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8. Conclusion remarks

8.3. Further research

Depois de nos tornarmos um leitor de Kierkegaard é um paradoxo, nestas considerações que também não é um final, desejar concluir o que quer que seja. As leituras deste pensador dinamarquês nos levaram por inúmeras trilhas reflexivas e a refazer e desfazer certos paradigmas cristalizados sobre seus escritos por comentadores que por vezes se apegam a um determinado aspecto em detrimento de outros, o que causa a sensação de um pensador que só é compreendido em um mosaico.

De nossa motivação inicial ao término desta etapa investigativa, percebemos que só agora demos os primeiros passos na compreensão e pesquisa do complexo opus kierkegaardiano. E por limitações temporais e recortes metodológicos não nos aventuramos na obra como um todo, e só de longe vislumbramos os discursos edificantes. Demos ênfase às obras pseudônimas traduzidas para o português e que tratavam do problema da linguagem.

Nosso maior desafio foi o de encontrar um referencial sobre esta temática por nós escolhida, por isto sob os cuidados da orientação nos centramos na leitura e reflexão dos escritos de Kierkegaard, correndo os riscos, é claro de nos equivocarmos ou desconsiderarmos determinados detalhes por nós desconhecidos.

Todo o interesse por Kierkegaard surgiu de uma grande curiosidade intelectual que expomos na introdução, e quanto à temática por nossa relação com a Literatura e a Lingüística, mas, sobretudo alimentado pela carência de reflexões desta categoria na tradição de estudos de Kierkegaard. Dessa forma foi que intentamos explicitar nesta dissertação apenas uma introdução à temática da linguagem em Kierkegaard, a começar com a sua problematização.

No primeiro capítulo, quando discorremos sobre método e linguagem procuramos mostrar que os escritos do Magister possuem uma dialética interna quanto à forma lingüística, ou seja, conteúdo e forma se relacionam dialeticamente. A escolha dos temas e categorias implica necessariamente na forma como serão ditas.

Assim, a forma escolhida que melhor realiza a dialética com o conteúdo é a ironia. Isso significa que a dialética kierkegaardiana não é ontológica, entendida no sentido hegeliano. Do início ao fim, sustentamos que os escritos de Kierkegaard são de natureza irônica, justamente porque suas categorias são a fé, existência, paradoxo, absurdo, silêncio, angústia, desespero e adiante.

Desse modo, nos encaminhamos para o segundo capítulo acreditando que Kierkegaard é um artista da palavra, sobretudo pela complexidade de seus pseudônimos e maestria no uso da língua materna.

O segundo momento da nossa dissertação é o ponto chave porque encerra o problema da linguagem que a partir do Conceito de Angústia a compreendemos como queda, tornando-se linguagem humana histórica e paradoxal, marcada pela ironia.

A linguagem, enquanto determinação e devir é o que garante o tornar-se Indivíduo, embora os homens corram o risco de se deterem em uma linguagem institucionalizada e cristalizada ou se fecharem no seu hermetismo.

Verificamos que esta problemática se enraíza nas leituras de Kierkegaard sobre Hamann que também aborda a linguagem enquanto história e realização humana diante do mistério e do inefável. Assim compreendendo a linguagem na sua dialética nos direcionamos para a última parte da pesquisa mostrando que esta dialética é paradoxal e não-ontológica.

No terceiro capítulo, tematizamos sobre o paradoxo da linguagem no que tange à sua relação com a palavra e o silêncio. E por fim, sintetizamos dizendo que tanto a palavra e silêncio são linguagem, que o não dizer ou não conseguir falar é um problema de palavras e não de linguagem. Mas para além da palavra há uma linguagem que nem conseguimos atingir porque é o totalmente outro da linguagem humana, é a linguagem divina, o que repõem em jogo as limitações da linguagem humana.

Parece-nos que Kierkegaard aponta para o seguinte problema filosófico: qual é a relação entre a linguagem e a verdade? Podemos conhecer a verdade? E o que é a verdade? A verdade é aquele totalmente outro, o absolutamente diferente de nós a que tanto ansiamos por não os termos. Desse modo, o Cristianismo se tornou outro caminho de reflexão filosófica, o Cristo enquanto palavra encarnada e verdade revelada como incógnito.

Este totalmente outro, recebeu o nome de deus, e em atitude amorosa quis se fazer compreender, então se fez homem-palavra, fez-se verbo. Logo, a palavra é a via que temos para alcançar a verdade, é no diálogo que encontramos os rastros e as pistas do que é o outro, mas ainda assim a palavra é insuficiente, contraditória, portanto trágica.

No entanto, faz todo o sentido o amante desejar a realização do amor no diálogo sempre constante, porque a história não acaba, porque é devir. Deste modo, o filósofo é um poeta da palavra ou ainda, como entendemos Kierkegaard, um poeta do Absoluto.

Talvez Kierkegaard não tenha realizado e se tornado um religioso fervoroso porque isto o obrigaria a se calar, mas ao contrário, falou muito e de vários modos tentando achar uma alternativa para sua tão angustiante limitação com as palavras. Se o Absoluto se tornou a sua grande questão era para lembrar que existe um tu cotidiano que também me interpela e me interroga. A partir da relação com o Absoluto, não dá mais para reduzir o tu apenas a outra imagem de mim. Cada Indivíduo é secreto, e diante de cada um não posso me calar e silenciar, mas amar como um dever que constitui minha existência profunda.

É evidente que Kierkegaard tem muito a nos dizer neste início de milênio, sobretudo no campo da ética e da comunicação. Dessa forma, esperamos ter contribuído para uma desmistificação e reducionismo dos textos kierkegaardianos, enriquecido a temática filosófica Kierkegaardiana trazendo à tona a categoria da linguagem e apontado novos desafios quanto à problemática da comunicação.

Ficamos desejosos ainda por aprofundarmos a compreensão de Kierkegaard acerca da linguagem na sua relação com Hamann, Herder, Jacobi e Humboldt que se dedicaram ao tema. Bem como uma tarefa árdua em situá-lo entre Kant e Hegel, mais especificamente, entre os limites da razão e o Espírito Absoluto, pois o Magister foi aquele que, reconhecendo os limites da linguagem, não silênciou, mas se lançou ao eterno como um poeta do Absoluto.