80 XVI. Priser
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Inúmeras pessoas vão ao encontro das paróquias, por diversos motivos. Por vezes este
encontro é realizado de maneira solícita e fraterna, que desperta o desejo de regressar ao
ambiente na qual foi um dia acolhida, o que suscita a participação na comunidade cristã.
Porém alguns encontros nem sempre refletem uma acolhida calorosa. Devido a vários
fatores, entre eles a influência dos valores da sociedade hodierna, como o individualismo, o
ativismo, e outras implicações, por vezes não acolhemos com solicitude aquele que se
aproxima da comunidade, suscitando constrangimentos, que são propagados para outras
pessoas, gerando o afastamento e a descrédito de pertença a Igreja.
O conceito “casa” remete ao aconchego, segurança, e liberdade. Daí a importância de
acolher bem as pessoas. A proposta do documento de Aparecida é que nossas comunidades
sejam espaços de casa e escolas de comunhão fraterna, como já afirmava o (saudoso) Papa
João Paulo II.245 Que os cristãos sejam testemunhos pela sua atitude de vida, quando acolhem
uns aos outros, principalmente os excluídos de nossa sociedade.
A expressão de testemunho é a comunhão eclesial, condição para que o mundo creia. Antes de planejar iniciativas concretas, é necessário promover uma espiritualidade de comunhão, (...) significa a capacidade de sentir o irmão de fé como um que faz parte de mim (...) é ainda a capacidade de ver, acima
244 ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. 10º Plano de Pastoral, p. 61 245 Cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, n º 43
de tudo, o que há de positivo no outro. (...) por fim, espiritualidade da comunhão é saber “criar espaço” para o irmão (...) rejeitando as tentações egoístas que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeita e ciúmes.246
A prática de Jesus é paradigma para suscitar na pessoa o testemunho autêntico de vida.
Varias passagens evangélicas situam Jesus no espaço físico da casa. Jesus afirma para Zaqueu
que iria se hospedar em sua casa e após ser acolhido, proclama que a salvação chegou a casa
tinha chegado a casa de Zaqueu, pois ele era filho de Abraão.
Na casa, Jesus realiza a refeição e diversas vezes na casa de pessoas excluídas da
sociedade, pecadores da época. Jesus resgata o conceito da casa, local de acolhida e união. Na
atualidade a Igreja, por meio de seus documentos reflete sobre a importância da paróquia ser
local privilegiado de acolhida fraterna, onde todos se sintam em casa, onde se partilhe as
atividades pastorais, visando a construção de um mundo justo e fraterno. Local onde se
participa dos sacramentos, se celebra a liturgia, participando da mesa refeição, alimentando-
se do centro de nossa fé, a Eucaristia.
Por vezes, é necessário transformar o conceito “casa”, para a realidade presente. Foi
assim na experiência de cárcere do Bispo Francisco Xavieir Nguyen Van Thuan247. Ele
transformou a sua cela em espaço privilegiado de evangelização, mesmo diante dos limites
físicos, materiais e psicológicos.
Van Thuan viveu por treze anos como prisioneiro, e em um dos seus relatos, ele citou
que os guardas que vigiavam sua cela, não falavam com ele248. Por meio da acolhida fraterna,
Van Thuan conquista a amizade dos guardas e transforma a realidade da cela em espaço
fraterno, e posteriormente estes guardas, mesmo na cadeia, tornaram-se alunos de Van Thuan.
246 CNBB, Diretrizes gerais da ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, N º 18 2003-2006
247 François Xavier Nguyen Van Thuan era vietnamita, por 08 anos foi Bispo em Nhatrang, no centro de Vietnã,
depois Papa Paulo VI o promoveu a arcebispo-coadjutor de Saigon. Quando os comunistas chegaram a Saigon, disseram que a sua nomeação era fruto de um complô, e três meses foi preso, foi libertado após treze anos.
248 Cf. VAN THUAN,François Xavier Nguyen. Cinco pães e dois peixes, do sofrimento do cárcere um alegre
Ele utilizou do recurso da linguagem para promover a amizade com os guardas. A
princípio houve a resistência, e os guardas não respondiam, porém Van Thuan utilizou a
estratégia de falar sobre as últimas notícias mundiais e suscitar o interesse deles, e assim
àqueles homens foram cedendo, diante das palavras amigas de Van Thuan.
Ele relatou que a “atmosfera da prisão” mudou muito, até os policiais perceberam o
gesto de sinceridade e acolhida de Van Thuan. E mesmo na cadeia, os gestos de amor e
acolhida transformaram a vida daqueles guardas, que posteriormente até cantavam os refrões
de melodias que Van Thuan recitava na cela.
Van Thuan recorda que dirigiu o olhar para aqueles homens rudes, distantes, medrosos
e valentes, aqui podemos comparar o mesmo olhar que Jesus dirige a Zaqueu, quando o
observou em cima da árvore.
Van Thuan realizou os gestos que Jesus utilizou com o próximo. Transformou pelo
amor e acolhida um ambiente hostil, em espaço de convivência humana, resgatou naqueles
homens a sua humanidade. A “casa” de Van Thuan naquele momento era a realidade de uma
cela, mas a partir da fé ele não desanima, resgata o conceito “casa”, mesmo diante dos
desafios.
Van Thuan celebrava a Eucaristia diariamente mesmo as escondidas, rezava, cantava os
salmos, ensinava. Na dificuldade não desanimou, transformou a sua realidade, fez da cela,
uma casa de irmãos.
Assim no conceito “casa”, o documento de Aparecida reforça, que um dos maiores
desejos que se têm expressado nas Igrejas da América Latina e do Caribe, motivando a
preparação da V Conferência Geral, é o de uma valente ação renovadora das paróquias, a fim
de que sejam de verdade “espaços da iniciação cristã, da educação e celebração da fé, abertas
a diversidade de carismas, serviços e ministérios”.249
O documento sugere que sejam renovadas as estruturas paroquiais, para que sejam uma
rede comunidades, capazes de se articularem, para que seus membros se sintam discípulos
missionários em comunhão. É necessário a paróquia anunciar o que Jesus Cristo, fez e
ensinou. Suscitar nas pessoas o ímpeto missionário, de anunciar a palavra de Deus, ir ao
encontro e acolher o próximo.
Promover por meio da acolhida fraterna, a inserção das pessoas na comunidade. Por
vezes se o relacionamento “interior na casa”,250 não reflete a prática de Jesus Cristo, as
interferências da sociedade hodierna, dificultam a acolhida plena. Assim a conversão pastoral
é necessária para romper com as divergências, “a conversão exige que se vá além de uma
pastoral de mera conservação, para uma pastoral decididamente missionária e servidora”.251
É necessária esta conversão, pois a nossa maior ameaça é o “medíocre pragmatismo da
vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na
verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”.252
O método da ação eclesial, é encontrar as pessoas, ajudá-las a encontrar Jesus Cristo e,
por meio dele, achar o caminho, a verdade e a vida.253 Assim a paróquia será a casa
acolhedora, onde celebramos a vida, e o encontro fraterno de irmãos.