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São muitos os fatores que levam as pessoas a se organizarem na economia solidária. No primeiro encontro do grupo comunicativo cada participante falou um pouco da formação do seu grupo, e observou-se que os relatos pessoais misturavam-se com a história da existência do empreendimento econômico solidário.
Esta observação levou a pesquisadora a consultar os/as participantes sobre a divulgação, no trabalho acadêmico, de seus nomes. A decisão de cada participante foi individual em autorizar a divulgação de seus nomes e a identificação de cada um/a, tendo a
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anuência de todos/as. Foi também consensual a posição de que a identificação não teria consequências nos empreendimentos e nem a vida privada dos/as participantes.
A caracterização das pessoas participantes ajuda a compreender melhor as análises propostas pela MCC já que em seus pressupostos estão a intersubjetividade e a reflexão, que só serão possíveis com a disposição das pessoas envolvidas em participarem ativamente do diálogo. Considera-se assim que as suas histórias de vida e sua relação com a economia solidária fazem parte deste processo.
Cândida Maria dos Santos e Elaine Cristina Salomão Martins são participantes fundadoras da TASCA. Elaine faz parte também da AARTESCar. Cândida fez parte da UNIARTE, que foi seu primeiro contato com a economia solidária. Saiu do grupo e ajudou a fundar a TASCA. A TASCA surgiu dentro do programa de economia solidária, formada inicialmente por um pequeno número de empreendedores/as dentre os quais alguns já tinham participado de outros grupos, mas queriam viver uma organização diferente de suas experiências anteriores. O grupo considera importante a participação no movimento de economia solidária e a construção de uma política pública que atenda as necessidades de todos os grupos.
A gente trabalha junto com o poder público, com a política pública, mas uma política pública não voltada só pro nosso grupo. O nosso pensamento é desenvolver uma política pública de economia solidária pra todos os empreendimentos da cidade. Então o nosso foco é uma lupa pra que todo mundo tenha espaço. [...] Então nesse ponto eu acho assim, a política ajuda quando ela é ferramenta, não quando ela é necessidade. Então o nosso pensamento é usar da política pública como uma ferramenta pra alcançar alguma coisa, não dependência. [...] a TASCA é mais ou menos isso daí. É um grupo que já tá trabalhando bem politizado mesmo, e todo mundo que tá entrando a gente tá conversando, explicando, e as pessoas tem opções de seguir essa linha, ou não, eu vim aqui só porque eu quero trabalhar, eu preciso ter uma renda, ela também vai gerar isso, mas ela precisa de um envolvimento. (§72 – CÂNDIDA).
Dario Aparecido Souza Branco e Marta Fernandes Marinho são casados e atuam na ACASC. Marta faz parte também da AARTESCar. A ACASC foi criada por fomento do DAES, já no Programa de Fomento à Economia Solidária. Não existia um grupo, mas vários empreendedores individuais, que tinham muitos conflitos com a prefeitura quando da realização de eventos públicos na cidade. Foi uma solicitação da própria prefeitura que os ambulantes da alimentação se organizassem para poder ter uma representação nas negociações dos eventos. Foi em 2005 que entrou a economia solidária nesta história e fomentou a criação da associação dos ambulantes de alimentação.
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[...] A gente não tinha noção do que era uma associação, não tinha noção do que era uma cooperativa. [...] A intenção da ACASC desde o início era exatamente essa, era o grupo se organizar pra poder tá ir buscando aumentar o campo de trabalho não só do poder público, mas sim particular também. (§57 – MARTA).
A UNIARTE foi fundada de uma forma semelhante. Já existiam vários/as pequenos grupos de artesãos/ãs na cidade, mas não eram formalizados em uma associação. Digenir Chaves Fugazza, uma das fundadoras da associação, já tinha uma relação com a economia solidária, pois prestava assessoria contábil para o DAES na criação dos grupos e fazia parte de um dos grupos que se unificou na UNIARTE.
[...] A UNIARTE, ela foi formalizada em 2009. Só que o início não é esse. Existiam vários grupos pequenos, de três, quatro pessoas, que quando tinha um evento na cidade era aquela disputa, iam pra jornal, se brigava, quase se matavam por causa de espaço. Quando foi em 2009, na gestão do Barba [prefeito do município de 2009 a 2012] ele nos convidou pra um café da manhã e disse claramente: vocês querem a prefeitura do lado de vocês? Se formalizem. Então a formalização da UNIARTE se deu a partir do trabalho, da provocação, mas nós já estávamos trabalhando desde 2003. O que que a gente fez? Imediatamente nós saímos do café e viemos pra cá [Centro Público], e já marcamos a primeira reunião. (§74 – DIGENIR).
Fernanda de Oliveira Martucci representou o Festival Contato nessa pesquisa. O Festival Contato é um empreendimento do segmento da cultura. Surgiu em 2007 na UFSCar, com a união de três setores, a Rádio UFSCar, o Laboratório de Interatividade e o Cine UFSCar, e na sua fundação não teve nenhuma influência do Programa de Fomento à Economia Solidária. O empreendimento realiza um grande evento por ano, o Festival Contato, mas tem atuação perene, com atividades de formação de público nas diversas linguagens culturais, além de atividades de extensão universitária. A relação com a economia solidária aconteceu a partir do ano de 2009, com a reflexão de que as relações do grupo eram autogestionárias. No ano de 2009, com a realização da terceira edição do festival aconteceu a I Feira de Economia Solidária, com caráter microrregional, e fomento com recursos de um edital da SENAES para comercialização, referente a um projeto escrito pelos empreendimentos de São Carlos, como relata brevemente Fernanda:
então passou a ser um conceito muito importante ser um trabalho colaborativo só a partir desta terceira edição que teve a feira de economia solidária durante o festival. [...] A relação, com a economia solidária se estreitou a partir dai, né? Do grupo se entendendo como autogestionário, no trabalho colaborativo, com reuniões abertas com processo aberto todo de produção, né? De colocar no site como é que é produzido as planilhas todas, a prestação de contas e nessa relação de fomentar uma feira, um espaço de comercialização dos empreendimentos de economia solidária que também estavam começando a se relacionar com as pessoas e o próprio projeto do Contato. (§67 – FERNANDA).
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A cooperada Liliane de Jesus Franco Lima faz parte da Coopervida, mas seu contato inicial com a economia solidária foi na Cooletiva. Em São Carlos foram formadas no início dos anos 2000 três cooperativas de catadores de resíduos recicláveis, as duas já citadas e a Ecoativa. A formação das cooperativas teve relação com a política pública de economia solidária desde o início. Em 2010 houve uma unificação das três cooperativas em função da assinatura de um contrato de prestação de serviços de catadores para a prefeitura municipal. Liliane assim relata este processo:
a Coopervida ela surgiu com as pessoas que viviam no lixão, né. Elas viviam no lixão aí teve muita conversa com eles pra ver se iam fazer uma cooperativa, né? Aí em 2003, aí que se juntaram e fizeram a Coopervida .(§40 – LILIANE).
[...] A Coletiva ela surgiu através de muitas reuniões, que eu sei. né? Aí no começo era a Isabel, o pai da Priscila que é o Donizete, aí eles começaram a dar andamento na Cooletiva, né? Aí quando começaram não tinha caminhão. Eles falaram que coletavam numa perua e na carrocinha de um menino que hoje ele não está mais com a gente, né? E assim foi indo. Aí depois teve a parte da unificação, que a gente unificou. A Coopervida, Cooletiva e Ecoativa se juntaram, aí a gente ficou uma só e se tornou a Coopervida. (§42 – LILIANE).
Por sua vez, os moradores do assentamento Santa Helena começaram a se relacionar com a economia solidária em 2009. O assentamento já existia, mas não tinha uma associação constituída e enfrentavam muitas barreiras em conseguir benfeitorias e financiamento por falta da formalização. Na ocasião era também uma diretriz do INCRA indicar a formalização nos assentamentos rurais. Foi feito um processo de formação com os moradores assentados e, em 2011, eles decidiram por montar uma associação. No processo de formalização aconteceram muitos problemas burocráticos, em especial com o CNPJ, pois, por ser área rural foram necessárias várias comprovações que os assentados não tinham. Lindamira Aparecida Teodoro Ribeiro, participante da investigação, relata o apoio dado na formalização:
teve bastante ajuda. Ajudou. Porque deu muito problema pra formar, pra fazer, e através daqui do pessoal da economia solidária é que nós conseguimos porque ia, voltava, ia, voltava, e fez um monte de coisa, [...] Olha deu trabalho, mas conseguiu. Foi através daqui [DAES] que conseguimos. Se fosse por nós mesmos a gente tinha desistido no primeiro, segundo tempo, porque nós não conseguiríamos fazer isso aí sem ter ajuda do pessoal. (§36 – LINDAMIRA).
São vários caminhos que levam os empreendimentos a se organizarem. Em comum nos relatos durante os encontros do grupo comunicativo estão a necessidade de geração de renda e a importância da organização do movimento de economia solidária.
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