Kapittel 1 Innledning
1.5 Rekruttering
A seca ou as secas se tornaram uma parte integrante da vida do nordestino, uma cultura, um modo de vida.66 O problema que se impõe é considerar isso como algo intransponível. É certo que não podemos observar e analisar isso sem desconsiderar os interesses de toda ordem numa sociedade que foi constituída socialmente por privilégios, latifúndios67 e a escravidão. As secas e os desdobramentos delas devem ser examinados nos jogos de interesses e poder, no contexto do Nordeste.
Considerando o contexto histórico da II Grande Guerra, a referência da seca de que nos ocuparemos é a ocorrida em 1941-1942.
63SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia (1800-1920), p. 260. 64SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia (1800-1920), p. 260.
65 Reconhecidamente a tese de Pedro Martinello elaborada no doutorado em História Econômica da USP
continua válida como uma obra de grande envergadura por adentrar os meandros das relações internacionais, o jogo de interesses entre seringalistas e casas aviadoras e os conflitos entre os dois governos, através de suas agências, na implantação dos Acordos de Washington.
66Cf. THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
67 Ver a obra A terra e a lei de Daisy Bizzocchi de Lacerda de 1983, que faz um estudo das formas de
Em abril de 1942 um articulista por nome Lira Pimenta publica um extenso artigo, que pode ser traduzido como um diagnóstico das condições materiais que vivia a população do sertão ante a seca que assolava a região, o que ele chamou de tristissimo o cenário atual do sertão.68 As condições materiais e as esperanças com o inverno deixaram os sertanejos desiludidos e, já sem comida, esfarrapados, tomam o rumo das sedes dos municípios à procura de socorro. Deixam de ir aos lugares onde poderia existir água nos açudes, mas não o fazem porque a irrigação não fora feita, tendo em vista que, comparando com outros países onde há terras áridas, primeiro faz-se a desapropriação para depois realizar a obra de irrigação; aqui é o inverso: “Entre nós, são as barragens as obras iniciais. Nada percebermos de engenharia, apenas argumentamos com a penúria do povo, formando um trágico cortejo de necessidades e aflição para os governantes e governados.”69
Nesse sentido, as reservas d’águas, leiam-se açudes, ficavam em propriedades privadas. Na seca de 1930, vários destes foram criados em terras de particulares, as quais deveriam ter sido imediatamente desapropriadas, mas, vinte anos depois, o responsável por essas obras – o ministro da Aviação José Américo de Almeida, quando do retorno ao poder, reclamava que elas ainda não haviam sido desapropriadas.70
Voltando ao artigo de Pimenta Lira, destacamos a resistência de grupos que se colocavam contrários a programas de irrigação nessas regiões:
Contestam quase sempre: Os governos não podem e nem devem imobilizar capitais de vulto, em obras de irrigação, mais caras do que as da açudagem. Há porem quem replique que o emprego de dinheiro, por parte dos poderes publicos não dará lucros imediatos, mas oferecerá, em escala progressiva, consequentemente, uma compensação cento por cento vantajosa.71
Pimenta convoca, exorta as autoridades e até os grupos contrários a projetos de açudagem, numa visão de conjunto, para um exame desapaixonado: “[...] sem espírito de critica sistemática, a estatística da açudagem pública e particular em nossa terra. Some-se a quantidade dagua represada. Calcule-se a quilometragem de canais de irrigação. Qual a conclusão, tomando-se também em conta, as datas da conclusão das obras?”72
68LIRA, Pimenta. Lagrimas de fome. Correio do Ceará, Fortaleza, ano 28, nº 8.256, 10 abr. 1942. 69LIRA, Pimenta. Lagrimas de fome.
70ARAÚJO, Maria Neyára de Oliveira. A miséria e os dias: história social da mendicância no Ceará. São Paulo:
Hucitec, 2000, p. 70.
71LIRA, Pimenta. Lagrimas de fome. 72LIRA, Pimenta. Lagrimas de fome.
O autor defende claramente que a açudagem e a irrigação são a solução para o problema da seca. Mas conclui dizendo que de nada valem tais comentários e sugestões numa situação de amargura, tendo em vista que:
Os nossos irmãos famintos sucumbem, naufragam em ‘mar de areia’ e estendem as mãos, não consultando as nuvens, mas pedindo uma esmola, pelo amor de Deus. E nas faces dos que morrem, vislumbramos, não as lagrimas dos sentimentos do amor ou de odio mas... lagrimas de fome.73
Por isso, com justa razão, migram, devido à inércia dos governos, que não fizeram a irrigação das terras nem as distribuíam a preços módicos e a juros baixos às famílias ruralistas, fixando-as ao solo. Assim, o deslocamento para outras cidades resulta do instinto da sobrevivência e: “Não se trata de aventura. É o nomadismo da miséria.”74
Figura 07: Matéria publicada no Jornal Correio do Ceará, Fortaleza-CE, em maio de 1942. Acervo Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel em Fortaleza-CE.
Esse articulista, no fundo, critica a falta de vontade política para solucionar os problemas que aparecem com as consequências das secas. Nesse sentido, as promessas e empenho do governo federal para construir as soluções caem no vazio ou encontram essas barreiras seculares diante dos interesses escusos dos latifundiários e políticos nordestinos mancomunados com uma oligarquia conservadora e atrasada. Com o agravamento da fome e da miséria, aparecem diversas formas de resistência de grupos descontentes, dentre elas, o cangaço e a formação de seitas de místicos – fanáticos.75
73LIRA, Pimenta. Lagrimas de fome 74LIRA, Pimenta. Lagrimas de fome.
Num outro artigo que trata também da seca, outro articulista, Mauro Dutra Ladeira, tece fortes críticas ao problema da seca e às modalidades de ajuda, através do pagamento de salários por serviços prestados nas frentes de trabalho. Segundo ele:
Esse problema de efeitos tão catastróficos, ao qual estamos sujeitos periodicamente, não parece ser resolvido apenas com os trabalhos de emergencia que se arranjam aos flagelados. Com tal sistema de socôrro, exatamente na hora mais critica, que atravessam as populações das zonas atingidas pela falta de chuvas, tão somente conseguimos fazer com que esses milhares de sofredores, continuem desconhecendo o meio de lutar e sobreviver ao impiedoso flagelo da natureza.76
Propõe que esses ciclos climáticos de estiagem e as práticas governamentais em torno deles deveriam ser enfrentados dentro deles mesmos, pois o pagamento de salários, por si só, não resolveria o problema, porquanto, não teriam o que comprar dada a dificuldade de abastecimento de alimentos no interior destas regiões, porque:
Para combater a Sêca é necessário que se trabalhe dentro da propria Sêca, produzindo aquilo que ela nos tira. O salário por si só não resolve tudo, apenas atenua os sofrimentos e isso mesmo em determinadas circunstancias. Necessidade mais imperiosa é da produção de generos para que o operario possa adquiri-los com o seu ganho, do contrario será morrer de fome com o dinheiro no bolso.77
Mas, na concepção de José de Souza Martins, adotada por Neyara, essa política para as secas era um instrumento, um meio de acumulação primitiva de capital dos latifundiários, que se dava em parte com o investimento de recursos públicos nas propriedades privadas com a construção de açudes, ficando seu resultado, a água acumulada, uma propriedade privada, portanto, um meio de extração da renda num Nordeste castigado pela seca e miséria.78
Ladeira, ao mesmo tempo em que defende a ideia da produção e abastecimento de gêneros nas regiões castigadas pelas secas, entende que a logística para suprir a região com mantimentos e alimentos importados não seria tarefa fácil, pois, além do que, se daria de maneira irregular, tardiamente chegaria, e a preços inalcançáveis ao bolso dos sertanejos. Para se sobrepor a essa dificuldade, propõe que:
[...] interessante, seria a criação de grandes depositos de cereais, no interior onde os açudes permitissem o cultivo das terras sob irrigação. Esses armazéns teriam assim, anualmente, os seus stocks reformados depois da
76LADEIRA, Mauro Dutra. A seca. Gazeta de Notícias, Fortaleza, ano 15, nº 4606, 10 abr. 1942, p. 3 77LADEIRA, Mauro Dutra. A seca, p. 3.
78ARAÚJO, Maria Neyára de Oliveira. A miséria e os dias: história social da mendicância no Ceará. São Paulo:
certeza do inverno e caso esse falhasse, haveria alimento bastante para atender em escala bem maior e com mais eficiência ás necessidades da ocasião.79(sem grifo no original)
Na proposta de Ladeira, além de ser um reservatório com estoques de alimentos para as situações das estiagens, também serviria para regularizar a política de preços no mercado: “Durante os periodos normais, ao se aproximarem as nóvas safras, seriam as que estivessem guardadas vendidas ao comercio, fazendo assim baixar o preço de gêneros de primeira necessidade em favor da população”.80
A política do governo para controle de preços dos alimentos, de certo modo, para os latifundiários agricultores, soaria como uma disputa ou uma concorrência com os produtores locais, o que ensejaria por parte deles um boicote à política de regulação de preços, mas segundo Ladeira:
[...] veremos lógo que tal não se daria, uma vez que, a nóssa produção não é suficiente ás necessidades do consumo. O comercio importa dos estados do Sul, a maioria dos generos que consumimos, o que indica de modo claro existir em nosso meio deficiência de produção. E como, efetivamente, o particular ainda não se encontra, por vários motivos capaz de preencher essa lacuna, compéte então aos serviços oficiais tomarem a iniciativa á guiza de estimulo ao fazendeiro.81
Essas ideias parecem merecedoras de aplausos, todavia, se o processo de deslocamentos dos sertanejos para os municípios próximos, para as cidades e capitais do Nordeste, ocorria em todas as estiagens, constituindo práticas sociais viciadas, isso mostra que as estratégias de combate à seca eram esporádicas, inadequadas e insuficientes para solucionar o problema a longo prazo.
Explicações para a perpetuação dessa realidade são diversas, encontrando motivações tanto no campo dos interesses políticos quanto econômicos. De certa forma as razões disso aparecem em discurso proferido por Getúlio Vargas, em Fortaleza, em setembro de 1933, quando realça a bravura do nordestino, primeiro nas rebeliões que preservaram o território nacional, depois sua audácia em manter-se nas regiões que pelas circunstâncias esporádicas
79LADEIRA, Mauro Dutra. A seca, p. 3; Cf. YRIGOYEN-GARCIA, Franklin Pease. Los Incas. 4ª edición.
Lima: Fondo Editorial de la Pontificia Universidad Católica del Perú, 2009, pp. 90-92. A defesa da criação de depósito de alimentos no Nordeste brasileiro, nos remete as práticas incaicas, que faziam isso com técnica e muita eficiência em todo Império incaico, tendo os invasores espanhóis encontrado os celeiros abarrotados de alimentos e, outros com roupas, supostamente para os exércitos incas.
80LADEIRA, Mauro Dutra. A seca, p. 3. 81LADEIRA, Mauro Dutra. A seca, p. 3.
que o afligiam, já as teriam se tornado deserto, se não fosse: “[...] à resistência física, à coragem, à atividade e ao espírito de resignação do nordestino”.82
Dizia isso para em seguida tecer uma crítica aos interesses políticos de grupos pouco interessados em resolver os problemas da seca, pois, mesmo no período do Império e da Primeira República, os governos: “[...] agiram, sôbre esta questão vital para o Nordeste, com imprevidência dolorosa”.83 E toca na ferida interna das elites locais, que também se guiavam por esse mesmo espírito - um certo descaso com a situação:
Para debelar o mal, as obras, executadas morosamente, atendendo mais às
injunções partidárias e sem obedecer a um plano de conjunto, com a prévia
segurança de chegar ao fim colimado, eram sempre intervaladas e desconexas. [...] No entanto, o problema da sêca, se, racionalmente tivesse sido atacado com programa de solução técnica, prática e inteligente, já estaria resolvido ou, pelo menos, atenuados os seus dolorosos efeitos.84
Vargas se colocava para o país e o Nordeste brasileiro criticamente ante um processo histórico avesso aos propósitos que assumira para o comando do país e, mais do que isso, se propõe fazer de forma inovadora, com técnica e planejamento, pois nos seus discursos parece que isso não era um protocolo dos governos anteriores, assim, se propõe romper com o improviso, com a falta de profissionalismo das gestões anteriores.
O novo momento histórico ao qual Vargas coloca a técnica e a ciência como únicas capazes de alavancar o desenvolvimento do país, em oposição ao bacharelismo na administração pública, encontra respaldo no sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Num artigo publicado sobre a colonização na Amazônia, este sociólogo aproveita para referenciar o talento de Paulo Assis Ribeiro, que esteve em sua casa em Apipucos, encarregado, pelo Governo, da migração para a Amazônia, ao constatar o desatino que o mesmo carrega para soluções burocráticas. Mas lamenta que isso não é a regra no país, e se vale de uma suposta frase que teria dito Hitler, que: “para fazer alguma coisa no país, não é tanto o capital como o espírito de iniciativa e [é] o talento de organização”.85 Freyre considera uma atribuição injusta de Hitler, embora destaque que:
[...] a verdade, entretanto, é que nos falta sobretudo seleção e aproveitamento dos organizadores de talentos, dos grandes administradores, dos grandes
82VARGAS, Getúlio. A nova política do Brasil. Vol. II. Rio de Janeiro: José Olympio, [1933?]. 83VARGAS, Getúlio. A nova política do Brasil, p. 164.
84VARGAS, Getúlio. A nova política do Brasil, p. 164.
85FREYRE, Gilberto. Em torno da colonização da Amazônia. Correio do Ceará, Fortaleza, ano 29, nº 8.621, 30
jun. 1943. É possível perceber que a frase nos parece que contem um erro, pois ela se refere que o que falta ao Brasil não é capital nem talentos, mas a falta de organização. No caso o “e” depois da palavra iniciativa deveria está com o acento agudo [é].
técnicos, de grandes especialistas que já possuímos, mas que nem sempre procuramos para as funções, para os postos de comando, para as responsabilidades de direção, infelizmente entregues, algumas vezes, áqueles ‘mestiços corrutos’ da generalização afoita e injusta de Hitler sobre os governantes do Brasil.86
Em todos os discursos Vargas se remete à supressão destas falhas científicas e técnicas nos projetos e nas formas de condução das políticas públicas para combater todos os problemas do país, o que exigia doravante uma política de planejamento.
Nesse sentido, segundo Motoyama, o governo voltava-se para uma política de modernização do país, a partir de grandes projetos de infraestrutura, por essa razão:
[...] não se podia fiar apenas na experiência e no empirismo. A postura não poderia ser outra a não ser aquela adotada pelo CFCE, de efetuar estudos, análises e planos para enfrentar questões de envergadura relacionadas com carvão, siderurgia, petróleo e eletrificação, pelo menos nos momentos iniciais.87
Diz, ainda, Motoyama, a partir da leitura de Otávio Ianni, que: “Durante a Segunda Guerra, a técnica de planejamento tornar-se-ia de uso corrente, centralizada na Coordenação de Mobilização Econômica (CME), estatuída em 1942 e funcionando como um verdadeiro superministério”.88
Mas, no período de 1933 a 1942, portanto um percurso de nove anos, o Presidente não obtivera o êxito desejado, sua administração planificada não surtiu os efeitos esperados, é o que aparece na crítica de Lira Pimenta, já referenciado.
Certamente, o fiasco da política getulista de combate à seca estava no que ele mesmo criticava e, sobretudo, consequência das alianças com o coronelismo do Nordeste que se mantinha mutuamente no poder, numa relação de trocas e favores.89 Mesmo porque os primeiros anos da ditadura varguista em que houve uma tentativa de ruptura com o coronelismo no Nordeste: “[...] a Revolução de 30, nos seus primeiros meses, apenas iniciou uma guerra contra os potentados locais, especialmente no Nordeste, abandonando-a em seguida”.90
86FREYRE, Gilberto. Em torno da colonização da Amazônia.
87MOTOYAMA, Shozo. 1930-1964: período desenvolvimentista. In: MOTOYAMA, Shozo (Org.). Prelúdio
para uma História. Ciência e Tecnologia no Brasil. São Paulo: Edusp, 2004, pp. 273-274
88MOTOYAMA, Shozo. 1930-1964: período desenvolvimentista, p. 274.
89Cf. LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. 6ª ed, São Paulo: Alfa Omega, 1993.
90MARTINS, José de Souza. O poder do atraso: ensaios de sociologia da historia lenta. São Paulo: Cortez, 1999,
E, em especial, a correlação de forças internas, as disputas e governos déspotas impediam a implantação dos programas e projetos de combate a seca, pois os adversários e as formas de administração pública apareciam, segundo Zaidan, nas práticas de Agamenon Magalhães no período em que foi interventor de Pernambuco:
A obra administrativa de Magalhães pode ser dividida, primeiro, pela busca desenfreada do "consenso máximo" na sociedade pernambucana, a partir de uma falsa imagem de paz e harmonia social no Estado. Objetivo perseguido através de uma feroz repressão aos adversários, críticos, comunistas, prostitutas, afro-brasileiros, vadios e homossexuais.91
Essa tese de Zaidan se confirma quando analisamos um artigo publicado no jornal Correio do Ceará, em março de 1944, em que o autor não poupa crítica a este interventor déspota, além de compará-lo a Lampião, considera seus dias contados quando ele não terá mais as alianças e o apoio da ditadura Vargas.
Agamenon havia publicado um artigo num jornal de Fortaleza que dizia, segundo o Editorial do Correio do Ceará: “Os que tripudiam sobre os valores morais de um povo ou de uma nacionalidade sentirão, cedo ou tarde, o fogo das reações coletivas”.92 Percebe-se que Agamenon ameaçava aqueles que discordavam dos métodos e das formas de governo que ele entendia corretos e praticava. Todavia, uma crítica dura e implacável, esboçada no mesmo Editorial, desnudou a faceta tirana de Agamenon:
Foi assim que começou sua arenga, tipo ‘sujeira de mosca’, inserta, como matéria paga, num vespertino desta capital, que se dispõe ao sacrifício de divulgar a defesa de uma causa ruim, por isso que adversa aos brios de um povo altivo, que há seis anos, vive nas trevas de uma abjeta tirania. Bonita sentença e bem verdadeira, tomada, decerto, por empréstimo, mas, no caso, aplicada com endereço errado. Sim, porque ela é bem uma advertência ao proprio fascista Agamenon Magalhães e á sua grei inconsequente e ignorante das leis que regem, inapelavelmente, os destinos dos povos. Verão eles, chefe e quadrilha, a justeza do conceito quando, em breve, o ‘clima do poder’ não mais os favorecer. Parece até que a inconsciencia com que os tiranos encaram as coisas é um imperativo mesmo daquelas leis, ao traçarem a rota dos acontecimentos. E, depois, toca o homenzinho a falar em coisas superiores como: consciência, cultura, ordem, leis do coração, etc., etc. O’ profanação! É bem ver-se Satanaz vestido de Ermitão!93
91ZAIDAN, Michel. Tradição oligárquica e mudança. Revista Eletrônica Tempo Histórico, ano 1, nº 1, Recife,
jun-dez/2005, p. 4 Disponível em:
http://www.revista.ufpe.br/revistatempohistorico/index.php/revista/article/viewFile/8/4 Acesso em: 06.08.2013
92Numa singular coincidência Lampeão e Agamenon nasceram na mesma cidade. O fascismo de Pernambuco
encontra nos métodos do famoso bandoleiro os meios para chegar aos seus fins sinistros. Correio do Ceará, Fortaleza, [s.a], nº 8.839, 20 mar.1944.
93 Numa singular coincidência Lampeão e Agamenon nasceram na mesma cidade [...]. Correio do Ceará,
Novamente o autor retoma trechos da fala de Agamenon, como este: “O que eles visam de preferência é anular os valores morais, é oprimir as forças sadias da sociedade, porque o seu clima é a corrução”.94
E, continua, o Editorial com a crítica ferrenha contra Agamenon:
Isto dito pelo sr. Agamenon até parece trecho de uma autobiografia: que o é, bem o comprovará ligeira observação á luz dos estudos psicanalíticos. Então, teremos, patente, e bem claro, um fenomeno de ‘ato falhado’, pois quem foi que, em Pernambuco, impondo o dilema do ‘crê ou morre’, se lançou contra valores morais, contra homens de carater ilibado, que foram metidos nas enxovias uns, e deportados outros! Quem foi que instituiu um regime de opressão, corrompendo, assaltando e privando a sociedade pernambucana de valores incontestaveis?! Quem adotou a norma de ausência absoluta de garantias de vida e de propriedade, em consequencia da qual se vem processando consideravel evasão de capitais, em detrimento da economia pernambucana?!95
Mais adiante o crítico de Agamenon depois de dizer que seu sistema de governo não teria êxito, se tentasse disseminá-lo pelo país, diante de forte resistência que encontraria,