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4. Deltakelse

5.5 Psykisk helse

Não é fato recente na história das civilizações a troca de sabores e modos culinários entre os povos. A globalização, inicialmente entendida como expansão de impérios, religiões, tradições e hábitos, mais recentemente se intensifica, sendo estimulada pelas atividades econômicas das nações na era moderna e pela circulação do conhecimento em todos os seus âmbitos – prático, especializado, teórico, tradicional etc. – em nível mundial. Acelera-se assim, ao longo dos tempos, a internacionalização dos saberes e, portanto, dos fazeres em vários domínios, inclusive na Culinária.

É sabido que, no período das grandes navegações, o comércio de especiarias e mercadorias mais “exóticas” entre as nações envolvidas proporcionou a difusão de “alimentos modernos” como milho, cacau, café, açúcar, sal, especiarias, entre outros. Hoje esses alimentos compõem a base da alimentação mundial. (TEIXEIRA, 2008, p. 69)

A circulação de informações de toda ordem e nível acelerou-se com o advento do computador pessoal nos anos de 1980 e, sobretudo, da internet, instaurada, definitivamente, no cotidiano doméstico e profissional do cidadão comum a partir da década de 90.

Na sociedade brasileira a culinária sempre teve seu lugar cultivado e reverenciado por várias gerações, graças aos costumes familiares mais tradicionais marcados pelas culturas indígena, africana e europeia, entre outras, e pela mestiçagem ocorrida a partir da chegada dos povos estrangeiros no Brasil. Em tempos de avanço tecnológico, são vários os fatores que colaboraram para que a culinária e a gastronomia ascendessem a um lugar distintivo, passando a ser reconhecidas como áreas de atuação e de práticas não mais restritas às classes subalternas e a atrair o interesse das classes sociais mais privilegiadas e também da classe dos pesquisadores. Como aponta Teixeira, “seguindo as tendências internacionais, a Culinária foi aos poucos ganhando visibilidade junto à elite intelectual e acadêmica no Brasil, que passou a

discutir seus temas em congressos e eventos organizados pelo país a fora.” (TEIXEIRA, 2008, p. 70)

Outro fato que revela a expansão do lugar reservado à culinária no Brasil corresponde ao número de suplementos especializados em jornais, revistas especializadas e programas de televisão que tratam de práticas das mais simples e tradicionais para um público iniciante, até conteúdos mais sofisticados que descrevem práticas nada corriqueiras, vindas de outras regiões do país e também do mundo. Trabalhos feitos por antropólogos citados por Teixeira (2008, p. 76-77) comprovam o interesse pelo tema no Brasil também crescente no mercado editorial e na academia, pelo número ascendente de pesquisadores que se debruçaram sobre a Culinária como objeto de estudo. Citamos uma passagem que revela esse crescente interesse por parte do leitor brasileiro: “Segundo pesquisa da Câmara Brasileira do Livro, em parceria com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (CBL/Snel), os títulos sobre gastronomia registram um crescimento de mais de 23% somente em 2006 no Brasil.”.

Na França, o universo do paladar – que sempre privilegiou modos de preparos, técnicas, sabores até a combinação de aromas, acompanhamentos e ingredientes – sempre teve seu lugar preservado. Ao longo de toda sua história de glórias e declínios, a nação francesa jamais viu sua reputação gastronômica abalada ou ameaçada. “Ninguém pode

escrever sobre a culinária francesa sem escrever sobre a França”. Essa citação, presente na

introdução de um livro de receitas da escola de gastronomia Le Cordon Bleu, traduz muito bem a relação indissolúvel entre a culinária, a cultura e a história da França.

O interesse em reunir receitas e textos que descrevessem formas de preparos não é remoto na França; data da época medieval, quando as casas reais influenciavam o desenvolvimento da arte do paladar pelas trocas e difusão de novos saberes e novos costumes de outros lugares da Europa. O primeiro restaurante francês foi fundado no reinado de Luis XVI, cujo cardápio continha mais de 200 opções de pratos e 50 opções de sobremesa. Na introdução desse livro de receitas, relata-se que a Revolução Francesa também foi um marco na art de la table para os franceses:

A Revolução Francesa de 1789 mudou tudo. Enquanto cabeças caíram na guilhotina, a inspiração para a arte de viver esgotava-se. Por um tempo, tudo pareceu perdido; então, duas coisas aconteceram. Primeiro, os cozinheiros das grandes casas tiveram que encontrar uma nova fonte de renda para se sustentar. Isso levou ao estabelecimento de restaurantes para o público. (COINTREAU, 1994, p. 11)

Não apenas a aparição dos estabelecimentos comerciais da gastronomia contribuíra para a grande apreciação do fazer culinário, mas uma oferta significativa de produtos do mercado editorial do ramo ganhava força com o passar do tempo. Houve um aumento da produção de livros de receitas com o advento da indústria da impressão, e materiais de baixo custo eram vendidos por toda a França como consta na introdução do livro da escola Cordon

Bleu (COINTREAU, 1994).

No Brasil, há a mesma ligação entre história, cultura e culinária. No livro Açúcar, publicado no final da década de 1930, o sociólogo Gilberto Freyre descreve a sociedade canavieira, sua organização e os efeitos da introdução do açúcar no hábito alimentar do homem nordestino. Freyre (1973) retrata a chegada do açúcar como organização de uma sociedade – produção canavieira, exportação, instalação dos portugueses, mão de obra escrava etc. – e como um sabor marcado no paladar do brasileiro. Daí a frase “Sem açúcar não se

compreende o homem do nordeste.” 11.

Nesse sentido, pensamos que reflexão que perpassa nossa investigação é, no fundo, o desafio de todo tradutor: aproximar universos tão peculiares por equivalências coerentes pautadas por métodos essencialmente intrínsecos à língua – e não intuitivos, exteriores a ela.