5 ANALYSE OG DRØFTING
5.3 R ESSURSBASE I SUPERVEKSTBEDRIFTER
No sul da Sabana de Bogotá o elemento que mais destaca na paisagem agrícola pré- hispânica é o forte predomínio dos canais longos que irradiam do rio Bogotá para ambas as margens, ao leste e ao oeste, com comprimentos que podem atingir os dois quilômetros, e com pouca presença de camellones paralelos à linha da água. Isto condiz com a morfologia da Sabana neste setor, parte da qual se encontra ao mesmo nível do rio Bogotá e, portanto está sujeita às inundações sazonais. No entanto, há um terraço que se estende na margem norte do rio Tunjuelito, abrangendo o setor de San Bernardino e estreitando-se para o leste, em direção a Timiza (Vide mapa 2)
Os canais que se localizam neste terraço se estendem em direção a um conjunto de cultivos, que provavelmente seriam irrigados por eles. (Vide fig. 31). Isto é provável, dado que a região sul é muito mais seca que o resto da Sabana, com precipitações anuais que não superam os 1.000 mma, sendo necessárias estratégias complementares de irrigação, como acontece hoje (FAO, 2010: 33. 34). Estes canais poderiam ter dirigido a água para o interior, onde ficaria retida por maior tempo, aproveitando o fato do terreno ser mais baixo aqui do que na várzea do rio Bogotá, garantindo assim que os solos dos cultivos se manteriam úmidos durante boa parte dos meses mais secos do ano (dezembro-março). Pelo contrario, os canais entre este terraço e o rio Fucha drenariam a água para um pequeno e estreito espaço entre o Humedal de El Burro e Timiza, alagando-o sazonalmente (Vide fig. 30).
Fig. 31. Camellones lineares, setor San Bernardino e camellones em grelha. Adaptado de: RODRÍGUEZ GALLO, 2011.
Embora os canais tivessem como função principal drenar o excesso de água, foram identificados camellones alternando com os canais no setor do meandro da fazenda El Corzo. (Vide fig. 32). Como se pode ver na imagem, o terreno entre os canais longos tem pequenos cortes perpendiculares, que devem corresponder a canais menores que dividem uma parcela de cultivo da outra.
No vale que se forma entre o rio Tunjuelito e as montanhas do sul se reconheceram pela primeira vez pequenos grupos de camellones em quadrícula que iniciam no meandro Las Vegas e se estendem em direção a Bosa (Vide figs. 33 a, 33 b). Estes cultivos também puderam ser irrigados por canais que irradiavam do rio Bogotá, dado o clima seco da região, ou pelos córregos e pequenos rios que descem destas montanhas. Infelizmente, esta zona foi desde o século XIX fortemente impactada por atividades econômicas vinculadas com a extração de materiais pelo que a visibilidade dos traços arqueológicos é muito limitada. Canais e camellones são somente identificáveis na várzea do rio Bogotá, numa densidade muito menor em relação ao resto do percurso deste rio, e no médio e alto rio Tunjuelito não temos um só traço que nos indique que ali se teriam construído camellones, como acontece com todos os outros afluentes do rio Bogotá
(RODRIGUEZ GALLO, 2011). É bem provável que no baixo rio Tunjuelito se tivessem construído camellones (para além daqueles que encontramos em San Bernardino), obliterados já nas primeiras décadas do século XX.
Fig. 32. No interior do círculo são visíveis ver se canais lineares, setor San Bernardino (parte inferior) e camellones no setor El Corzo (parte superior esquerda). Fotos: C-35, 822 (IGAC, 1940. Escala 1: 22.000).
Pelo contrário, o médio e alto rio Tunjuelito, com solos pouco adequados para os trabalhos agrícolas, não teriam tido nenhum tipo de sistema de controle da água. Um elemento que confirmaria esta situação é a extraordinária mobilidade que apresenta seu leito neste setor: as fotografias aéreas mostram múltiplos paleo-meandros que evidenciam como os meandros se foram deslocando, crescendo e truncando, situação que não teria sido possível com um sistema de manejo de água (Vide fig 34).
Fig. 33 a. No interior dos círculos camellones e canais identificados e reconstruídos na pesquisa de doutorado. Reconstrução de canais e camellones no Setor Sul. Adaptado de RODRIGUEZ GALLO, 2011.
No setor de Bosatama foi reconhecido um paleo-curso que corresponderia à antiga confluência do rio Tunjuelito com o rio Bogotá. Etayo (2002) fez uma reconstrução inicial, assinalando que uma parte do paleo-rio pertenceria ao rio Tunjuelito e outra ao rio Bogotá. No entanto, a análise efetuada no decorrer da tese de mestrado mostrou que parece mais acertado
atribuir a totalidade do paleo-rio visível ao antigo percurso do rio Bogotá (RORIGUEZ GALLO, 2011, p. 90). Isto quer dizer que a antiga confluência devia ficar mais para o leste (Vide fig. 33 a). Na imagem é possível observar que o paleo-curso tinha pequenos canais associados, o que quer dizer que este trecho do rio deve ter estado ativo na altura em que o sistema hidráulico já estava funcionando. Esta hipótese se apóia também no fato de que o atual curso do rio Bogotá, localizado por baixo do paleo-curso, não possui vestígios do sistema hidráulico. Também esta parte do rio Bogotá não descreve grandes ondulações nem tem meandros abandonados; pelo contrário, sua forma, predominantemente linear, mostraria que é de formação recente.
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Fig. 33 b. Detalhe dos camellones identificados no decorrer da pesquisa de doutorado. Reconstrução feita a partir das fotografias aéreas:
A: C-790, 150, Escala 1: 13.000, 1956; B: C-754, 452, Escala 1: 9.000, 1955; C: C-35, 830, Escala 1: 22.000, 1940; D: C-758, 034, Escala 1: 7.000, 1955.
No setor do rio Balsillas, o último afluente que alimenta o rio Bogotá antes de descer a cordilheira, também se observaram traços do sistema hidráulico, embora de difícil visibilidade. Neste caso também temos uma situação especial que nos fala das transformações recentes na paisagem da Sabana: o rio Balsillas está formado pela junção do rio Bojacá, que passa pela Laguna de La Herrera, e o rio Subachoque, que atravessa o município de Madrid, bordejando
pela sua margem direita a colina de Mondoñedo e logo entrando na planície no setor de El Tabaco para encontrar-se com o rio Bogotá (Vide mapa 2). No entanto já nas fotografias aéreas do ano 1940 é possível observar como o trecho final do rio Balsillas foi endireitado, substituindo seu leito meandrante por uma linha reta, quase traçada a régua (Vide mapa 2 e fig. 35). No meio deste novo leito, podem-se distinguir ainda o percurso anterior do rio e alguns canais irradiando dele. Não foi possível identificar camellones de nenhum tipo dadas as fortes alterações no terreno, mas a existência destes pequenos canais sugere que deveram existir campos de cultivo à sua volta.
Fig. 34. Reconstrução do médio e alto rio Tunjuelito, mostrando a forte mobilidade dos meandros por causa da ausência de canais e camellones. Adaptado de RODRÍGUEZ GALLO, 2011
Fig. 35.Análise de fotointerpretação Setor Sul
Fig. 36. Modificações na paisagem hidráulica, setor El Tabaco, município de Soacha. Fotos: C-35, 825 (IGAC, 1940, Escala 1: 22.000), C-758, 034 (IGAC, 1955, Escala: 7.000)
3.2.2.4 Em síntese...
A partir da análise de fotointerpretação feita da paisagem arqueológica da Sabana de Bogotá, e em particular do sistema hidráulico de campos elevados de cultivo, propomos a seguinte interpretação sobre seu funcionamento e sobre sua relação com as características do meio natural: o sistema hidráulico deve ser compreendido como um sistema aberto e dinâmico. Aberto porque foi construído no longo prazo, através de uma acumulação gradual do trabalho realizado por várias gerações (ERICKSON, 1993; SCHAAN, 2012). Isto quer dizer que sempre era possível agregar mais uma estrutura em terra ao sistema sem perturbar seu funcionamento.
Também foi dinâmico porque sendo uma estrutura em terra devia sofrer desabamentos de quando em quando, sobretudo nos anos de precipitações muito fortes, como foi o período 800- 1000 DC (VAN DER HAMMEN, 2003, BERRÍO, 2006), que era preciso arranjar, mudando o tamanho ou a orientação dos camellones. Aliás, depois de cada temporada de chuvas era preciso limpar os canais e enriquecer a terra com os sedimentos orgânicos acumulados neles. Uma possível prática de deixar a terra em pousio por algum tempo teria implicado também que periodicamente umas zonas do sistema hidráulico estariam ativas e outras não.
A paisagem que se observa nas fotografias aéreas é, em consequência, produto de uma lenta e gradual transformação do meio natural, realizada por pequenos grupos familiares e comunitários, que o fizeram a partir de um conhecimento ancestral desse espaço. Isto permitiu que a nova paisagem construída fosse produto da inter-relação entre as necessidades dos homens e os limites da natureza (Vide mapa 4)
Quanto à organização espacial do sistema hidráulico podemos concluir que na planície que se estende entre La Balsa e o rio Juan Amarillo e entre o rio Bogotá e a colina de Suba havia um sistema de camellones em xadrez e, em menor quantidade de camellones enfileirados, que cobriam todo o solo. Também do outro lado da colina de Suba, na planície que se estende até os Cerros Orientales, e na planície de Chia, entre a colina Cruz Verde e o rio Bogotá, se identificaram vários setores com campos de cultivo em xadrez e enfileirados, que sugerem que todo este setor tinha campos de cultivo. Acreditamos que em Cota houvesse uma situação similar dada a boa qualidade do solo para atividades agrícolas e por ter uma continuidade espacial com o setor de Chia.
Teríamos, portanto, que todo o norte da Sabana de Bogotá estaria coberto por campos elevados de cultivo em xadrez. A predominância desta tipologia e a ausência de grandes canais mostram que esta zona não esteve exposta a grandes alagamentos, e que o manejo da água esteve focado no controle de alagamentos sazonais pelo nível elevado do lençol freático.
A partir do rio Juan Amarillo a Sabana se alarga, a gradiente de inclinação diminui e boa parte da planície fica ao mesmo nível do rio Bogotá, sem termos o suporte que no norte permitem as pequenas colinas que se levantam como ilhas. Ainda é possível encontrar um denso grupo de camellones em xadrez entre o rio Juan Amarillo e o Humedal Jaboque, por cima do atual aeroporto El Dorado, e um grupo menor do outro lado do rio Bogotá, ao longo de paleo-curso do Chicú. Alguns camellones encontrados à volta do rio Fucha, também no interior da planície, sugerem que deve ter existido uma continuidade do sistema hidráulico de campos elevados de cultivo, desde Juan Amarillo até o rio Fucha através da faixa que passa pelo Jardim Botânico.
Os níveis de água nesta zona, que já começa a ser mais inundável, estariam controlados pelo aumento em densidade assim como em tamanho dos canais que irradiam do rio Bogotá em ambas as margens. O ponto alto no manejo do excesso de água estaria, por um lado, na confluência do rio Tunjuelito com o Bogotá onde os canais atingem comprimentos próximos dos dois quilômetros e as plataformas para cultivo diminuem, e por outro lado, na obstrução da desembocadura do vale de erosão de El Guali para evitar que a planície de Funza ficasse alagada.
Há que acrescentar que ao longo do rio Bogotá, nas curvas de seus meandros e na própria várzea, há uma presença constante de camellones, melhor preservados em uns trechos do que em outros, aproveitando em muitos casos as barras de sedimentação para construir as plataformas paralelas à linha da água. Boada (2006) sugere que estes camellones deviam ficar alagados, e portanto inativos, uma ou duas vezes por ano, durante os meses de maiores precipitações, já que nas fotografias aéreas, como as de fevereiro de 1956 (voo C-773), se observa como toda esta zona fica alagada. Somando a estas condições o fato da várzea possuir solos ácidos e pouco férteis, a pesquisadora levantou a hipótese de que estes solos deviam ser só cultivados durante os meses secos e os camellones da planície durante os períodos mais úmidos.
Embora não se descarte uma forma de rotação dos cultivos desta natureza, como referido antes, a análise parte de uma premissa já criticada antes: interpretar as fotografias aéreas como se o panorama observado correspondesse à paisagem anterior à Conquista. Esta é uma interpretação que não tem em conta as modificações às quais a paisagem da Sabana esteve submetida durante
este tempo: os traços dos canais e camellones são visíveis mas a verdade é que o terreno já tinha sido nivelado colmatando os canais. Com o sistema hidráulico funcionando e os canais transportando o excesso de água, é pouco provável que acontecessem inundações de grandes dimensões. Um sistema de plataformas elevadas implicava que o solo devia ficar alagado sazonalmente, porque desta forma se acumulavam os sedimentos orgânicos que logo iriam enriquecer o solo das culturas, mas não deviam acontecer cheias de grandes dimensões que deixassem submersos os camellones e, portanto inativos, ou pelo menos o sistema não devia estar pensado assim. Um alagamento de tais proporções iria destruir as estruturas em terra ou as deixaria completamente cobertas pelo sedimento, o que implicaria longas jornadas de trabalho para reconstruir as plataformas, acabando por ser muito dispendioso.
Fig. 37. Camellones e canais na várzea de Tibabuyes. Na imagem se vê como os canais por cima dos camellones os protegem das inundações direcionando a água para o lago Tibabuyes. Os canais do outro lado do rio Bogotá também
ajudam a drenar a água e a proteger os cultivos.
Reconstrução feita a partir da fotografia aérea C-619, 168 (IGAC, 1952). Fonte: Autor
O que a análise das fotografias aéreas nos sugere a este respeito é que os canais lineares atuavam como barreiras protegendo os camellones da várzea. Em zonas como o meandro de Tibabuyes pode-se observar como os camellones estão localizados na parte côncava do meandro,
enquanto que do lado superior sul do meandro irradiam canais que passam “por cima” dos camellones (vide um exemplo na fig 37). Talvez esta morfologia procurasse resguardar os camellones da água que era drenada desde os canais.
Em síntese, teríamos um sistema hidráulico com a zona norte dedicada à produção agrícola propriamente dita, uma zona central mista com canais para a drenagem e camellones para o cultivo, uma zona sul dedicada fundamentalmente a drenar o excesso de água e evitar as inundações ou pelo menos minimizar seu impacto nos cultivos e nas áreas de habitação. Por último, a várzea do rio Bogotá, transversal a toda a Sabana, dedicada também ao cultivo.
Uma vez finalizada a análise da paisagem arqueológica da Sabana de Bogotá, através da fotointerpretação, temos uma ideia mais nítida de como os grupos agrícolas modificaram o meio ecológico para conseguir que onde outrora havia água crescesse o milho. Plataformas elevadas do solo para evitar serem atingidas pela água, pequenos canais formando linhas irregulares para tirar algo de fôlego à energia da água, grandes canais estendendo-se pela planície para direcionar o excesso de água, e pequenas áreas alagadas intencionalmente (Zonas de Mitigação), mostram que não foi preciso eliminar a água da Sabana para aí morar, como se pretende fazer atualmente.
Ao contrário, a nossa interpretação da paisagem agrícola parte do principio de que a água era um elemento com múltiplas dimensões. A partir da análise do sistema hidráulico podemos afirmar que muitas áreas da Sabana de Bogotá tinham lagos permanentes ou ficavam alargadas sazonalmente de forma intencionada. Alguns pontos que nos parece cumprirem este último propósito são o setor de Tibabuyes, os meandros à esquerda do rio Chicú, o Lago La Florida, o Humedal El Guali o setor por cima do meandro de El Say, o setor de Techo, o setor por cima de Tibaitatá e o setor de El Tabaco. A Laguna de La Herrera era, e continua sendo, um corpo de água permanente, integrado no sistema produtivo através da exploração dos seus recursos lacustres.
Estas conclusões estão baseadas na análise hidráulica antes apresentada, mas também em dados tirados dos documentos coloniais e da correlação com os sítios de habitação como mais à frente se exporá. Por exemplo, os primeiros cronistas da colonização mencionam que quando Jimenez de Quesada entrou na Sabana de Bogotá travou luta com os Muiscas, uma das quais aconteceu no setor de Tibabuyes no caminho entre Chia e Suba, “en los pantanos de Juan Amarillo” (VELANDIA, 1979: v 2, p. 822).
Ora, nem sempre as áreas alagadas foram vistas em um sentido funcional. Como já se tem mencionado, a água tinha um forte significado simbólico, embora não seja o objetivo central da
pesquisa desenvolver esta dimensão. Basta adicionar um testemunho atribuído a Jimenez de Quesada sobre os recursos alimentares encontrados no Cacicado de Bogotá que reflete este caráter sagrado da água: " Tienen muchos bosques y lagunas consagradas en su falsa religión, donde no dejan cortar un árbol ni tomar un poco agua, por todo el mundo" (apud FRIEDE, 1960?) e o testemunho de Fray Pedro Simón, em relação ao costume dos Muiscas de fazer oferendas na água: “...pues no había arroyo, laguna, ni río en que no tuviesen particulares ofrecimientos” (SIMÓN, 1981 [1625]: v. 2, p. 227).