A capacidade de consumo está intimamente relacionada com o conceito de pobreza. É um dos fatores que determina uma situação de pobreza, pela ausência dessa capacidade, especificamente para os bens materiais. A capacidade de consumo é afetada fortemente pelos rendimentos obtidos, mas também pelo contexto sociofamiliar e pela mobilização de outras capacidades, como seja a gestão do orçamento (Lourenço, 2005). Nesta categoria são considerados para a capacidade de consumo, não só os rendimentos auferidos, mas também bens que possam ser recolhidos para autoconsumo (através da rede social de suporte), poupanças realizadas ou competências de gestão de dívidas.
Os entrevistados do presente estudo mostram que os efeitos ao nível da capacidade de consumo não se fizeram sentir: «(…) eu esperava que mudasse, mas não mudou muito», estando em muito associado à dificuldade em obter um emprego remunerado e, portanto, ao aumento dos rendimentos: «trabalho não há, mas como não tenho, tenho de me sujeitar aquilo que há», «Se tem outro trabalhinho, se dá para fazer, agora está um bocadinho complicado».
A maioria dos entrevistados apresenta rendimentos mensais que rondam os 145€24 por elemento do agregado familiar e relatam dificuldades económicas, nomeadamente pela incapacidade de gerar poupança ou realizar um investimento, ou sequer ter capacidade para efetuar o pagamento
23 Tradução da autora.
24 O cálculo foi realizado por arredondamento e considerando as respostas obtidas dos entrevistados, não
se confirmou a informação com fontes oficiais. A dimensão dos agregados familiares dos entrevistados varia entre o mínimo de 1 e o máximo de 8.
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de ‘contas’ atempadamente: «às vezes se não fosse a ajuda dos filhos mais velhos, das pessoas amigas, da irmã, é complicado». Neste sentido, é expectável que o foco dos mentorandos seja na componente rendimentos e na expetativa de poder alterar esta dimensão da sua vida. Todos os entrevistados revelam algumas dificuldades em obter rendimentos suficientes para as despesas que têm, apesar de alguns terem apoio de familiares, expressando mesmo alguns sentimentos de ansiedade: «tenho de andar a pedir fiado»; «fica esticadinho e mesmo assim às vezes, mesmo esticadinho já é um bocadinho complicado».
Contudo, a mudança significativa gerada no orçamento familiar e os efeitos benéficos que essa aprendizagem trouxe para a família, nomeadamente pela capacidade de gestão dos rendimentos auferidos e as despesas a pagar, assim como na aquisição de bens de maior necessidade é evidenciada por um entrevistado: «Não conseguia me organizar mesmo», traduzindo uma alteração que permitiu uma maior capacidade de fazer face às despesas existentes e a alterações nas rotinas da família.
Em relação à capacidade de consumo, alguns observadores privilegiados seguem a tendência de valorizar a capacidade de consumo como um efeito positivo, não pelo aumento do nível de rendimentos, mas por uma maior capacidade de gestão do orçamento familiar (sentida por um dos mentorandos entrevistados): «dessas pessoas que participaram no projeto, não me recordo que hoje alguém nos venha dizer que ‘não tenho dinheiro para pagar isto…’», «alteração significativa da gestão do orçamento», contribuindo para reforçar a ideia de que os mentorandos estarão focados na obtenção de rendimentos, por via do trabalho remunerado, e possam não estar conscientes de eventuais alterações que possam ter surtido na sua vida. Ainda a relatar que dois dos entrevistados não se recordam de alguma situação concreta que revele os efeitos ao nível da capacidade de consumo, podendo deduzir-se que quaisquer impactos possam não ter sido muito significativos.
A avaliação dos programas de mentoria (MOMIE e MEGAN) mostram resultados contraditórios entre si, mas cada um aponta para os resultados obtidos nesta investigação e parece que os efeitos se mantêm no tempo. No projeto MOMIE, a capacidade de consumo (‘saber gerir o dinheiro’) foi o indicador que obteve pontuação mais baixa por parte dos participantes sobre os efeitos do programa no seu dia-a-dia, tendo sido considerada a área com o desenvolvimento menos sustentado (Aproximar, 2012). No programa de mentoria MEGAN, foi identificado um impacto socioeconómico de mais de 75.000 euros, considerando um período de 12 meses (PENDULUM, 2014), significando isto que após o programa de mentoria, os participantes obtiveram alguma forma de integração laboral que lhes permitiu realizar um encaixe financeiro e aumentar os seus rendimentos, deduzindo-se um aumento da sua capacidade de consumo. Como resultado estatisticamente significativo, o qual foi identificado na avaliação após 6 meses do término do processo de mentoria, os participantes do grupo experimental relataram ter uma melhoria na gestão do orçamento familiar, pelo facto de terem, em média, remunerações superiores às do grupo controlo (Centre for Economic and Social Inclusion, s.d.). Também a análise qualitativa, realizada no âmbito do programa de mentoria MOMIE, identificou que os mentorandos valorizaram esta componente de desenvolvimento, nomeadamente pelas aprendizagens feitas ao nível da criação de orçamento e do estabelecimento de prioridades, da gestão de dívidas e
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do contacto com entidades capazes de apoiar na resolução das mesmas ou de providenciar apoio na obtenção de apoio financeiro (Finnegan, et al., 2012).
A título de exemplo, outros estudos de investigação corroboram a posição de que a mentoria contribui positivamente para a capacidade de consumo: uma meta-análise realizada em 2004 identificou que as pessoas que desenvolviam um processo de mentoria tinham maior probabilidade de obter maiores rendimentos e um estudo sobre os efeitos de um programa de mentoria em mulheres a trabalhar em investigação mostrou que as mentorandas obtinham maiores financiamentos para os seus projetos (Gardiner, et al., 2007); uma avaliação do programa “Money Mentors” (educação financeira) provou que os mentorandos sentiram mudanças positivas na gestão do seu orçamento, reduzindo os níveis de ansiedade face aos constrangimentos financeiros (Williams & Simpson, 2015).