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A pesquisa de campo envolveu um trabalho extenso durante os dois anos deste curso, em que a pesquisadora se envolveu efetivamente com todos os passos relativos ao objeto de pesquisa: o IMESF. Foram entrevistadas, no total das duas fases da pesquisa, mais de 20 pessoas de entidades e organizações diferentes. Foram horas de gravações e conversas, contatos via e-mail e participações em audiências públicas, reuniões do CMS e, inclusive, em manifestações. Tanto trabalho foi recompensado pelo fato de a pesquisa ter atingido seu objetivo: identificar e analisar todas as formas possíveis de acessar a informação e de efetuar controle social no IMESF. Neste momento, uma breve retrospectiva relativa a todo trabalho estudado é pertinente.

Este trabalho, primeiramente, verificou entre as teorias da democracia aquela que traria a possibilidade de participação existente atualmente e que, portanto, implicasse em formas efetivas de controle social. Entre todas as formas de controle, deu-se importância à questão de accountability, já que esta pareceu ser uma das formas mais atuais e presentes na administração pública. Todo este trabalho teve intuito de verificar as formas de controle social e participação contidas na literatura, para que, ao final, pudessem ser enfrentadas pela realidade local.

Num segundo momento, estudou-se o SUS, em uma retrospectiva sobre os acontecimentos da história do Brasil que fizeram com que este sistema de saúde fosse criado. Lembrando, inclusive, de aspectos importantes, como o Movimento Sanitarista, que acompanhou e lutou pelo SUS – e ainda o acompanha, sempre preocupado com a manutenção dos direitos auferidos pela Constituição Federal de 1988. Após, verificou-se como a Reforma Gerencial, proposta na década de 1990, no Brasil, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, inserindo novos pensamentos de gestão, advindos do setor privado para dentro da gestão pública municipal – além de haver modificado a prestação de serviços de saúde, através da criação de novas formas de gestão de tais serviços. E ainda, mesmo imersos em brigas, disputas e grandes discussões, servem para que sejam estudados e discutidos, ainda que, ao final, sejam deixados de lado pela administração, por serem considerados inconstitucionais, ou por outro motivo qualquer. O que importa é que, se tais meios existem, se existe a possibilidade de estudá-los, cabe ao pesquisador fazê-lo.

Ainda após, identificar todas as novas formas de gestão de saúde que puderem ocorrer no Brasil por força das reformas de gestão foi estudado a rigor uma delas: a fundação pública de direito privado. Esta foi detalhada para que se compreendesse as discussões que sucederam na saúde pública brasileira nos últimos anos, em função de sua aplicação – para, então, por fim, estudar com cautela o IMESF, antes como ESF, discutindo todos que trabalharam ou não (visto caso do Sollus) para o bem da saúde pública em Porto Alegre.

Criado em meio a polêmicas, o IMESF anda devagar nas questões de transparência, acesso à informação e controle social. O CMS tem dado tempo a este para que ele torne-se tudo aquilo que fora prometido pela gestão para a sociedade. Mas, como também foi constatado pelo trabalho, o CMS se destaca por ser realmente referência em controle social, unir a sociedade em torno das questões e discussões de saúde e buscar alternativas e formas de fazer com que a sociedade mantenha-se no poder dentro da gestão pública. Portanto, espera-se que o IMESF cumpra seu papel, modifique e melhore a saúde pública municipal e consiga ampliar a divulgação das informações.

Foi importante constatar que as discussões em torno da criação do IMESF fizeram surgir uma rede de políticas públicas, compostas por vários sindicatos, conselhos de saúde e outros agentes, que compõem o Fórum das Entidades em Defesa do SUS. Estes se organizaram, discutiram, promoveram encontros, palestras e reuniões, a fim de envolver todos os interessados no tema – cumprindo, assim, um importante papel para o fortalecimento do controle social em saúde.

Além disso, ressalto a união, mesmo com não raras brigas, entre a SMS e o CMS, no intuito de a primeira levar em consideração as ideias para a gestão pública municipal e aplicá- las de fato, como o que aconteceu com o Planejamento Anual de Saúde, que foi um pedido do CMS, acatada pela SMS e que hoje está em funcionamento. Por fim, estes dois entes, atualmente, encontram-se em tratativas de desenvolverem juntos, pela primeira vez, o Plano Anual de Saúde. Este seria mais um avanço importante, colocando o controle social diretamente dentro da formulação das políticas de saúde. Embora seja recente, considerando que as reuniões para tentar por em prática tal ideia estão sendo desenvolvidos entre fevereiro e março de 2013, este trabalho não pode ainda analisar o alcance destes fatos – o que se configura em um objeto interessante para futuros trabalhos nesta área.

Verificou-se com o trabalho que o Orçamento Participativo, as audiências públicas, as ouvidorias e os conselhos de saúde são as formas mais utilizadas para efetivação do controle social. Percebeu-se, também, que estes utilizam-se dos mais variados canais para acessar informações. Entre eles, destaca-se o recente ObservaPOA, criado em parceria com instituições internacionais e que, apesar de estar conectado com a administração pública municipal, declarou-se isento de qualquer tipo de influência – tendo, portanto, a liberdade de publicizar informações importantes para gestores e para a sociedade. Deve-se destacar aqui sua atuação junto ao OP, no auxílio das demandas da população, efetuando cursos e palestrar e buscando dados quando demandados. Além disso, o Observatório consegue informar, de maneira mais simples, através de indicadores que facilitam o entendimento do cidadão comum, fazendo que este se apodere de informação e compreenda as demandas da sua comunidade.

Obviamente, nem tudo são fatores positivos. Dessa forma, a pesquisa serve também para apontar possíveis problemas que foram encontrados. Entre estes, destaca-se, primeiramente, a preocupação legítima dos movimentos sociais de uma desconstituição do SUS, visto que os governos, em todas as esferas, têm efetuado o máximo de esforço possível para manter os serviços e as ações de saúde distantes da administração direta, provocando uma crise no sistema que, como pudemos ver em seu histórico, pretendia trazer a saúde de volta para o rol de direitos fundamentais, sob responsabilidade do Estado. Isso é preocupante, caso o gestor queira eximir-se das responsabilidades do serviço, evitando escândalos políticos, já que não seria o prestador oficial de saúde.

Além disso, convém ressaltar que o baixo acesso à Internet na cidade (por 43,9% da população) torna os próprios meios de divulgação digital pouco efetivos. Se menos da metade da população tem acesso aos meios de transparência, menor ainda será a possibilidade de uma parcela da sociedade reunir-se em busca de efetuar maior fiscalização da gestão. Dessa forma, não pode-se esquecer que existem diversos fatores que corroboram para uma baixa participação da sociedade. Um dos principais, como a maior parte dos entrevistados denominou, é a falta de cultura de participação.

Por fim, embora muitos entrevistados considerem baixa a participação da sociedade, acredito que a saúde em Porto Alegre é um fenômeno diversificado. Mantém-se à frente de todas as discussões, por dentro de todos os problemas e junto da gestão, em prol de resolver o que for preciso. Prova disso é a quantidade de entes envolvidos em vários aspectos com o

IMESF e que possuem opinião fundamentada acerca do assunto. Portanto, embora seja notável que a sociedade em geral ainda não possui uma cultura de participação que a torne parte da administração, preconizada por diversos teóricos da participação. E, por este motivo movimentos como s efetuado pelo CRC/RS, no sentido de alertar e promover esta participação, são importantíssimos. Ainda assim, a cidade se destaca por movimentar-se, assim como o Brasil inteiro, em prol das discussões acerca de saúde pública.

Verificou-se que, embora houvesse um grande número de envolvidos (diversos sindicatos, movimentos, organizações e também a própria gestão pública), um denominador comum entre eles é o que motivou também a pesquisa a ser feita: a garantia da prestação digna do direito à saúde, em Porto Alegre e no Brasil. Dessa forma, embora o objetivo principal da pesquisa fosse verificar o acesso às informações e o controle social de uma política pública bem especifica que é o ESF, ela colaborou para mostrar como o movimento de saúde é articulado e preocupado com as demandas de saúde.

Ressalta-se que este trabalho não se encerra aqui. São imprescindíveis análises acerca das novas formas de gestão na saúde pública brasileira, visto que são escassos tais estudos. Além disso, seria interessante verificar as mudanças ocorridas na prestação dos serviços de saúde aos cidadãos, pois esta parcela de participação não foi objeto da pesquisa, que procurou trabalhar com a sociedade organizada. Por esse motivo, um estudo nestes termos seria interessante.

Vale mencionar, ainda, que a união de estudos vindos da sociologia política e da administração em saúde foi, ao final do trabalho, complementar e fundamental, no sentido de abranger um espectro diferente da investigação. Para a pesquisadora, foi um desafio e também uma gratificação poder revelar os resultados finais, no Capítulo 5 deste trabalho.

É preciso, portanto, que cada cidadão se posicione, primeiramente, individualmente de seus direitos como cidadão e além de sua capacidade, dentro de um movimento, a fim de modificar, fiscalizar e garantir que tais direitos sejam cumpridos. Quando isso acontecer, as informações serão suficientes, pois, se não forem, saberemos onde buscá-las – e o gestor terá na sociedade que o cerca aliados em prol da manutenção e do crescimento do acesso público e do sistema público como um todo.

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