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Após a rápida derrubada do regime do Talebã no Afeganistão, e com o advento da “guerra ao terror”, as Forças de Operações Especiais dos Estados Unidos começaram a se destacar de uma maneira ímpar e nunca antes vista na história militar dos EUA. Diversos eventos dão base a tal constatação, sendo que alguns deles serão elencados nos parágrafos a seguir, por ordem cronológica crescente:

(1) Logo depois do onze de setembro, o governo George W. Bush lançou a Operação Liberdade Duradoura, a qual, entre seus objetivos, visava a retirar o regime Talebã do poder no Afeganistão, bem como instalar bases avançadas que serviriam de ponta de lança para a caçada a membros da al-Qaeda. A ação militar no Afeganistão tinha por base o poder aéreo e as Forças de Operações Especiais. Estas, além de localizarem alvos para os bombardeiros, também se juntaram à Aliança do Norte para, juntas, derrubarem o Talebã. Tal operação foi aprentemente um sucesso e logo já se falava em uma mudança do modo de guerra americano (KOZARYN, 2001), o qual, a partir de então, teria as Forças de Operações Especiais como seu elemento central.

(2) Baseando-se nos argumentos de que Saddam Hussein desenvolvia armas de destruição em massa e também da ligação direta do presidente iraquiano com a rede al-Qaeda, em 19 de março de 2003 os Estados Unidos iniciaram as ofensivas militares da Operação Liberdade Iraquiana, e assim começava a Guerra no Iraque. Às Forças de Operações Especiais se designou a responsabilidade primária por uma ampla área na porção ocidental do deserto iraquiano, onde as mesmas negaram acesso à áreas que seriam utilizadas para o lançamento de mísseis, conduziram as buscas pelas armas de destruição em massa e se tornaram o comando “apoiado”, em vez de “apoiador”, na ação conjunta com as forças convencionais de solo. As Forças de Operações Especiais igualmente se destacaram na linha verde ao norte do Iraque, assim como nas cidades de Kirkuk e Mossul e também na frente sul iraquiana (BIDDLE, 2004: 4).

(3) Em primeiro de agosto de 2003, o já aposentado general Peter J. Schoomaker, veterano das Forças Especiais, foi nomeado por Donald Rumsfeld o chefe do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos. De julho de 1994 a agosto de 1996, Schoomaker comandou o Comando Conjunto de Operações Especiais dos EUA e, de novembro de 1997 a novembro de 2000, foi o chefe do Comando de Operações Especiais. Este episódio foi avaliado por analistas como mais uma demonstração da determinação de Rumsfeld para reformar as Forças

Armadas dos Estados Unidos, de modo que ficassem menores, mais leves e mais ágeis (KAPLAN, 2003).

(4) A edição de 2004 do Plano de Comando Unificado, arranjo americano que divide o mundo em comandos militares combatentes, implementou o que pode ser interpretado como uma ampla mudança no “centro de gravidade militar”: definiu o Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos da América como o responsável pela condução, planejamento, sincronização e execução das operações globais contra as redes “terroristas”. Se antes estava na condição de “apoiador” dos demais comandos combatentes regionais dos EUA, a partir de então o Comando de Operações Especiais passou a ser “apoiado” pelos demais (SHANKER; SHANE, 2006). O plano em questão é classificado, de forma que a informação aqui elencada foi coletada a partir de relato publicado na imprensa.

(5) Em novembro de 2005 o secretário Rumsfeld anunciou a criação de um Comando de Operações Especiais dos Fuzileiros Navais dos EUA. Intitulado MARSOC na sigla em inglês, foi oficialmente ativado em 24 de fevereiro de 2006, tendo cerca de 2.500 Marines, os quais teriam como missão a execução de ações diretas, reconhecimento especial, contra- terrorismo, operações de informação, condução de guerra irregular, entre outros. A título de ilustração é curioso lembrar que cada braço das Forças Armadas americanas tem o seu próprio comando do tipo, sendo que todos eles são subordinados ao Comando de Operações Especiais dos EUA, o órgão principal. Os Fuzileiros Navais tinham uma histórica resistência para se juntarem à comunidade de Operações Especiais nos EUA. Todavia, isto mudou no contexto da “guerra ao terror” (GRAHAM, 2005: A14).

(6) A versão de 2006 da Revisão Quadrienal de Defesa, principal documento público que descreve a doutrina militar dos Estados Unidos, apontou para uma mudança na concepção estratégica dos EUA: se antes eram enfatizadas guerras convencionais contra Estados-nação, agora dois dos novos objetivos são derrotar redes “terroristas” e conter armas de destruição em massa. Como as Forças de Operações Especiais, entre as Forças Armadas em geral, são as mais habilmente treinadas para operações de contra-terrorismo, assim como localização, resgate e proteção de armas de destruição em massa, serão fundamentais na consecução dos objetivos mencionados acima (TYSON, 2006a).

(7) Em abril de 2006, o governo dos Estados Unidos lançou o que se pode chamar de “planos operacionais” para colocar em prática algo mais amplo, o Plano Estratégico Militar para a Guerra ao Terror. Tais planos operacionais são documentos classificados, mas as

informações disponíveis na imprensa revelaram um papel expandido para os serviços armados, particularmente para as Forças de Operações Especiais. Estas poderão combater o “terrorismo” além de zonas de guerra declarada – como o Afeganistão e o Iraque. O Plano Estratégico Militar começou a ser desenvolvido em 2003 pelo Comando de Operações Especiais (SOCOM) e demonstra um envolvimento maior do Pentágono em áreas tradicionalmente ocupadas pela CIA e pelo Departamento de Estado. A partir de tais planos operacionais, o SOCOM poderia enviar equipes de Forças Especiais para embaixadas dos EUA no Oriente Médio, Ásia, África e América Latina, lugares nos quais as Forças Especiais trabalhariam com planejamento operacional e coleta de informações, ampliando as capacidades dos Estados Unidos de combater o “terror” em países nos quais Washington não está em guerra (TYSON, 2006b).

(8) Já sob a administração do sucessor de Donald Rumsfeld, Robert Gates (que tomou posse no Pentágono no final de 2006), o general David Petraeus, especialista em contra- insurgência e comandante da 101a. Divisão Aerotransportada na invasão americana do Iraque, assumiu, em fevereiro de 2007, o comando da Força Multi-Nacional no Iraque e, depois, a chefia do Comando Central (que comanda tanto a guerra no Afeganistão quanto a no Iraque). Alguns analistas (TYSON, 2008) entenderam a promoção como indicação do modo como viriam a ser conduzidas as batalhas dos EUA, isto é, a partir de uma percepção pouco comum no Departamento de Defesa: a da contra-insurgência.

(9) Um conselho liderado por Petraeus selecionou coronéis para indicá-los à promoção ao posto de general-de-brigada. Entre os selecionados, está o coronel Ken Tovo, membro das Forças Especiais e veterano da Guerra no Iraque. Já entre os membros do conselho, estava o tenente-general Stanley A. McChrystal, que chefiou o Comando Conjunto de Operações Especiais. É possível que esta mudança institucional revele algum tipo de percepção sobre os conflitos que os Estados Unidos lutam ou terão de lutar (TYSON, 2008).

(10) De acordo com Max Boot, a indicação do general Norton A. Schwartz para a chefia do Estado-Maior da Força Aérea dos Estados Unidos em junho de 2008 foi uma mudança histórica. O posto geralmente foi ocupado por pilotos de bombardeiros e, depois, por pilotos de caça. Schwartz é um piloto de aviões cargueiros. Além de comandante do Comando de Transportes do Pentágono, Schwartz foi sub-comandante do Comando de Operações Especiais. Com esta experiência, uma mudança cultural poderia estar a caminho na Força Aérea dos EUA (BOOT, 2008).

(11) O secretário de Defesa Robert Gates afirmou que “o envolvimento das forças convencionais dos Estados Unidos em conflitos será em menor escala, já que as Forças de Operações Especiais serão o componente principal” (BARNES, 2008). Sob Robert Gates, o Pentágono lançou, em meados de 2008, a nova Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos, cujo enfoque é mais em guerra irregular contra grupos como a al-Qaeda do que em guerra convencional contra Estados-nação (WHITE, 2008: A01). Como as Forças de Operações Especiais são consideradas os “irregulares dentro dos regulares” (ver apêndice desta dissertação) é possível que venham a se destacar ainda mais a partir da estratégia em questão. Gates defendeu a sua visão de conflitos não-convencionais da atualidade e do futuro em artigo que escreveu para o periódico Foreign Affairs (GATES, 2009).

(12) Em suma, não deixa de ser algo notável o aumento no orçamento do Comando de Operações Especiais dos EUA: de US$ 2,3 bilhões em 2001, foi ampliado para cerca de US$ 7,3 bilhões em 2007 (KOEHL, 2008).