Num país profundamente rural, em que 50% da população ativa se dedicava às pescas e à agricultura, apenas duas Associações de Classe rurais estiveram presentes no Congresso Sindical de 1911, a associação de Coruche e a de Ferreira do Alentejo192. Para colmatar esse baixo índice de sindicalização entre os proletários rurais, alguns delegados
187 OLIVEIRA, César – O Congresso Sindicalista de 1911, p. 68. 188 Idem, p. 95.
189 RATES, J. Carlos – “Aos Sindicalistas: a organização operária em Portugal”. O Sindicalista, nº 47,
1/10/1911, p. 1-2.
190 Idem, p. 1-2. 191 Idem, p. 1-2.
192 VENTURA, António – Subsídios para a história do movimento sindical rural no alto Alentejo (1910-
da CECS foram enviados em ações de propaganda, para fortalecer a relação com os sindicatos já existentes. Todavia, estes trabalhadores não eram alheios às lutas coletivas por melhorias das condições de vida. Já antes da tournée de propaganda da CECS, organizaram uma greve geral (janeiro de 1912) que se estendeu a Lisboa193. Esta greve de solidariedade, contestada por Rates, provocaria fortes confrontos entre sindicalistas e o governo, em Lisboa, Setúbal e na Moita, o que levou ao encerramento da Casa Sindical194.
A decisão de iniciar as novas ações propaganda na “província” foi aprovada no dia 26 de março de 1912, onde Rates já declarava195 ser “convictamente sindicalista, porque o sindicalismo é uma doutrina que se baseia tão simplesmente nos factos”196. Porém, este já não estaria no estado de graça de outrora, à data das mobilizações de Setúbal. Depois de se mudar para Lisboa, passou a integrar a Federação dos Operários da Indústria da Construção Civil, no entanto, não foi capaz de assumir a liderança deste movimento, sendo severamente atacado pelas suas posições no sindicato. Para os redatores do jornal
O Construtor, em resposta às acusações de Rates em O Sindicalista e O Século, de que a
comissão de inquérito da Federação da Construção Civil era anti-sindicalista, afirmaram, por sua vez, que talvez até seja, “mas Rates é sindicalista? Não o creio” 197. Para este sindicalista, que escrevia o artigo, Rates era apenas um “tartufo” que “se introduziu no movimento operário com pretensões a chefe a ídolo”198.
Já nesta altura, em abril de 1912, durante a polémica com o sindicato da construção civil de Lisboa, Rates encontrava-se entre os trabalhadores de Coruche, que parecem suscetíveis às ideias da organização sindical, dado que “assimilam com entusiamo a propaganda associativa quando lhes falam ao coração”, não obstante, “confundem-se
193 VIEIRA, Alexandre – “Para a História do Sindicalismo em Portugal”, p. 61-65
194 Idem, p. 62-65: A “Casa Sindical”, inaugurada a 31 de dezembro de 1911, tratava-se do edifício onde
se encontrava a sede da União dos Sindicatos de Lisboa (USO-Lisboa), da CECS e da redação de O
Sindicalista. Este espaço tornou-se num marco da implantação das doutrinas sindicalistas revolucionárias
defendidas no Congresso Sindicalista de 1911: VIEIRA, Alexandre – Para a história do sindicalismo em
Portugal, p. 56-57.
195 RATES, J. C.; ESTEVES, Evaristo – “A vida operária em Évora”, O Sindicalista, nº 83, 30/06/1912, p.
3.
196 “Vida Sindical”. O Sindicalista, nº 70, 31/03/1912, p. 4.
197 MATOS, A. – “Como os homens se desmascaram”. O Construtor, nº28, 14/04/1912, p. 2. 198 Idem, p. 2.
quando se lhes expõe doutrinarismo transcendentes”199.
A primeira fase da ação de propaganda pela província passou também por Vila Franca de Xira200, Coimbra e Évora, onde foi interrompida, temporariamente, a mando do Governador Civil201. Esta propaganda sindicalista revelou-se oportuna por ter acompanhado as mobilizações dos trabalhadores rurais do Alentejo, especialmente após a eclosão da greve em Évora. Os frutos das conferências dos delegados da CECS iriam ser colhidos, uns meses depois, com a realização do Congresso dos Trabalhadores Rurais, reunindo 12.525 trabalhadores, que passariam a estar federados ao Congresso de 1911202. Durante este período, a posição de Rates vai-se contradizendo até à data do debate de 1913 (sobre a finalidade do sindicalismo). Por vezes, referia o sindicalismo como uma doutrina independente do anarquismo, por outras, como estando em perfeita harmonia com o anarquismo. Como dizia o próprio, “o Sindicalismo não é uma doutrina política, mas um processo de luta e transformação social”203. Ainda assim, na sua visão, o sindicalismo era concebido enquanto uma ferramenta de transformação social, “a futura organização das sociedades”204. Também ainda não encontramos, da sua parte, uma rejeição clara das ideias anarquistas. Em alguns artigos verificamos até o oposto, ao elogiar o trabalho de propaganda de A Aurora, um semanário com influências anarquistas comunistas, por ter espalhado “as primeiras sementes [na província] aplanando-nos o caminho”205 para a organização sindical.
Contudo, como referia a imprensa anarquista, esta ação organizativa já poderia estar imbuída de uma conceção sindicalista autónoma, em oposição ao anarquismo. Uns meses depois da propaganda sindicalista pela província, o A Terra Livre (anarquista), publicaria um relato de um trabalhador rural que diria o seguinte, ao ser questionado sobre a atividade dos delegados da CECS:
199 RATES, J. Carlos; ESTEVES, Evaristo – “Os rurais de Coruche”. O Sindicalista, nº 74, 28/04/1912,
p.2.
200 SOUSA, Jerónimo de; PIEDADE, Custódio da; RATES, J. Carlos – “O Proletariado de Vila Franca de
Xira e Alhandra”. O Sindicalista, nº 76, 12/05/1912, p. 2.
201 RATES, J. Carlos – “A vida operária em Coimbra”. O Sindicalista, nº 77, 19/05/1912, p. 2.
202 VENTURA, António – Subsídios para a história do movimento sindical rural no alto Alentejo (1910-
1914), p. 41.
203 RATES, J. Carlos – “Carta Aberta a Sebastião Eugénio”. O Sindicalista, nº91, 25/08/1912, p. 2. 204 RATES, J. C. – “Propaganda sindicalista: através do Alentejo”. O Sindicalista, nº 94, 22/09/1912, p. 3. 205 RATES, J. C – “Propaganda sindicalista: através do Alentejo”. O Sindicalista, nº 91, 25/08/1912, p. 2.
Quem eram os propagandistas que foram à associação fazer propaganda revolucionária? — Nenhuns.
— Então não foram lá Manoel Afonso, Ferreira Quartel206 e Carlos Rates?
— Efetivamente foram, mas fizeram propaganda associativa ou sindicalista, e não revolucionária. 207
Não sabemos ao certo a intenção por detrás da divulgação deste relato, publicado já após o debate com Emílio Costa208 sobre se “o sindicalismo se basta a si próprio”, que poderia ser uma reação à nova posição de Rates. Talvez seja uma reação à brochura intitulada “Sindicalistas e Anarquistas”, publicada pela nova Federação Nacional dos Trabalhadores Rurais, que surge em Évora graças à ação de Carlos Rates. Nessa brochura encontram-se os vários artigos que irão animar o debate, desde Manuel Ribeiro a Neno Vasco209. Curiosamente, na posição oposta à dos anarquistas, Manuel Ribeiro elogiou vivamente a ação de Carlos Rates na organização dos trabalhadores rurais, ao afirmar que:
o Trabalhador Rural, órgão da jovem e ardente Federação Nacional dos Trabalhadores rurais, diga-se de passagem, a organização de classe mais revolucionária e combativa do país, e orientada por um militante da raça dos Grifuelhes e Yvetot – Carlos Rates210.