Um número menor de familiares (três ou 12,5%) demonstrou incerteza quanto à possibilidade de o filho receber ou não o certificado de “terminalidade específica”, como ilustrado nos relatos a seguir.
Eu quero um que não possibilite ela de parar de estudar. A não ser que mais pra frente ela queira parar, falar ‘olha eu não dou conta’, mas aí ela vai responder por ela. Mas enquanto ela quiser e eu puder estar ajudando, eu quero que ela continue estudando. Porque se ela receber, ela vai ser impossibilitada de seguir em frente. Pra ser franca isso aí eu não queria responder sem o auxílio do J. e da S. (professores do AEE). Eu penso isso. Põe em dúvida que é mais fácil (P18).
Eu penso assim, se ela não chegasse ao objetivo de aprender, de ler, ela vai ter que fazer alguma coisa. Eu gostaria que ela recebesse o que todos recebem, mas se ela não conseguir chegar nessa meta, mas devido ao problema dela eu não sei se ela consegue. Mas eu gostaria que ela recebesse o de conclusão, (do ensino fundamental) porque aí ela teria aprendido ler, escrever. Eu queria isso para ela, mesmo que demore. Só receber a “terminalidade específica” se não tiver condição (P3).
O relato do P3 demonstra que sua dúvida em relação à “terminalidade específica” se manifesta em decorrência da incerteza quanto à possibilidade de sucesso da filha em alcançar a conclusão do ensino fundamental. Para essa mãe, não estavam claros os limites e possibilidades de aprendizado da filha, uma adolescente de treze anos que cursava a primeira série desse nível de ensino.
Uma das mães (P18) que se mostrou incerta quanto à possibilidade de a filha receber a referida certificação afirmou que gostaria de ouvir a opinião dos profissionais do Atendimento Educacional Especializado que trabalhavam diretamente com ela, o que demonstra que a posição deles seria importante na sua tomada de decisão em relação à escolarização da filha.
A incerteza quanto à possibilidade de recebimento ou não da certificação, sem dúvida, é, em parte, decorrente do fato de a rede municipal de ensino de Uberlândia não ter colocado o assunto em discussão com a comunidade escolar, especialmente com os pais dos alunos com deficiência intelectual, que estão matriculados nas escolas e como já nos referimos no capítulo quatro, os candidatos potenciais a recebê-la. Essa situação apresenta-se contrária ao que preconiza as Diretrizes Curriculares para a Educação Especial na Educação Básica em relação aos direitos dos pais de serem consultados sobre a forma de educação que melhor se ajuste às necessidades, circunstâncias e aspirações de seus filhos (BRASIL, 2001b).
Em síntese, em relação às perspectivas dos familiares quanto à “terminalidade específica”, identificamos três diferentes grupos: os que eram contra, os que eram a favor, e os que não apresentaram uma posição definida sobre o assunto.
Os que se mostraram não favoráveis, isto é, não desejavam o certificado de “terminalidade específica” para seus filhos, foram maioria. Cinco deles eram familiares de alunos que cursavam as séries finais do ensino fundamental. Nos seus relatos foi possível perceber a crença na possibilidade de desenvolvimento e aprendizagem dos filhos no sistema comum de ensino fundamental. Para essas famílias o mais importante não era o tempo que os filhos permaneceriam na escola e/ou levariam para concluir o ensino fundamental, mas que seu direito de estar na escola, assegurado por lei, fosse respeitado e que se desenvolvessem projetos de ensino e aprendizagem que conseguissem levá-los a aprender conforme seu tempo, mesmo que ele fosse maior que o dos outros alunos considerados sem deficiência. Para esses familiares não era o certificado por si só que asseguraria qualquer garantia de prosseguimento e sucesso do filho, mas que esse tivesse domínio dos saberes propostos pela escola. Além disso, eles não atribuíram nenhum valor a um certificado alternativo que poderia, em sua concepção, prejudicar o futuro escolar e profissional do filho.
Os que se posicionaram a favor, ou seja, que aceitaram e pareciam ter visto com bons olhos a possibilidade de os filhos obterem o certificado de “terminalidade específica”, demonstraram que essa escolha foi decorrência da dúvida quanto ao sucesso do filho na escola e sua dificuldade em conseguir o certificado de conclusão do ensino fundamental. Além disso, elas enxergaram no certificado de “terminalidade específica” a possibilidade de futuro encaminhamento para o filho, principalmente, para o mercado de trabalho. Isso parece reforçar a crença na força de um diploma como garantia de se conseguir a inserção no mundo do trabalho, mesmo que esse carregue consigo a ênfase na diferença de quem o recebe, o que as famílias pareceram não perceber.
O terceiro conjunto foi o dos familiares que não apresentaram uma opinião formada sobre o assunto, manifestando dúvidas, pois ora diziam querer o certificado que todos os outros alunos receberiam, ora recuavam dessa opção diante da incerteza quanto aos limites e possibilidades de aprendizado do filho.
Comparando os relatos dos familiares de alunos que cursavam as séries iniciais com os que cursavam as séries finais do ensino fundamental e, portanto, os que, em potencial, estariam mais próximos de receberem o certificado de “terminalidade específica”, constata-se que não houve diferença de opinião entre os que a aceitaram e os que a recusaram.
É importante ressaltar, ainda, que nos três grupos havia defasagem na relação entre a idade dos filhos e a série cursada por eles, se for considerada a idade cronológica estimada para o aluno cursar cada série, no modelo de escola seriada. Desta forma, esse aspecto não pode ser apontado como o que determinou o posicionamento dos pais quanto à questão do certificado de “terminalidade específica”.