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O aprendizado das mulheres tem sido reafirmado por meio dos grupos de mulheres, nos quais elas estabelecem uma participação em espaços públicos nas tomadas de decisões. A possibilidade de uma organização incentiva às mulheres “a romper com a rígida divisão de papéis, com o lugar já predeterminado na família, no trabalho, e a ocupar espaço no campo político” (SALES, 2007, p.442).

Segundo Esmeraldo (2004, p.221),

A decisão pela formação de um grupo constituído somente de mulheres traz o desejo de inscrição de voz da mulher no espaço público, a vontade de criar uma nomeação, uma existência pública até então omitida e negada para si. As mulheres trazem para o grupo o debate da necessidade de realização de um trabalho que afirme a sua participação na luta pela sobrevivência, que materialize a união das mulheres; que demonstre capacidades de vender alguma batalha e um trabalho que seja coordenado por elas e não tenha a participação masculina, nem mesmo dos maridos.

Suas ações tornam-se tão ou mais importantes quanto à participação masculina, ainda que muitas vezes não seja reconhecida como tal, devido à constituição da identidade de gênero da mulher ligada a reprodução e ao espaço privado.

Tem muitas dificuldades ainda. A gente num ser bem reconhecida ainda como mulher né que trabalha pelo mundo melhor, que eu acho que é quem tem mais dado essa contribuição são as mulheres, eu acho que a gente não é bem reconhecida né, no município, no nosso estado, nessa luta que a gente vem enfrentando desde 2001 pra cá, ninguém tem sido muito reconhecida não. (Entrevista com D. Ana, 54 anos, realizada dia 03/06/2013).

Contudo, promove nas mulheres um reconhecimento da força de uma organização, estimulando a pensar sobre a invisibilidade do seu trabalho e sobre as desigualdades de gênero.

Eu enxergo o grupo de mulheres como uma forma de a gente estar mais organizadas. [...] Maneira de trabalhar melhor na renda, de vender melhor a renda. [...] Pra mim é muito importante, porque uma andorinha só não faz verão, então o grupo de mulheres juntos é uma força. (Entrevista com Luzia, 43 anos, realizada em 22/07/2013).

Eu enxergo que é importante, que através do grupo é que a gente arruma as coisa, a gente trabalha junto, é mais fácil vim em grupo do que vim individual, aí acho que é muito importante, trabalha junto. (Entrevista com D. Maria Branca, 56 anos, realizada em 22/07/2013).

Muitas mulheres que fazem parte do Grupo de Mulheres Rendeiras Tecendo Sonhos participam de movimentos de mulheres e já passaram por diversas formações políticas e de gênero. Segundo Sales (2007, p.442),

A participação das mulheres nos movimentos sociais é também um espaço de luta, de contestação dos dispositivos de poder que organizam saberes dominantes, mas não deixa de ser uma possibilidade de escapar do controle familiar e de vivenciar outros códigos. A partir do envolvimento em movimentos sociais as mulheres se sentem fortalecidas e começam a produzir seus processos de reação à submissão, passam a reconhecer que possuem um determinado capital específico suficiente para formar um grupo de produção, ter uma renda. Depois de experimentar uma atividade produtiva rentável, as mulheres não são as mesmas, já não se sentem tão prisioneiras, estão mais abertas às multiplicidades do mundo, sonham com liberdade e, assim, contagiam outras mulheres, afetando e sendo afetadas por esses desejos.

Consideradas lideranças as narrativas dessas mulheres tendem a questionar sua posição social subordinada, comprovam os resultados dos novos aprendizados adquiridos a partir da participação nos movimentos, no Grupo e na luta em favor do território. Segundo Garcia et al. (2010, p.15), “a equidade de gênero começa a ser atingida quando elas passam a crer nas próprias habilidades para exercer um papel efetivo no processo de mudança”.

Discorrendo sobre a importância do Grupo e de sua colaboração, D. Ana deixa claro na sua fala que nesses espaços elas expandem suas habilidades de escolhas, as quais definem sua autonomia como mulheres.

Eu acho que é importante, ninguém pode deixar ele cair, se acabar. Porque tem muito importância na luta, tanto na luta do Assentamento, como na luta do acampamento. Foi nós, o grupo de mulher quem puxou essa luta e o resto do povo acompanhou, mas foi o grupo de mulher quem sempre tá em frente na história da luta tanto do Assentamento, quanto do acampamento.

[...] Eu acho muito importante a minha participação porque eu graças a Deus contribuí bastante pra que tudo isso acontecesse, tanto da luta do Assentamento como do acampamento. Eu me reconheço como uma das que contribui bastante e é por isso que eu não tenho vontade que o grupo se acabe não. Me sinto uma das colaboradoras de todas essa luta que tem passado por aqui. (Entrevista com D. Ana, 54 anos, realizada dia 03/06/2013).

Para as mulheres rendeiras o grupo tem um papel primordial que possibilita “despertar o poder de dentro, modificar a auto-percepção, desafiar os entendimentos solidificados, fazer com que as mulheres vejam que existem formas alternativas de vida” (ROWLANDS, 1997, p. 111 apud GARCIA et al., 2010, p.15).

Eu acho importante assim porque através do grupo é que a gente vem resolvendo várias coisas né. Num sente muita dificuldade quando o grupo tá reunido, a gente num tem muita dificuldade pra resolver os problemas da gente aí pra mim ele tem muita importância. [...] Eu me sinto bem. Me sinto porque através do grupo de mulher a gente aprende mais, a gente toma mais conhecimento das coisa [...]. Pra mim é importante, tomar mais conhecimento com as coisas. Aprende uma com as outras né, porque às vezes a gente não sabe de uns assuntos, elas repassam umas pras outras. (Entrevista com D. Dedê, 52 anos, realizada dia 04/03/2013).

A atividade da renda de birro mantêm as mulheres mobilizadas, unidas e organizadas e para além da participação nas decisões sobre o futuro da comunidade, as mulheres passam a se perceberem capazes de decidir. No “movimento do trocado” (ALMEIDA; MENDES; HELD, 2011) elas caminham para uma conscientização da capacidade de decisão, que segundo Garcia et al. (2010, p.14),

A conscientização é um veículo para as mulheres conectarem suas experiências de opressão com as de outras mulheres. Assim percebem a dimensão política dos seus problemas pessoais. É um processo de descoberta que desvela a posição atual e faculta o avanço para outras posições possíveis. Aqui, ― a consciência, não é apenas um processo de descobrir o escondido, mas é uma estratégia ativa.

A percepção de si mesma como um sujeito histórico com autonomia e habilidade de ação ou decisão, a partir de suas próprias análises e prioridades, ainda que com “restrições de opressão internalizada, que limitam as opções das mulheres” 93 (GARCIA et al., 2010, p.16), observa-se um processo e resultado de um

93 Observa-se que o trabalho reprodutivo que envolve o cuidado com os filhos e a casa continua

sendo de responsabilidade quase que exclusiva das mulheres, onde elas intercalam as atividades da renda e da luta com as domésticas. Essa realidade torna-se mais imperativa para algumas das mulheres, enquanto que para outras já ocorre um diálogo e um acordo mútuo com os maridos. Falar das mulheres rendeiras do Grupo Tecendo Sonhos é entender sua heterogeneidade e compreender que há uma totalidade, mas que não é a realidade homogênea. Não pretendo neste trabalho diluir as

empoderamento por parte das mulheres, envolvendo um exercício de poder, que não significa a sua posse, mas implica

no movimento e constituição dos sujeitos e subjetividades – que permanecem ou se transformam – as experiências sócio-educativas vivenciadas pelas mulheres assentadas, no percurso de suas luta, contém, em si mesmas, os fundamentos de sua transformação como mulheres, ou seja, possibilidades de emancipação e empoderamento. (SCHEFLER, 2010, p.2 – grifo do autor).

Para Garcia et al. (2010, p.14) com base nas perspectivas de Foucalt (1980) e de Arendt (1969) o “poder não é um item armazenável, ele reside, não transcende as próprias relações de poder, mas é inerente a elas”. Portanto, o empoderamento se constitui num processo de ação coletiva e individual, no qual as mulheres compreendem o poder do discurso, tomam posse de suas próprias vidas, passam a interagir entre si e com os outros, refletindo de forma crítica sobre a realidade e construindo deste modo uma competência pessoal e social que permite uma transformação nas relações de poder (SCHEFLER, 2010, p15).

Na visão foucaultiana o empoderamento só pode ocorrer quando o sujeito entende o discurso como uma arma de poder, de controle, de sujeição, de qualificação e desqualificação. Freire considera o empoderamento um processo de ação coletiva, que se dá na interação entre indivíduos e que envolve um desequilíbrio nas relações de poder. (SCHEFLER, 2010, p. 15 – grifo do autor).

O empoderamento construído no processo das relações sociais de gênero possibilita uma tomada de consciência por parte das mulheres, em relação as “desigualdade entre homens e mulheres, indignar-se com esta situação e querer transformá-la” (SCHEFLER, 2010, p.5). Do mesmo modo, o empoderamento desperta nas mulheres o olhar para o todo, um desejo de transpor todo e qualquer tipo de subordinação e desigualdade, verificado na fala de D. Ana ao expor o objetivo atual do Grupo:

Eu acho que é as luta mesmo Debir, é a resistência né, da nossa vivência la na praia pra não deixar ser invadido o nosso território. Eu acho que esse é o objetivo da nossa organização, do nosso grupo de mulher. É pra fortalecer mais essa luta que a gente vem ao longo do tempo e a gente não quer deixar, é pra isso que a gente pensa tá organizado, pra qualquer coisa a gente tá junto. [...] A gente é aqui em qualquer coisa, no colégio, esse ano diferenças, pois cada uma das mulheres constrói no tempo e no espaço a sua condição feminina. É real que para alcançar de fato uma emancipação requer a desconstrução dessas restrições, contudo, é importante ressaltar que neste caso, o “discurso e prática não são realidades que se opõem, um operando por distorção com respeito à outra; são antes pistas diferentes e complementares para a compreensão do significado” das ações dessas mulheres (MAGNANI, 2004, p. 140).

mesmo, no ano passado houve um problema aqui no colégio, na escola. No final do ano o prefeito tirou a diretora da escola que era uma ótima pessoa que a gente se dava muito bem, ele por loucura dele mesmo lá, só porque ela aceitou uma pessoa que não era do lado dele, de entrar lá no colégio ele tirou ela. Ai a gente fez um auê mais grande do mundo. Se reuniu, chamou mais gente e acampemo lá em frente ao colégio e o colégio passou 15 dias fechado, enquanto ele não resolveu o problema ninguém deixou. Aí nessas coisa que a gente tá sempre unido pra isso, pra qualquer coisa a gente tá. (Entrevista com D. Ana, 54 anos, realizada dia 03/06/2013).

O empoderamento se constitui enquanto processo, de maneira fluida e inesperada, mas também como resultado, medido a partir das práticas alcançadas. (GARCIA et al., 2010, p.15 ). Observa-se na fala de D. Ana que no processo de empoderamento as mulheres rendeiras passam a desenvolver enquanto resultado a consciência cidadã dos direitos e abre possibilidades para todos na luta pela vida digna, rompendo o silêncio e desafiando as ordens dominantes.

Quando indagadas se já pensaram em deixar o grupo, as mulheres rendeiras em sua maioria não suscitam essa possibilidade, e, mesmo aquelas que pelas dificuldades ao longo da caminhada conjecturaram tal alternativa, voltaram na decisão em reconhecimento da luta e pela força de se manter firme, sem querer desistir. Para algumas mulheres estar no grupo é fazer parte de uma luta que se iniciou com os progenitores.

Não, eu nunca pensei em deixar. Às vezes eu me afasto por motivo de outra luta, de dificuldades né das vezes eu cuido muito assim de doenças, essas coisas, às vezes eu me afasto assim, mas eu não tenho vontade de sair do grupo não. [...] porque eu gosto de tá reunida junto com as companheiras. Porque junto com as companheiras a gente tem mais força e vez. Tem um dizer que “uma andorinha só não faz verão” né? Aí tem que tá todo mundo pra ficar mais fácil de resolver as coisas. [...] Às vezes a gente fica assim como eu disse né, às vezes a gente fica assim afastada de reunião uns dias porque é uma coisa e outra, mas quando chega a hora mesmo da gente se reunir resolver as coisas, a gente se junta mesmo e resolve. Entrevista com D. Dedê, 52 anos, realizada dia 04/03/2013).

Já, já teve momento que eu pensei. Porque o grupo cresceu sabe, depois por pequenas coisas as pessoas se desanimam... Mas ai, eu não penso em desistir, quando eu entrei e enquanto tiver gente eu to junto , junto com o povo, se for dez estou junto, se for cinco estou junto. (Entrevista com D. Graça, 64 anos, realizada dia 23/07/2013).

Não, não, jamais. É porque existe sei lá não sei se é por a minha família que é, tipo, se eu não estiver inserida nas coisas pra mim eu não tô vivendo, pra mim não é bom, se eu passar uma semana ou alguma coisa assim sem eu tá sabendo das novidades, ou alguma coisa assim, sem tá lá, de ir lá saber e perguntar, eu fico totalmente, tipo nunca mais eu não fui pra nada, não fiquei sabendo de nada, se eu ficar só na escola e em casa eu digo que não tem como a gente viver longe, separado, é uma coisa que é da gente, de cada pessoa, é de mim, tipo meu pai foi pra mim um exemplo. Quem deu um ponta pé pra essa luta, embora assim nos registros nunca apareceu o

nome dele pra ser homenageado, mas todo mundo sabe o que ele foi e o que ele fez, pra mim eu nasci bem na época da luta, pra mim é como se fosse uma continuidade do que ele fez, o que minha família fez, o que meus irmão fizeram, e eu continuo, vou ensinar os menino. Sair jamais!!! (Entrevista com Conceição, 33 anos, realizada dia 22/07/2013).

Observa-se que para as mulheres rendeiras estar em grupo é reconhecer a formação que não provém da escola, mas da experiência “sobre a qual se produz conhecimento” (SCOTT, 1999, p.27). A formação não-escolar vivenciada pelas mulheres com seus familiares, ao longo do processo histórico de luta pela terra, permitiu a compreensão da relação entre suas atividades pessoais e políticas e a constituição dos sujeitos e da consciência política e do poder através da experiência. Em grupo, as mulheres passam redefinir as relações e os papéis sociais, demarcam a sua autonomia e controle na tomada de decisões, saem da invisibilidade de seu trabalho realizado na casa/quintal, rompem com as identidades cristalizadas culturalmente coladas ao corpo-natureza e aos corpos socializados para o papel feminino (ESMERALDO, 2004).

A capacidade de resistência constitui essas mulheres como detentoras de um poder exercido por meio de uma força organizada, que “criam novos espaços de emancipação” da mulher e da comunidade “frente aos seus opositores externos e, internamente, situando-se aí as possibilidades de emancipação” (SCHEFLER, 2010, p. 6).

Segundo Sales (2007, p.439),

Ao participar do campo político elas percebem que é preciso entrar no jogo, e jogar é tratar com o imprevisível, o novo, o desconhecido. Não existe um modelo pronto para estabelecer uma negociação; é preciso saber tratar com o inesperado, é desenvolver um pensar intempestivo, que dê vazão à criatividade, à espontaneidade.

Por isso as mulheres rendeiras indicam novos modos de resistência e rompem as fronteiras das casas indo para o Acampamento e para o Projeto de Algas. Estar nesses espaços de luta além de promover ainda mais autonomia e a visibilidade, faz surgir economias de amizades, de vontades de assumir outras práticas para além das atividades domésticas, fazendo com que essas mulheres exercitem sociabilidades através da fala, da escuta e enxerguem suas próprias existências ligadas a um renascimento do ser mulher, explícita poeticamente na fala de Conceição, na qual encerro este capítulo:

Eu me enxergo assim, como uma pequena semente, alguém que quer contribuir né, quando a gente se insere é porque a gente tem um intuito, um desejo... e eu me enxergo assim, como uma pecinha, como um birro, como se fosse um birro cheio de linha pronto pra começar a tecer! É porque eu acho que, nosso grupo, são esses pares de birro, que junto começa uma peça, que é nossa luta, nossa existência, e que a gente não para se Deus quiser, tomara que Deus nos dê bastante saúde pra nós não parar. (Entrevista com Conceição, 33 anos, realizada dia 22/07/2013).