Uma vez que nossa civilização valoriza as abordagens do conhe- cer e do fazer baseadas em disciplinas sobre todas as outras alter- nativas, seus sucessos e falhas podem ser prontamente explicados. Muito da vida humana social e coletiva é feito de situações às quais diferentes categorias dos fenômenos fazem contribuições não des- prezíveis. Quando qualquer abordagem baseada em disciplinas é aplicada a esse tipo de situação, ela irá resumir aqueles fenômenos a categorias pertencentes àquela na qual ela se especializou, com o ob- jetivo de colocá-los em um campo povoado exclusivamente por essa singular categoria do fenômeno. Ela ganha, assim, as vantagens das abordagens comparativas à custa de controlar como esses fenôme- nos contribuem à adaptação e à evolução das situações das quais eles participam. Como resultado, a aplicação de qualquer conhecimento baseado em disciplinas multiplicará, necessariamente, as tensões em qualquer meio (natural ou cultural), assim revelando seu viés antivi- da. Abordagens baseadas em disciplinas não produzirão esses pro- blemas onde quer que a vida humana, individual ou coletiva, tenha sido reorganizada à imagem de máquinas clássicas ou informáticas. Em outras palavras, abordagens baseadas em disciplinas podem me- lhorar o que um fenômeno particular faz em comparação a todos os outros fenômenos do mesmo tipo sem ser capaz de avaliar como isso afeta o contexto ao qual esse fenômeno particular contribui. Sem pretender fazê-lo, nossa civilização acabou icando com as aborda- gens que proporcionam desempenho, rasgando o tecido de relações integrantes de toda vida.
Desde o princípio, nossa civilização não teve consciência do viés antivida de suas abordagens baseadas em disciplinas e esse, em gran- de medida, continua sendo o caso. A ciência não foi concebida para ter nenhuma limitação no domínio do saber, nem a técnica no domí- nio do fazer. Estruturas calcadas na cultura a im de entender e viver neste mundo foram substituídas por incontáveis decisões sustenta- das por fazeres e saberes baseados em disciplinas. Costumes e tradi- ções quase desapareceram. As consequências têm sido devastadoras. Por exemplo, quando economistas estudam o fenômeno econômico na vida humana e na sociedade, eles necessariamente se comportam como se esse fenômeno dominasse toda a vida, o que implica que, na essência, a vida seria apenas de natureza econômica. Todos os outros fenômenos poderiam ser desprezados ou entendidos em termos de fe- nômenos econômicos. Eles serão inevitavelmente enviesados contra toda situação na qual os fenômenos econômicos contribuam muito pouco ou na qual outros fenômenos sejam muito mais importantes. O auge desse viés fora alcançado pela Escola de Economia de Chica- go [Chicago School of Economics]. Foi decretado fundamentalmente que mercado, taxas de desemprego e homo economicus são “naturais” e que estão, portanto, para além de nossa responsabilidade.
Na mesma linha, dizem-nos incessantemente que a técnica é neutra e que sua inluência na vida humana, na sociedade e na biosfera é o resultado de seu uso, em oposição à sua estrutura e ao seu entrelaçamento com outros fenômenos. Da breve exploração anterior, parece que tal posição é insustentável. Ciência, técnica e o crescimento econômico alcançado com elas diicilmente são neutros e é certo que não são objetivos. Nossos modos de vida in- troduziram um viés em favor de tudo que for técnico. Nós fomos brilhantemente bem-sucedidos em melhorar a performance de tudo o que fora reorganizado à imagem da máquina e falhamos de forma igualmente espetacular em garantir que tudo evoluísse e se adaptasse em relação a todo o restante. Tudo isso torna-se muito destruidor de toda vida.
A abordagem técnica baseada em disciplinas praticamente substituiu a abordagem simbólica cultural em quase todas as es-
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feras da vida humana. Ela prossegue tratando tudo aquilo que nós gostaríamos de melhorar como um domínio constituído de um nú- mero limitado de variáveis e desprezando todas as outras. Contudo, agir assim é cientiicamente aceitável apenas quando todo o restante permanece inalterado (caso em que não evolui e, portanto, é consi- derado como morto), quando todo o restante se repete (caso em que é considerado como uma máquina, por sua natureza inanimada, ou como um sistema técnico) ou quando todo o restante pode ser desprezado (caso em que é desconsiderado ao ponto de que poderia muito bem não existir). Na maioria dos casos, seu uso generaliza- do não é cientíico, resultando que essas suposições revelam o viés antivida de nossos modos de vida modernos e da orientação niilista de nossa civilização. Max Weber examinou o princípio embrioná- rio desse processo, que chamou de racionalidade. Décadas depois, Jacques Ellul examinou-o como um fenômeno e sistema da técnica (Gerth; Wright, 1963).3 Esses desenvolvimentos são caracterizados
pela busca por eiciência que tem como alicerce a reorganização de tudo em termos mecânicos ou informáticos, usando a abordagem baseada em disciplinas. A abordagem técnica constrói uma ordem técnica separada da ordem cultural, que evolui com base na expe- riência e na cultura.
Essa organização técnica do absurdo [non-sense] é destrutiva em quatro aspectos importantes. Primeiro, o conhecimento basea- do em disciplinas é separado da vida humana e do mundo por meio de uma tripla abstração. Como exemplo, considere o que ocorre em nossos hospitais. Uma vez que muitos fenômenos diferentes estão envolvidos em suas operações, não há disciplina que corresponda aos hospitais. Para trazer saberes e fazeres baseados em disciplinas a im de conduzir suas operações, hospitais precisam ser abstraídos do mundo, que é substituído por inputs de pessoas doentes ou ma- chucadas e outputs de pacientes que receberam alta e retornaram a ele. Antes que qualquer um possa participar do processo de cura que transforma esses inputs em outputs, é preciso ainda abstrair, de-
les, os aspectos compatíveis com suas disciplinas e especialidades. Doutores, enfermeiras, isioterapeutas, nutricionistas, psiquiatras, assistentes sociais, especialistas em sistemas de informação, admi- nistradores, contadores, engenheiros de manutenção, especialistas em relações públicas e consultores de segurança, todos conhecem diferentes aspectos de acordo com suas disciplinas. Uma vez que essas disciplinas ignoram como o funcionamento de um hospital interage com todo o restante, especialistas não conseguem tomar decisões baseados no que é melhor para a vida humana, para a so- ciedade e para a biosfera quanto ao que fazer em resposta a um pro- blema. Eles não conseguem utilizar os valores da cultura, da qual eles abstraíram tudo o que puderam – notadamente, a parte do processo de cura relacionada à sua disciplina isoladamente e quais- quer intervenções que retornem ao processo –, e isso não pode ser medido apenas em termos de índices de output-input abstratos em relação aos valores humanos. Como resultado, a divisão do traba- lho nos hospitais norteada pelas disciplinas continua como se esses hospitais fossem organizados em termos de domínios separados e distintos, nos quais uma categoria do fenômeno, correspondendo a uma única disciplina ou especialidade, contribuiria para uma sub- função primeiro para o processo de cura e, depois, por meio deste, para o funcionamento dos hospitais. Tudo o que esses especialistas baseados em disciplinas fazem é, então, descolado da vida humana e da sociedade por meio de uma tripla abstração, e seus esforços coletivos constroem uma ordem técnica que evolui sem fazer ne- nhuma referência ao sentido [sense].
A segunda importante consequência das abordagens baseadas em disciplinas resulta do fato de que especialistas suspensos em suas triplas abstrações não podem “ver” intelectualmente (se fo- rem deixados para lidar com algo sozinhos) as consequências de suas decisões, porque elas fogem de seu campo de especialização. Eles não conseguem simbolizar suas experiências proissionais em relação a nada diferente delas, resultando na incapacidade de enxergar para além de suas disciplinas (justiicadamente chamas de silos) para poder ajustar sua tomada de decisão de forma que
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atinjam suas metas e, ao mesmo tempo, previnam ou minimizem signiicativamente os efeitos colaterais indesejados. O equivalen- te em nosso cotidiano seria treinar pessoas para dirigir seus carros fazendo que se concentrem em sua performance conforme o que é indicado pelos medidores dos painéis e, apenas ocasionalmente, que deem uma olhada pela janela quando ouvirem um barulho muito alto. Consequentemente, as consequências prejudiciais das tomadas de decisão baseadas em disciplinas e os diversos efeitos indesejados devem ser tratados como “im-de-ciclo” [end-of-pipe]. Bens e serviços adicionais precisam ser criados para compensar ou mitigar esses efeitos, e isso se torna tão caro que nós temos quase de desistir de uma regulação efetiva. Isso também transforma criação de riqueza em extração de riqueza.
A terceira consequência torna as coisas ainda piores, pois tudo o que aquela abordagem do fazer e do saber baseada em disciplinas pode fazer é melhorar a performance das coisas. Quando soluções genuínas requerem prevenção por melhor adaptação e evolução, essa abordagem do saber e do fazer é estruturalmente incapaz de provi- denciá-las. Por exemplo, o impasse em muitas cidades não será re- solvido otimizando incansavelmente a capacidade de nosso sistema de transporte. Além das abordagens pelo “lado do abastecimento”, que melhoram a capacidade de transporte, abordagens pelo “lado da demanda” são essenciais para que se reduza nossa necessidade por mobilidade. Isso transcende as disciplinas usuais. Nesse meio- -tempo, a maioria das soluções baseadas em disciplinas leva à maior deterioração da compatibilidade entre as pessoas, suas necessidades de mobilidade, as formas urbanas e a biosfera.
Finalmente, especialistas isolados e seus esforços coletivos em meio à atual divisão intelectual e proissional do trabalho compor- tam-se como se a vida humana e o mundo fossem organizados à ima- gem das máquinas convencionais e informáticas, o que signiica que são montados a partir de domínios distintos e separados, nos quais uma categoria do fenômeno contribui para uma subfunção. Se nós, em algum momento, precisamos de evidências de que a vida huma- na e o mundo não são organizados dessa forma, isso é certamente
fornecido pela proliferação das crises humanas, sociais e ambientais de nosso tempo – contanto que nós entendamos que elas são o resul- tado de um viés comum do saber e do fazer baseados em disciplinas.