O interesse na descoberta da validade convergente e discriminante do conceito de identidade comparativa suscitou uma investigação mais apro- fundada não só sobre a relação entre diferentes medidas de identidade social, mas também sobre a influência que a identidade comparativa
exerce sobre os processos de diferenciação intergrupal (Huici e Ros 1995; Ros, Huici e Gómez 2000). Para responder a estas questões foram efec- tuados dois estudos, um na Catalunha e outro em Madrid, ambos com estudantes de bacharelato. No estudo da Catalunha, os inquiridos res- ponderam com recurso a duas escalas de identificação com a Catalunha e com a Espanha. Uma dessas escalas consistia em avaliar, em medidas independentes, o grau e a intensidade da identificação com cada uma das referidas categorias sociais para obter, a partir das respostas dadas, o índice de identidade comparativa (identificação com a Catalunha – iden- tificação com a Espanha). A segunda consistia na escala de identidade dual de Moreno (1988). Os inquiridos responderam ao item «tenho ten- dência a considerar-me...» com uma das seguintes respostas: (a) espanhol e nunca catalão; (b) a maioria das vezes espanhol e algumas vezes catalão; (c) espanhol e catalão; (d) a maioria das vezes catalão e algumas vezes es- panhol; (e) catalão e nunca espanhol; (f) nem espanhol nem catalão. Estas duas escalas de identidade diferenciam-se entre si porque a primeira per- mite conhecer a intensidade de cada uma das identificações sociais, o que permite estudar a relação entre ambas, enquanto a segunda, que es- tabelece uma comparação directa de ambas as identidades, permite co- nhecer a identidade, dual ou exclusiva, mas não a respectiva intensidade. Os inquiridos responderam ainda, enquanto membros do grupo catalão, a duas subescalas, de identidade e de auto-estima pública, retiradas das escalas de auto-estima colectiva de Luhtanen e Crocker (1992), numa ver- são especificamente centrada na auto-estima derivada da pertença e da identificação com uma categoria social. A subescala de identidade pode ser considerada uma medida da acessibilidade crónica da categorização para os indivíduos, porquanto se refere à importância da pertença a um grupo (no caso concreto, o catalão) para o autoconceito da pessoa, e in- clui itens como «o facto de ser catalão constitui uma parte importante da minha auto-imagem».
Também foram obtidos não só os estereótipos do grupo de pertença catalão e do exogrupo andaluz, mas também medidas da importância das dimensões do estereótipo. Uma das hipóteses principais do estudo era que a identidade comparativa catalã, medida através do índice de identidade comparativa e da escala de identidade única ou dual, mostraria uma maior relação com a saliência crónica da categoria catalã, medida pela subescala de identidade de Luhtanen e Crocker, do que a relação que se estabelecesse entre esta medida de saliência e a simples identifica- ção com a Catalunha. Esperava-se também que os inquiridos cuja iden- tidade comparativa fosse elevada estabelecessem diferenças entre o en-
dogrupo e o exogrupo nas dimensões de comparação relevantes (honesto, aberto e trabalhador), ao passo que aqueles inquiridos cuja identidade comparativa fosse baixa (identificação semelhante com a Catalunha e com a Espanha) não estabeleceriam essas diferenças. Os resultados con- firmaram as hipóteses, porquanto foram obtidas relações significativa- mente mais elevadas entre as medidas de identidade comparativa e a me- dida de saliência da identidade catalã do que entre a medida da identificação com a Catalunha e a medida de saliência. Por outro lado, e também conforme era esperado, os inquiridos catalães com alta iden- tidade comparativa estabeleceram diferenças a favor do seu grupo quando o compararam com o grupo andaluz (nas dimensões de comparação re- levantes). Já os inquiridos com identidade comparativa baixa não desta- caram essas diferenças entre o seu grupo e o exogrupo. Nas dimensões de comparação pouco relevantes, porém, ambos os grupos de inquiridos revelaram o mesmo padrão, desta vez favorável ao exogrupo.
Os resultados obtidos neste estudo indicam, por um lado, que a iden- tidade comparativa é uma medida melhor da acessibilidade crónica de uma categoria (isto é, da importância que essa categoria tem para o auto- conceito da pessoa) do que a medida directa da identificação com essa categoria. Assim, se quisermos determinar em que medida ser catalão, andaluz ou galego faz parte do autoconceito de um indivíduo, importa ter em conta não apenas a sua identificação com a categoria respectiva, mas também a sua identificação com a Espanha.
Por outro lado, os resultados indicaram também que a identidade comparativa constitui um dos determinantes da diferenciação intergru- pal, pois as pessoas com alta identidade comparativa são aquelas que mais interessadas se mostram em manter a distintividade relativamente ao exogrupo nas dimensões de comparação importantes. Este último re- sultado evidencia mais uma vez que a função de diferenciação desempe- nhada pelos estereótipos serve para manter a distintividade positiva do grupo de pertença, tal como defendeu Tajfel (1981), uma vez que essa função há-de assumir particular relevância para aqueles indivíduos que têm no seu grupo uma parte importante do autoconceito.
Quanto ao estudo efectuado em Madrid, as medidas utilizadas foram as mesmas do estudo da Catalunha e os grupos em comparação foram os espanhóis e os franceses. Também neste estudo se verificou que os participantes com alta identidade comparativa, alta identificação nacional e baixa identificação autonómica revelam uma maior diferenciação in- tergrupal nas dimensões de comparação relevantes do que os inquiridos com uma alta identificação nacional e autonómica, isto é, com uma iden-
tidade dual. Este estudo serviu para ampliar a noção de identidade com- parativa, na medida em que permitiu verificar de um modo mais geral que a saliência de uma categoria é maior quando existe uma alta identi- ficação com ela e não existe alta identificação com categorias de outros níveis.