5. Svar på problemstilling og konklusjon
5.1. Ledergrep
5.1.4. Rektors kvalitetsvurdering
Em seu livro A cultura popular na idade moderna19, o historiador Peter Burke
desenvolve uma concisa reflexão a respeito da relação quase causal entre a invenção da imprensa (cerca de 1450), a Reforma Luterana (1517 foi o ano em que Martinho Lutero fixou, na porta da catedral de Wittenberg, suas famosas 95 teses) e a formação do público leitor nos países europeus do norte. Consideradas como “religião do livro” (tanto que ainda hoje, em lugares como o Rio de Janeiro, o termo “bíblia” é um designativo para o fiel de uma igreja “crente”), as denominações protestantes marcaram sua diferença na adoção da livre leitura e interpretação dos livros sagrados. Assim, tornar-se seguidor de uma das igrejas reformadas implicava (e implica), como primeiro passo, alfabetizar-se.20 Tanto que, ao chegar ao final do século XVII, quase toda a população da Suécia, para ficar apenas num exemplo, estava alfabetizada e em 1 em cada 5 lares havia um exemplar da Bíblia ou do Catecismo com o Hinário. Escreve Burke:
Na Suécia, faziam-se sermões sobre o catecismo e leituras dele durante o ofício. No século XVII, o clero começou a percorrer casa por casa, para testar os leigos sobre sua capacidade de leitura e conhecimento do catecismo, visita conhecida como husförhör. Em outros lugares, a capacidade de responder corretamente as perguntas do catecismo por vezes constituía pré-requisito para a admissão à Ceia do Senhor, o principal ritual litúrgico das igrejas protestantes (BURKE, 1989: 248).
Em contraponto com os países do norte europeu, como se sabe, ainda hoje é possível encontrar, em alguns bolsões da Itália, da Espanha ou de Portugal, pessoas analfabetas. Esses países europeus mediterrâneos, de população quase que totalmente católica, não contaram com o estímulo da religião para aprender a ler. Ao contrário, a Igreja Católica criou os entraves possíveis para o acesso da população a livros e
publicações, pelo temor, sempre presente, dos “desvios da heresia”. Paradigmaticamente, enquanto os países do norte aderiam à leitura21, a hierarquia católica impunha as severas penas e processos da inquisição aos fiéis que se aventurassem pelos caminhos dos livros e da reflexão. Dois trabalhos desenvolvem muito bem esse viés e ambos estudam processos inquisitoriais contra leitores rebeldes à diretriz católica.
Em O queijo e os vermes, o historiador Carlo Ginzburg narra a história do moleiro Menocchio, que ao reunir uma dezena de livros sente-se confiante de enfrentar de igual para igual o inquisidor da diocese de Udine, no norte da Itália, e defender sua teoria de que o mundo tinha sua origem na putrefação. Terminou executado pela Inquisição em 1601 (GU INZBURG, 1998).
No livro Confissão, poesia e inquisição, o professor Luiz Roberto Alves resgata a história do poeta Bento Teixeira (1561-1600), morto poucos meses antes de Menocchio, também nas mãos da inquisição – com a diferença de que o poeta luso-brasileiro não chegou a ser queimado, como o moleiro italiano, mas morreu de pneumonia pelas más condições do cárcere lisboeta (ALVES, 1983).
Cristão-novo formado pelos jesuítas nas escolas do Rio e de Salvador, Bento Teixeira vivia de fazenda em fazenda, ensinando os rudimentos da gramática a membros da nascente elite açucareira que iriam depois tirar o bacharelado em ciências jurídicas em Coimbra. Autor do primeiro poema épico brasileiro, A prosopopéia, Bento Teixeira deixou, nos relatos de seu processo inquisitorial, visões e vieses desse Brasil em que livros
proibidos circulavam às escondidas, outros eram encomendados e chegavam de além-mar, camuflados entre sacos de farinha22. Havia uma sede de conhecimento, coibida pela sanha do colonizador, e isso fica patente entre as muitas pistas que nos dá o livro do professor e pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da U SP Luiz Roberto Alves.
Repetindo crenças eclesiásticas sobre os perigos da leitura e da livre interpretação, a Metrópole portuguesa não apenas colocava entraves para a criação de cursos e para a formação de uma elite local, como proibia e perseguia tentativas de implantar aqui equipamentos de impressão.
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo em setembro de 1999, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos discorre sobre as diferentes visões do processo colonizador – estávamos às vésperas das comemorações dos 500 anos do descobrimento. E ele se perguntava: teria sido o colonizador português, como queria Gilberto Freyre, menos truculento? – como se houvesse uma categoria ética do “menos mau”? E o próprio Sousa Santos conclui: “Todo o colonialismo foi mau e só uma ideologia histórica dominada pela idéia do progresso permite justificá-lo nos termos dúbios de que os fins justificam os meios” (SOUSA SANTOS, 1999). Nenhum colonizador foi bom, como no mundo globalizado em que vivemos nenhum país “faz o bem sem olhar a quem”. O que Sousa Santos não aprofunda é a insistência católico-romana de Portugal em manter suas colônias num obscurantismo quase total, sem cuidar da formação das elites locais – algo que, de resto, aconteceu também em suas antigas “províncias ultramarinas” de Angola ou Moçambique, para citar apenas as duas maiores. Hoje, um dos países-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)23, Moçambique, para ainda ficar no exemplo, talvez nem possa ser considerado país de fala portuguesa. Ali o idioma é desconhecido por mais de 90% da população, que, além de dialetos locais, usa cada vez mais, como língua comum, o inglês. Porque também naquelas paragens Portugal não se preocupou em criar escolas e formar um público leitor. O colonizador, como se sabe, não estava ali para isso, mas para explorar e tirar proveito24.
Convém lembrar: na América espanhola, universidades foram criadas nas décadas seguintes ao Descobrimento. E “talleres” de impressão funcionaram ainda nos primeiros séculos da colonização, tanto no México como na Argentina. Uma das primeiras gráficas do cone sul teria funcionado nas missões jesuíticas, a segunda no colégio da Companhia de Jesus na cidade de Córdoba, em 165825. Antes disso, no entanto, em 158326, a Real Audiência de Lima, em nome do rei da Espanha, autorizava o funcionamento da primeira casa impressora da América do Sul – e ali se iniciou a publicação dos primeiros livros, de doutrina da igreja católica, os catecismos e livros de devoção. Além das cartilhas, de considerável tiragem, e de papel selado para documentos oficiais e avisos soltos (MENDOZA, 1997: 58). Mais tarde surgiam as relações e os noticiários (espécie de clipping), e nos primeiros anos do século X IX os periódicos propriamente ditos.
Em contraponto, os trezentos anos do período colonial brasileiro foram anos de escuridão. Não apenas era proibida a impressão de textos, livros, publicações, como não houve uma política de formação e de ensino por parte dos governantes. As poucas escolas existentes em volta das igrejas e dos conventos levaram o rude golpe com a expulsão dos jesuítas, em 1759. Diferentemente da América inglesa, aonde os “peregrinos” chegavam com o objetivo de construir uma pátria futura, criando instituições sólidas, como foi o caso da própria imprensa (alguns dos pais fundadores da democracia americana, como
Benjamim Franklin, eram tipógrafos), à América ibérica se vinha para buscar a fortuna fácil e retornar, depois, aos povoados de origem27. Era o famoso desafio de “fazer a América”, que tanta fantasia criou entre os deserdados da Península Ibérica.28
A Metrópole portuguesa nunca vira com bons olhos a disseminação dos livros e jornais, considerados perigosos agentes de subversão. Desde o século XVI, a censura se abatera sobre Portugal e seus domínios, tendo como principal instrumento a Santa Inquisição, que começou a censurar livros em 1539, três anos depois de instalada. Obras
escritas sobre o Brasil enfrentavam severo controle, fosse como forma de impedir qualquer movimento autonomista que ameaçasse a próspera colônia, fosse para evitar a cobiça de outras nações. Por esse motivo, o livro de André João de Antonil, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas, e minas, com várias notícias curiosas do modo de fazer o açúcar; plantar e beneficiar tabaco; tirar o ouro das minas; e descobrir as de prata; e dos grandes emolumentos, que esta conquista da América Meridional dá ao Reino de Portugal com estes, e outros gêneros, e contratos reais, publicado em 1711, teve sua edição apreendida e destruída. A obra só seria reimpressa mais de um século depois.
Mesmo debaixo desse crivo rigoroso, sucediam-se as iniciativas para
implementação de tipografias no Brasil, algumas até sob a proteção dos governadores. A primeira de que se tem registro instalou-se em 1706 no Recife, para imprimir papéis comerciais e orações religiosas. Uma Carta Régia, porém, determinou o seu seqüestro, a 8 de junho do mesmo ano. Em 1747 uma nova Carta Régia poria fim a outra tentativa similar. No dia 6 de junho o governo português ordenou ao conde de Bobadela, governador da Capitania do Rio de Janeiro, que seqüestrasse e remetesse a Portugal a oficina tipográfica de Antonio Isidoro da Fonseca. Seguramente o tipógrafo não seria nenhum panfletário problemático, apenas um pacato cidadão empreendedor. A mais citada das obras que ele editou foi a Relação de Entrada, do bispo D. Antonio do Desterro, redigida por Luis Antonio Rosado da Cunha. Considerada a primeira obra impressa no Brasil, a “relação”29 descrevia as festas e cerimônias por ocasião da chegada do bispo à cidade e fora escrita sob licença do próprio bispo.
Historiadores como Carlos Rizzini e Antonio Costella mencionam uma outra tentativa de instalação da imprensa ocorrida ainda na primeira metade do século XVII, durante o período do domínio holandês no Nordeste. O príncipe Maurício de Nassau haveria tentado implantar uma tipografia no Recife, mas o projeto não foi adiante por falta de um tipógrafo para substituir o artesão holandês que morrera em viagem antes de chegar ao Brasil. Citam ainda uma outra ocorrência, nos lados das Minas Gerais
(RIZZINI, 1946).
Ali, em 1806, dois anos antes da criação da Impressão Régia, um padre mineiro, José Joaquim Viegas de Menezes, publicou na cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto) um folheto de 18 páginas, com um texto em louvor a Pedro Maria X avier de Ataíde e Melo, governador da Capitania de Minas Gerais. Mas sua impressão não foi realizada em uma tipografia nos moldes da invenção de Gutenberg e seus tipos móveis. O padre Viegas de Menezes utilizou a experiência adquirida no tempo em que trabalhara na Oficina Tipográfica, Calcográfica e Literária do Arco do Cego, em Lisboa, gravando em metal, letra por letra, a poesia – num processo semelhante ao da fabricação das cartas de
baralho. Supõe-se que, para esse fim, tenha utilizado os equipamentos da Casa da Moeda de Vila Rica (COSTELLA, 1978: 88-92).
Apenas com a transferência da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, esse panorama começaria a mudar. De fato, essa data é vista, por alguns historiadores, como a da verdadeira independência do país, muito mais do que o grito do Ipiranga, de 7 de setembro de 1822. Foi a partir da vinda da Corte que a Colônia passaria a Reino Unido sete anos depois, ingressando num outro período de sua história. Diz o cronista:
A agitação tomou conta da cidade que, transformada em sede da monarquia de um dia para o outro, viu-se na contingência de abrigar cerca de 15.000 fidalgos e funcionários vindos da Metrópole. Surpresas ainda maiores aguardavam a outrora pacata colônia. No dia 1° de abril, um alvará de D. João liberou a instalação de manufaturas, suspendendo proibição datada de 1785. Aos poucos, a vida da cidade começou a mudar. Foram criados o Horto Real, a Academia Militar e a Marinha, o Hospital e Arquivo Militar, e a Fábrica de Pólvora. Fundaram-se, ainda, a Junta do Comércio, o Banco do Brasil, a Escola Médi- co-Cirúrgica e a Biblioteca Real, a princípio aberta apenas a estudiosos e depois ao públi- co, com um rico acervo de preciosidades reunidas na Europa, constituindo, posterior- mente, o fundo da Biblioteca Nacional (EMPORIUM BRASILIS, 1999: 6-7).
O Brasil, desde a Restauração Portuguesa (com o fim da União Ibérica, em que Portugal fizera parte do reino espanhol, de 1580 a 1640), ganhara destaque nos interesses da metrópole, que fora perdendo suas possessões asiáticas e algumas da África para a Holanda, Inglaterra e outros países europeus30. Além disso, era mais fácil para Portugal contar com a proximidade do Brasil. O sucesso do cultivo da cana e da produção do açúcar, do tabaco e finalmente a descoberta das minas de ouro vieram reforçar esse interesse, ausente nos primeiros anos da colonização. Foi no período que vai de 1777 a 1808, chamado pelo historiador Ciro Flamarion Santana Cardoso de “a última fase verdadeiramente colonial”, que o Brasil passa por um processo real de ocupação e de povoamento. Escreve o historiador:
Em vinculação, primeiro, com a extração do ouro, mais tarde com uma economia agríco- la revitalizada e em função, também, do empobrecimento da metrópole, a maior colônia portuguesa recebeu, no final do século XVIII, uma verdadeira invasão de pessoas – homens, sobretudo – vindas de Entre Douro e Minho, Trás-os-Montes, Beira, Açores, Madeira. Paralelamente, intensificavam-se a imigração forçada de africanos e os proces- sos internos de crescimento, sendo impressionante o rápido aumento da população mes- tiça livre. A população passou de um milhão e meio em 1754 para dois milhões e meio em 1808 (CARDOSO, 2000: 120).
É nesse ano de 1808 que o país ganha de uma cartada os 15 mil novos habitantes, a Corte que se traslada para o Rio de Janeiro, em fuga da invasão das tropas napoleônicas. E nos porões de uma das naus da frota, a Medusa, veio de Lisboa um jogo de prelo com seus pertences. Era uma tipografia completa encomendada na Inglaterra por D. Rodrigo de Sousa Coutinho, futuro conde de Linhares, para servir a sua Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Não tendo sido usada, encontrava-se ainda encaixotada na ocasião do embarque para o Rio de Janeiro (MORAIS, 1993). Era o fim desse longo período de escuridão, como escreveu, laudatoriamente, o cronista Luiz Gonçalves dos Santos, conhecido como o Padre Perereca:
O Brasil, até ao feliz dia 13 de maio de 1808 não conhecia o que era tipografia: foi necessário que a brilhante face do Príncipe Regente Nosso Senhor, bem como o reful- gente sol, viesse vivificar esse país, não só quanto à sua agricultura, comércio e indústria, mas também quanto às artes, e ciências, dissipando as trevas da ignorância [...]. Sua Alteza Real foi servido mandar que se estabelecesse nesta Corte a Impressão Régia, para nela se imprimirem exclusivamente toda a legislação, e papéis diplomáticos, que emana- rem de qualquer repartição do real serviço, e também todas, e quaisquer obras. Conceden- do a faculdade a seus administradores para admitirem aprendizes de compositor, impressor, batedor, abridor e demais ofícios que lhe sejam pertencentes (SANTOS, L.G. Memórias para servir à história do Reino do Brasil, apud LAJOLO E ZILBERMAN, 1996: 124).
Ou seja, mesmo com todo o entusiasmo do cronista Luiz Gonçalves Santos, a imprensa chegava ao Rio de Janeiro exatamente 215 anos depois de haver sido instalada na capital peruana. Também o missionário americano Robert Walsh, de passagem pelo Brasil no final dos anos 1820, escreveu:
Naquele primeiro ano também foi introduzida essa poderosa máquina de conhecimento e poder, a impressora. Durante três séculos esse instrumento estivera proibido no Brasil por causa de seus efeitos supostamente perigosos, e só em 1808, segundo fui informado, é que esse grande país teve permissão de imprimir a página de um livro. Talvez nada possa ser mais indicativo do deplorável estado de ignorância em que esse lindo país se encontrava, ou do rápido progresso que o povo fez desde a difusão do conhecimento, que esse fato (WALSH, 1985: 81-82).
Esse medo dos possíveis danos provocados pela imprensa já havia estabelecido políticas rígidas de controle sobre importação de livros e papéis – o pouco que chegava vinha escondido em sacos de farinha e outras mercadorias, como já se referiu dos relatos deixados por Bento Teixeira em seu processo na inquisição.