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Recognition of ecological, social, cultural, and economic values and uses

5. Results

5.2 Recognition of ecological, social, cultural, and economic values and uses

A arte é um estado de encontro fortuito (BOURRIAUD, 2009, p.25). Os artistas que inscrevem suas práticas, calcados na descoberta de lugares, elevando- os à condição de espaço, apresentam modelos perceptivos, ou ainda, lugares de “interstícios”, apregoados por Bourriaud em sua “Estética relacional”. O autor empresta a terminologia “interstício”, usada por Karl Marx, para designar as comunidades que fugiam aos padrões da economia capitalista.

Para Bourriaud, o interstício agencia as subjetividades, criando espaços que fogem aos padrões capitalistas, favorecendo zonas de troca e de comunicações.

A arte é o lugar de produção de uma socialidade específica; resta ver qual é o estatuto desse espaço no conjunto do ‘estados de encontro fortuito’ propostos pela Cidade. […] O termo interstício usado por Karl Marx para designar comunidades de troca que escapavam ao quadro da economia capitalista, pois não obedeciam à lei do lucro […]. É exatamente esta a natureza da exposição de arte contemporânea do campo do comércio das representações: ela cria espaços livres, gera duração com um ritmo contrário à vida cotidiana, favorece um intercâmbio humano diferente das ‘zonas de comunicação’ que nos são impostas. (BORRIAUD, 2009, pp.22-23) Além das questões da cena contemporânea circunscritas nas relações com o espaço, a professora e pesquisadora Lídia Kosovski ainda o relaciona com fluidez e elasticidade, caracterizando o que denomina de “cena nômade”. A fluidez desses lugares permitiria à cena “assumir qualquer formato” (KOSOVSKI, 2001, p.84).

A autora destaca as transformações que ocorrem sobre a “ideia de lugar”, isto é, as possibilidades de diluição por intermédio de “uma espécie de contrato de negociação com os lugares calcados no ‘praticar’” (Ibid., p.86). Esses espaços são negociados e se abrem para práticas artísticas, transmutando-se em experiências múltiplas e heterogêneas.

A abertura para novas percepções ou, ainda, para a desestabilização da lógica nos espaços públicos (agenciados pela negociação e participação com o espectador) reafirmam a ativação dos espaços urbanos decorrentes de experiências recentes das artes performáticas ou das artes visuais, e da dança, instigando novas possibilidades de relação com o espectador.

[…] O espaço teatral passa a ser uma proposta, onde se constroem poéticas e estéticas, e também uma crítica à representação. Em contrapartida ao estado sólido, buscou-se a fluidez do novo, novos espaços que transformassem as relações internas da cena teatral e seu contato com a platéia (sic), entre as quais valoriza-se o nomadismo da cena (Ibid., p.83).

Entendemos que várias questões elucidadas sobre o espaço da cena contemporânea são oriundas de “contaminações” pelas dramaturgias, pelos discursos, receptividades e imaginários e, acima de tudo, na rejeição ao modelo capitalista do teatro tradicional. As relações com o espectador expuseram as questões sociais dos artistas nos anos 1960, em rupturas que encontraram novas modalidades artísticas para expressar as tendências da época.

Os redimensionamentos do espaço estabelecem novas negociações com o espectador e o desmanche do espaço tradicional do teatro abre para uma multiplicidade de procedimentos, oferecendo uma diversidade de conjecturas em resposta às necessidades dos artistas. E os principais catalisadores na produção de sentido são estes novos “pactos com o espectador”.

Kosovski, ao investigar a diluição de fronteiras, destaca a noção de “teatralidade da vida cotidiana”, ou seja, a sua ampliação para além do estatuto artístico, em práticas cênicas

que descobrem o “lugar para fincar a barraca”. “Assim em certa medida, identificar, encontrar, descobrir um lugar para ‘fincar a barraca’ é perceber o genius loci, e efetuando-se a prática para a qual se destina, consagrá-la e elevá-la à condição de espaço” (KOSOVSKI, 2001, p.91).

Priorizando esses espaços que agenciam novas subjetividades em acontecimentos desprovidos dos aparatos da “cena acabada”, em uma ação que se articula ao espaço e aos sujeitos que habitam esse mesmo espaço, a professora e pesquisadora Carminda Mendes André, ao referir-se sobre a intervenção urbana, evidencia a poeticidade instaurada no espaço dos transeuntes.

Para a autora, a arte intervencionista diferencia-se das manifestações dos anos 1960, pois não objetiva a ativação do participante ou do espectador “pela impossibilidade de determinar as intenções do indivíduo”. Assinala o uso de estratégias que possibilitem “cavar espaços” de possíveis articulações de práticas conviviais.

Do que se trata essa arte? Modos de cavar espaços e inventar relatos em lugares coletivos do tipo ônibus, filas, calçadões, lanchonetes, exposições; onde houver uma ocasião para ‘descolar’ um lugar saturado e enfraquecido pela vigilância (ANDRÉ, 2007, p.74).

Tais “acontecimentos” ressaltam as questões da representação das práticas cênicas que se situam em um campo expandido, em entrecruzamentos de formas artísticas, de posicionamentos éticos e políticos, em uma revisão que passa pelas questões dos espaços, das dramaturgias oriundas de discursos da vida, dos imaginários das comunidades e implicam diretamente nas possibilidades de inventar e potencializar os espaços do cotidiano.

Do mesmo modo, Kosovski refere-se ao espaço urbano, destacando a sua carga semiótica entre apresentação e representação.

O espaço urbano, se fundido à cena, transforma muitas vezes, a ideia clássica de representação espacial e cenográfica como simulacro de um outro, ausente. Em caso de certas cenas fundidas no cotidiano urbano, a confusão nasce da identificação entre apresentação e representação […] A carga semiótica do espaço estaria enraizada nessa espécie de espécie de apresentação (KOSOVISKI, 2001, p.83). Esses espaços de relações humanas, de “interstícios” ou de “intermeios”, como os nomeia Caballero (2010) ao referir-se às práticas cidadãs que ocorrem nas cidades latino- americanas, são lugares possíveis de reinvenção do cotidiano, ao buscarmos diferentes significações para as relações entre os sujeitos. Nesse sentido, compartilhamos da ideia de espacialidade da cena contemporânea, que busca as inter-relações e proximidades; distantes, portanto, de um teatro que ainda insiste em proteger o espaço e os acontecimentos da cena apartados do espectador.

A partir dos conceitos de “nomadismo”, de “interstícios”, “intermeios”, ou ainda de “práticas conviviais”, ressaltamos a diversidade de apropriações do espaço da cena contemporânea. Isso dificulta, entretanto, um mapeamento que traga à luz teorias que deem conta dessa diversidade, ou das categorias asseguradas por uma outra ordem ontológica. De todo modo, os procedimentos coletivos, ou ainda, os coletivos teatrais, circunscrevem a experiência teatral em espaços não institucionais, reverberando diretamente nos modos de apropriação dos espaços – que trazem práticas cênicas aglutinadas pelas coletividades e pelos novos modos de percepção.