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6.2 Research prospects
É impossível falar de educação libertária no Brasil sem que mencionemos o nome de Francisco Ferrer y Guardia. Como podemos compreender nas páginas anteriores, a criação das Escolas Racionalistas no Brasil faz parte de um amplo processo de discussão em torno das suas experiências na Espanha. As escolas libertárias surgiram muito cedo no Brasil e durante a década de 1910 já se faziam presente em várias localidades do território Brasileiros, como em Fortaleza, Manaus, Belém, Sorocaba, Santos, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Niterói, entre outras. Em São Paulo, semelhantes à Sociedade Pró-Ensino Racionalista, de Polidoro Santos e de Waldemar Fettermann, no Rio Grande do Sul, se criou o Comitê Pró- Escola Moderna, composto por anarquistas e livres pensadores, depois das manifestações contra o fuzilamento de Ferrer na Espanha. Como concretização dos trabalhos do Comitê, se criou as Escolas Racionalistas Nº 1 e Nº 2, ambas em São Paulo.
O programa dessas escolas incluía a caligrafia, gramática, aritmética, geografia, história, física, química, desenho e para complemento dessas atividades tinham as “sessões artísticas e as conferências científicas”. A existência dessas escolas era constantemente mencionada, nos periódicos da época. No jornal A Lanterna, de 31 de maio de 1912, noticiava a fundação de uma nova escola em Belenzinho, São Paulo, e também da forma do seu funcionamento:
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As suas aulas tanto diurnas como noturnas já estão em funcionamento com regular freqüência de alunos e a inscrição para a matrícula se acha aberta, mediante a contribuição de 3$ para as aulas diurnas e 4$ para as noturnas.
O fornecimento de livros e materiais é feito gratuitamente aos alunos da escola a fim de facilitar aos operários a educação e a instrução de seus filhos segundo o método racionalista.157
Na escola é onde se aprendem os princípios revolucionários. É assim que é visto o aspecto político da educação nas escolas libertárias. É na escola que se aprende a autonomia, a solidariedade, o apoio mútuo, o senso crítico, a ver a sociedade como ela é, sem as rotinas do laicismo estatal e sem o misticismo religioso. Os anarquistas perceberam com clareza que todo processo educacional era carregado de teor ideológico. Nas palavras de Eduardo Valladares sobre a educação na Primeira República:
A educação tradicional tinha como corolário inevitável a formação de indivíduos padronizados, dóceis, profundamente autoritários e carregados de preconceitos e superstições. Por isso, a escola oficial, fosse laica ou não, era refutada. Ela servia
apenas para incutir os valores sociais e morais das classes dominantes.158
De fato, a grande disputa no Brasil não era somente quanto à educação estatal, mas, assim como na Espanha de Ferrer y Guardia, tendia também à crítica das instituições religiosas. Questiona-se não somente a vulnerabilidade do ensino público, que tem um sentido bem definido – reforçar as instituições estatais159 – mais a intervenção dos clérigos da Igreja no ensino.
O mais formidável de todos os obstáculos que se antepõem à nossa propaganda de emancipação social é a instrução clerical, mais ou menos disfarçada, que recebemos na primeira infância. (...) Pois bem, depende de nós evitar desde já que os nossos filhos contraiam o mal; é criarmos nossas escolas, isolando-os do ambiente corrompido.160
O ano de 1919 é um ano crucial para as escolas libertárias, um acidente ocorrido derivado da manipulação de materiais explosivos provocou a morte de quatro anarquistas, dentre eles o diretor da Escola Moderna de São Caetano, José Alves. As escolas modernas de São Paulo receberam ofícios do diretor geral de instrução, Oscar Thompson, no qual determinava o fechamento das escolas. No jornal a Plebe de 13 de dezembro de 1919 dizia:
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A Lanterna, 31 de maio de 1912, in: RAGO, Margareth. Do Cabaré ao Lar: a Utopia da Cidade Disciplinar – Brasil 1890-1930. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. p. 160.
158 VALLADARES, Eduardo. Op. Cit. p. 155.
159 William Godwin (1756-XX), um dos precursores da moderna pedagogia anarquista, é bastante claro nas suas
colocações. Para ele uma educação entregue ao Estado está entregue a um agente não confiável e tem como primeiro sentido reforçar o poder das instituições estatais. Sobre Godwin e educação ver CODELLO, Francesco. Op. Cit.; MORIYÓN, F.G. (ORG.). Op. Cit.
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Tendo sido verificado pela Secretaria da Justiça que as escolas “visando a propaganda das idéias anárquicas e a implantação do regime comunista, ferem de modo ineludível a organização política e social do país”. Por isso foi decretado o seu fechamento.161
Ainda foi tentado burlar o controle estatal, mudando o nome da escola para Escola Nova, o que possibilitou durante um bom tempo a sua divulgação nos periódicos.
Os Centros de Estudos Sociais ou Centros de Cultura Social desempenharam um importante papel nos meios libertários. Nesses espaços, funcionavam bibliotecas, eram promovidas conferências, palestras, grupos de estudos, cursos – cursos primários e profissionais, como corte e costura, desenho geométrico, artístico, além do ensino de música e de teatro social – e alguns até possuíam escola. Mas o importante papel do Centro de Cultura residia na formação do militante, subsidiando-os com cursos de oratória, por exemplo, e também na produção textual para os jornais. As atividades desenvolvidas no Centro eram desde as de caráter educativo até as de comemoração das lutas da história da classe operária. O baixo investimento para a criação dos Centros de Cultura propiciou a sua disseminação, bastavam uma sala, alguns móveis e livros para a biblioteca.
Outra prática importante foi a criação de bibliotecas. Geralmente, a primeira ação de um grupo depois de constituído era a formação de uma biblioteca. Esse tipo de empreendimento, geralmente funcionava no período da noite para facilitar o acesso aos trabalhadores. Os grupos enviavam pedidos de livros as revistas e jornais libertários para compor o seu acervo, como é o caso do Sindicato dos Ferroviários em Campinas que:
[...] comunica estar trabalhando para o desenvolvimento de seu gabinete de leitura, criando uma biblioteca, para a qual solicita remessas de livros de toda natureza, novos ou usados. Aí fica o apelo ao qual nos associamos visto tratar-se de uma iniciativa que se destina à cultura proletária.162