5 Brief analysis of the displacement consequences
5.3 Psycho-socio-cultural (PSC) aspects and adaptation of the community
O corpo docente que atua na educação de jovens e adultos da Escola Municipal Antônia Freire é composto por professores de nível superior, alguns com mestrado e/ou doutorado. A equipe, na sua maioria, vem trabalhando com a EJA há pelo menos três anos, e a escola oportuniza a formação desses profissionais, por meio de cursos oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação, encontros, seminários, congressos ou especializações na área educacional.
(...) Então, a grande parte dos professores buscou a formação, a escola prioriza a formação, você tem liberação. Se você precisa fazer um curso, você tem liberação automática, é só organizar com o seu grupo... pra formação você tá liberado em qualquer horário, em qualquer momento. É uma coisa que nós acordamos com 60 professores da escola.(...) Aí, a maioria tem especialização nisso, formação naquilo, a maioria tem curso superior e tem também especializações, nós somos acho que seis ou sete com mestrado já. Então, um grupo que busca muito em função do trabalho que desenvolve (trecho da entrevista com a coordenação da EJA na EMAF).
De acordo com a coordenação da EJA na EMAF, há uma preocupação em se ter um grupo de professores que compartilhe de alguns pressupostos, tais como: vivenciar o trabalho coletivo, a disponibilidade para transitar pelas áreas, bem como trabalhar com ritmos diferenciados.
Existem professores com experiência anterior em EJA, como também professores que nunca trabalharam com jovens e adultos. Quanto a esses últimos, notamos uma necessidade de se inteirarem melhor do projeto de EJA na EMAF. Isso pôde ser percebido no momento em que fazíamos a entrevista com a coordenação e uma das professoras novatas pediu para ouvir e participar, aproveitando o momento para se informar e tirar dúvidas. Num outro momento, em que observávamos uma aula do noturno, uma das professoras também falou de como é tudo novo para ela e de sua
necessidade de buscar mais esclarecimentos quanto ao eixo que norteia o trabalho do grupo que atua na EJA.
Por meio das entrevistas realizadas com alguns professores da EJA da EMAF, percebemos que existe uma diversidade na própria maneira de se enxergarem enquanto professores de jovens e adultos, principalmente no que diz respeito às especificidades que um trabalho com esse público requer do professor. Isso, como será mostrado mais adiante, tem impacto na articulação do grupo no coletivo.
Apresentamos trechos das entrevistas com professores de um mesmo grupo de trabalho:
(...) Eu acho que a EJA tem uma maneira muito própria, muito específica de funcionar, entendeu? Os alunos são adultos então, isso te exige um outro tipo de trabalho então, a influência tá... tá no... no sujeito da EJA, que é diferente então, vai influenciar, vai te exigir um outro tipo de trabalho. Na relação com os alunos, que são adultos, então é um outro tipo de... de contato, que vai te fazer pensar também em outras formas de aproximação. (...) Eu acho que é... que é todo um contexto de... [silêncio] de educação que é [em] específico, cê tá lidando com pessoas que são iguais, trabalhadores como você. (...) existe um diálogo, uma conversa, uma mediação ali, que é diferente, do que se fosse no terceiro ciclo (trecho da entrevista com a professora Sueli – Grupo “A”).
(...) trabalhar com a EJA foi, está sendo um aprendizado, é muito diferente trabalhar com adulto, principalmente trabalhador (...). O trabalho com o adulto é gratificante (trecho da entrevista com a professora Maria – Grupo “A”). Eu acho que primeiro é um desafio novo, é um reaprender, porque toda a organização da EJA é diferente, a gente aprende a trabalhar, eu aprendi, eu comecei a dar aula, a gente aprende a trabalhar compartimentando o saber, segmentando o saber, e a EJA é uma possibilidade de trabalhar uma visão mais universal do saber, eu acho que influencia nesse sentido, eu acho que a outra influência importante é... eu tinha outro olhar sobre o sujeito mesmo, eu acho que nessa relação professor/aluno o trabalho da EJA diminui um pouco, quebra um pouco essa posição, esse lugar que o professor ocupa, que é o lugar de quem leva o saber, eu acho que o trabalho da EJA me fez questionar isso, me fez considerar os saberes que tinham de outra maneira. E eu acho que isso tem reflexo em todos os níveis de escolarização que a gente trabalha (trecho da entrevista com a professora Rita – Grupo “A”).
Quanto ao outro grupo pesquisado, notamos que, para o professor entrevistado, o trabalho com a educação de jovens e adultos não implica necessariamente em mudanças, o que demonstra a heterogeneidade do corpo docente:
(...) eu tive pouca mudança do... do que eu já fazia, quase nenhuma, pro que eu tô fazendo na EJA, eu apenas percebi, olha, eu tenho um público diferente assim, com mais idade, né, mas eu acho que o que eu já... as concepções que eu tinha, né, facilitaram demais pra trabalhar, né. (...) eu não consigo ver diferença eu não provoco essa diferença. O que eu consigo perceber e que a gente talvez possa chamar então de diferença é, em alguns momentos a questão da linguagem, né, principalmente é uma linguagem pras pessoas mais... idosas, mais velhas, né, mas essa linguagem também, eu tenho cuidado também com a meninada, a linguagem que eu digo [ ] aí eu tô sendo específico, na questão do meu conte... da área com a qual eu trabalho, né, de como tá fazendo com que essa informação com a qual eu trabalho, que é ciências, che... atinja esse público. Então, eu tenho também um cuidado com a linguagem, com a meninada, né, também tenho com a EJA então, eu num me sinto assim com grandes diferenças, não (trecho da entrevista com o professor Antônio – Grupo “B”).
Toda a diversidade de concepções esbarra numa dificuldade que pôde ser notada e que também foi relatada por alguns: a dificuldade de se trabalhar em grupo, em construir projetos coletivos e em criar espaços de trocas. Em vários momentos fomos esbarrando numa realidade da EJA na EMAF: a permanente construção de um projeto voltado para a educação de jovens e adultos.
(...) tem um grupo de EJA muito diversificado aqui, de professores... É engraçado que a dife... diversificação aqui é tanto por parte dos alunos como por parte dos professores, isso às vezes, é... pode ser um desafio, e em determinados momentos é um problema, assim como ensinar um grupo diversificado é desafio, mas é problema também (trecho da entrevista com a professora Sueli – Grupo “A”).
Eu sempre procuro trabalhar a autonomia, apesar que eu acho que tem que melhorar muito ainda, o grupo tem que tá afinado, a questão que eu acho é que o grupo não afinou, há muitas diferenças, nas concepções das pessoas do mesmo grupo, né? Aí, fica difícil de construir uma coisa assim... mas eu acho que esse ano nós conseguimos mais coisa que o ano passado, em relação a trabalho, deu pra fazer muita coisa. (...)eu acho a dificuldade maior é a questão do grupo mesmo, eu acho que pega, viu? Às vezes, cê quer as coisas, as coisas não caminham porque tem divergência ali, tem complicador ali, às vezes a gente não consegue se entender, não no sentido de cada um pensar a mesma coisa, entendeu? (trechos da entrevista com a professora Maria – Grupo “A”).
Duas dificuldades são apontadas por uma professora com relação ao trabalho docente: uma que se refere ao incentivo por parte da prefeitura na formação docente e a outra que diz respeito ao reconhecimento do próprio grupo de professores da EMAF quanto aos saberes que esses docentes produzem e que poderiam ser melhor compartilhados. O depoimento que se segue, de uma das professoras, apesar de longo, é muito ilustrativo dessa realidade.
Ah, eu acho que duas coisas. Assim... é o projeto tem limites e tem problemas então, a gente vem um pouco pontuando isso em todas as questões. E eu acho assim que um dos elementos fundamentais pra gente lidar com essas deficiências tá relacionado à formação dos professores. E eu acho que eu... o pouco que a gente tem no sentido da formação dos professores é resultado da nossa luta, pura e simplesmente. Aliás, muitas vezes, esse processo de formação foi feito contra a vontade da prefeitura, no sentido de que a gente é, em certo sentido, roubou espaço que era o espaço de aula pra fazer essa formação. Mas ainda acho que é um processo muito, muito capenga. É... tantas as vagas oferecidas, nos diversos projetos da prefeitura são poucas vagas onde a gente tem um representante só, que vai lá, faz um curso, consegue passar pouco pro restante da escola, eu acho que esse ainda é um processo falho e não é falho só pra EJA, é pra tudo dentro da prefeitura, e tem um... pouquíssimo investimento no processo de formação dos professores, e nenhum reconhecimento do processo de formação que esses professores conseguem fazer por si só. Ou individualmente, nem um reconhecimento. Então, eu acho que esse tá relacionado à administração, à forma como a prefeitura lida e qualifica os seus ... seus profissionais, e o reconhecimento, que é nenhum que dá ao processo de qualificação que esses profissionais fazem. Esse é um ponto. E eu acho que o segundo, que é interno, esse é uma autocrítica, eu acho que os professores se apropriam pouco dos saberes, dos diversos saberes, que os diversos professores têm diferentes saberes formais aí construídos. Então, eu vou usar, citar o exemplo, a gente tem, só pra dar um exemplo, na EJA aqui da noite, pelo menos sete professores com mestrado. A gente não consegue fazer com que os saberes construídos no mestrado sejam utilizados aqui mesmo. A gente vai procurar formação fora, às vezes no CAPE, às vezes nesses espaços que a prefeitura oferece e encontra lá uma discussão muito mais pobre do que os profissionais da própria escola fazem. Então a gente não considera os saberes dos nossos colegas como algo que pode enriquecer o meu próprio saber. Então no processo de formação da escola nós convidamos pessoas da FaE, nós convidamos pessoas da Católica, e nunca construímos um espaço onde o saber que é produzido por esses profissionais se reverta em um processo de formação. Nós tivemos uma experiência na escola, um relato, de uma professora que tem mestrado e que trouxe a sua discussão pra cá, em sete. Eu penso que seja mais ou menos uns sete, não é uma conta exata, um só fez isso, e os demais? Mesmo nos outros turnos da escola, quantos mestres a gente tem que nós nunca ouvimos falar, eles nunca se colocaram. E eu penso porque a gente tem uma enorme dificuldade de reconhecer no outro, já conseguimos reconhecer no nosso aluno, a duras penas, reconhecer os saberes que trazem, mas não damos conta ainda de reconhecer o saber do nosso colega. E aí são diversos os fatores que entram aí. E eu acho que um deles é a dificuldade de reconhecer o outro como um ser que sabe, em
algumas medidas mais ou o mesmo tanto que eu, mas que é um ser pra eu trocar e não pra eu rivalizar. Então eu acho que tem esse duplo sentido: um problema que é com a administração e um problema que é bem técnico. Eu acho que, se a gente ultrapassasse isso... a gente... nosso projeto cresceria, mesmo as trocas do trabalho de EJA, qual o processo de avaliação que aquele grupo faz, o que eu faço, a troca... tem sido penosa, tem sido difícil... tem sido pouco reconhecido. Acho que a gente reconhece pouco e é pouco reconhecido. Eu acho que é... e são os problemas que eu apontaria (trecho da entrevista com a professora Rita – Grupo “A”).
Vamos descrever adiante, de maneira sucinta, a forma de organização do trabalho docente, bem como a maneira flexível que utiliza os tempos e espaços de aprendizagem. Posteriormente, uma breve caracterização da relação que se estabelece entre professor-aluno será apresentada.