5.1 Betydningen av relasjoner
5.1.2 Relasjonen med jevnaldrende
(O meu Ceará gozará nova sorte)
Oh! Deus. Perdoe esse pobre coitado. Que de joelhos rezou um bocado. Pedindo pra chuva cair. Cair sem parar.
Oh! Meu Deus. Se eu não rezei direito. A culpa é do sujeito. Desse pobre que nem sabe fazer a oração. (Súplica Cearense – O Rappa)
Não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta. Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer. E muita greve, você pode, você deve, pode crer (Até quando? - Gabriel O Pensador)
A assembleia ocorreu no mesmo horário da Roda de Conversa. Foi dispensada a educação permanente, neste dia, para maior disponibilidade de tempo para as discussões sobre o acolhimento, no entanto, a reunião começou com atraso de 40 minutos. Uma das primeiras falas de abertura foi a surpresa de uma profissional em saber que a “Roda” ainda ocorria regularmente.
Antes de adentrar a pauta principal, outras demandas foram levantadas, no entanto, a que rendeu maior discussão e desconforto foi a ordem da coordenação municipal de saúde mental, solicitando o remanejamento de um profissional da psicologia, com carga horária de 40h semanais. A equipe questionou os critérios para a transferência, porém a justificativa dada foi baseada na defasagem da categoria em outros CAPS, devendo haver uma divisão mais igualitária por carga horária total. Por exemplo, o CAPS em questão tinha 140hs semanais de psicólogos em exercício, o outro, apenas 40hs semanais. As mudanças ocorreriam em todas as regionais e com todas as categorias com o objetivo de dividir por igual a carga horária.
Algumas questões foram levantadas pela equipe com o objetivo de problematizar a transferência, como: o critério não se basear na realidade de cada serviço, considerando inclusive a fila de espera do próprio CAPS, complicando ainda mais a situação; a transferência se daria em poucos dias, dessa forma, comprometeria a vinculação entre o profissional e os pacientes acompanhados, inclusive, com pacientes graves; com a saída, algumas oficinas deveriam ser desfeitas; por último, ainda existir psicólogos aprovados na última seleção a serem convocados. Após a leitura da ordem recebida, os profissionais não concursados demonstravam receio em descumprir e serem penalizados. Compartilharam sentimento de impotência, medo, autoritarismo por parte da gestão municipal, consequentemente, maior adoecimento físico (pela sobrecarga) e psíquico (por trabalharem sob tantas pressões).
Ao longo das discussões, foi sinalizado por uma profissional do CAPS o fato do equipamento pertencer às políticas públicas de base comunitária, no entanto, tem sido gerenciado sob perspectiva privatista, de forma fragmentada. Complementou afirmando que o problema não era apenas da psicologia, mas de todo o serviço. Após discussões, decidiram não disponibilizar qualquer profissional para o remanejamento solicitado, por hora, e justificariam de acordo com as necessidades enfrentadas, alegando, inclusive, ser uma decisão coletiva.
Considerando as discussões anteriores, o profissional, coordenador da Roda, solicitou que as pessoas se posicionassem sugerindo encaminhamentos a fim de objetivar o debate. Alguns trabalhadores reconheciam as problemáticas, mas, tinham dificuldade em elaborar uma proposta. Reconheciam anteriormente a fila de espera como estratégica diante da promotoria, no entanto, percebiam que já não tinha força alguma. Então, surge a primeira proposta:
Não abre durante um tempo. De dois a três meses. Porque, sinceramente, a gente acolhe porque é o que a gente está fazendo. A pessoa chega, a gente fala, abre prontuário e vai. Olha, esse processo está me irritando. Não precisa abrir um prontuário! A pessoa vem com um sofrimento, a pessoa já é vítima de um sofrimento e tal. Ai a gente olha a vida dela todinha para ver se ela precisa de uma emergência? Não tem previsão? Isso é constrangedor eu estou me sentindo assim... complicado essa hora porque [...] vamos colocar um freio! Não abre mais, olhe, orienta, [...], encaminha para o posto de saúde... As pessoas, mesmo que eu diga claramente que não tem previsão, saem daqui com a esperança que vai ser daqui um mês...
- Vai fazer uma oração vai pra igreja... - Se Deus quiser está vivo...
- Você está colocando que o acolhimento permanecesse, mas que a avaliação de primeira não acontecesse.
- Não, porque não há possibilidade!
[Trecho transcrito da gravação do quinto encontro com o grupo, em 19/07/2017].
A primeira proposta foi recebida por alguns como radical, porque fecharia as portas do CAPS à população. Surgiu uma contraproposta, manter a escuta ao indivíduo que chegasse de primeira vez ao serviço, porém sem abrir prontuário, sinalizaram outros documentos que poderiam ser preenchidos, apenas. Questionaram que o atendimento continuaria provocando uma expectativa à pessoa, contudo, na prática, a mudança seria apenas burocrática.
Cogitaram limitar os dias de acolhimento, já que a atividade funcionava todos os dias. No entanto, não bastaria diminuir os turnos de atendimento, já que a procura poderia sobrecarregar os demais. A Roda sempre retornava aos mesmos pontos e discussões e esbarravam no medo de ousar sair daquele movimento. Importante sinalizar que não havia uma homogeneidade, tinha aquele que apontava a necessidade de buscar outras trajetórias:
Estamos administrando o CAOS. Clínicas escolas de férias, não ter para onde encaminhar, isso é cruel. Não somos nós que temos que pensar transformar o NADA em alguma coisa. É constrangedor, pedir favor, implorar ao médico... isso não é política pública, é a feira do Henrique Jorge. [Trecho transcrito da gravação do quinto encontro com o grupo, em 19/07/2017].
Após alguns embates, reconheceram três movimentos: –Não acolhe, não registra. – Tomar alguma atitude frente a gestão. – Manter o acolhimento (mantém como está ou atender parcialmente, sem abertura de prontuário). Após algum tempo discutindo as possíveis
consequências de cada decisão, surge a seguinte fala:
-Estamos há quatro semanas discutindo a mesma coisa. A gestão nos leva a essa situação de crueldade. Abrir prontuário ou qualquer outro documento dá na mesma. -Mas, não é direito do paciente? Porque com o número do prontuário ele pode reivindicar junto a justiça.
-Minha posição é: ou faz tudo e deixa como está ou nada! - A decisão deve ser coletiva.
[Trecho transcrito da gravação do quinto encontro com o grupo, em 12/07/2017]. Após votação, deliberaram manter como estava, sem alterações na prática do acolhimento. Definiram apenas solicitar a vinda da coordenação de saúde mental ou algum representante para discutirem a situação atual do serviço, assim como a ordem de remanejamento do profissional de psicologia.