do Solimões), na geração termelétrica nos sistemas isolados, fazia parte de um Programa de Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso.