Ao se tentar explicar o sentido da produção intelectual de um autor a partir de sua biografia pode-se cometer simplificações grosseiras, mas ignorar a trajetória pessoal, em determinados casos, pode se transformar numa falha bastante grave. Quando se trata de Edgar Morin, apresentar obra ignorando o contexto histórico e pessoal elimina-se uma peça importante do quebra-cabeça complexo que é a vida e obra do autor. Na realidade, a vida e a obra de Morin, fazendo uma analogia com seu próprio pensamento, funciona como dois sistemas em constantes retroações.
O caso de Edgar Morin possui uma peculiaridade: além dos seus ‘interpretes’, os que se fizeram seus leitores, estudiosos e biógrafos, o próprio autor – em VIDAL E OS SEUS e emMEUS DEMÔNIOS, por exemplo –, se encarrega de fazer estas relações biobliográficas.
Edgar Nahoun nasceu em 1921, no oitavo dia do mês de julho em Paris. Filho único de um casal de judeus sefarditas – descendentes de judeus expulsos da península ibérica no final do século XV. Filho de Vidal Nahum, nascido 1894 em Salônica, cidade grega, na época sob domínio otomano, e posteriormente naturalizado francês. Sua mãe Luna Beressi se constitui num capítulo a parte de sua existência. A imagem de sua mãe constrói-se para ele da fusão das lembranças imprimidas em sua mente até os dez anos de idade, quando esta morre. Ajudaram ainda compor o “desenho” de Luna, os traços desenhados pelo Pai e pela tia (irmã da mãe, que casa com seu Pai) que assume sua educação. Sobre a presença de aspectos biográficos em seus estudos, o estudioso da obra de Morin, Heinz Weimann, assim manifesta:
Longe de serem independentes, a autobiografia subjectiva e os estudos sociológicos, antropológicos, objectivos encontram-se na interface entre a vida e obra de Edgar Morin. Mostrando, assim, a unidade complexa, unitas multiplex, entre a subjectividade da autobiografia e a objectividade dos ensaios e dos estudos, entre o vivo do sujeito e o vivo do objecto, explicando como essa subjectividade se infiltra na objectividade, uniremos o sujeito e o objecto de Edgar Morin na unidade da sua vida e da sua obra. A relação parasitária entre a águia e o Prometeu gideano é um modelo da intricação complexão da obra e da vida de Edgar Morin (WEIMANN apud, BIANCHI, 2001, p. 43).
No mito de fundação da personagem Edgar Morin, a impossibilidade do seu nascimento, uma doença colocava em risco a vida de sua mãe se esta engravidasse, era um dado impeditivo de sua sobrevivência, mas um improvável evento permitiu que tanto ele quanto a mãe sobrevivessem. O risco de morte que a mãe corria pela gravidez que conduziu ao seu nascimento, foi uma memória que o fustigou incessantemente, quando tornada consciente. Sua mãe tinha um grave problema no coração, o que a impedia de ter filhos. Luna que escondera a gravidez do marido e Edgar nasceu em difíceis condições, estrangulado pelo cordão umbilical, tendo sido preciso muito esforço do médico para que conseguissem arrancar-lhe o primeiro choro.
Ainda decorrente dos problemas de saúde que a impediam de engravidar, morre, Luna Nahum, quando Edgar tinha apenas dez anos. Este fato, independente do que se pode depreender dele na sua obra de Morin, é extremamente valorizado pelo autor quando reflete sobre sua vida. Ficando aos cuidados do Pai e de uma tia, Corina (com quem posteriormente o Pai se casará) ele vai cada vez mais se afastar do mundo e mergulhar na literatura e, mais tarde no cinema, como uma forma de fugir ao compromisso de participar das relações familiares.
Impõe-se, agora, que eu tente compreender a minha compreensão geral que me reexamine para concluir a origem do meditador. Eu nasci morto. A minha mãe tinha uma lesão no coração e qualquer gravidez corria o risco de lhe ser fatal. Assim que se viu grávida, ela ingurgitou clandestinamente produtos abortivos aos quais eu resisti [...]. nasci sentado, estrangulado pelo cordão umbilical, sem respiração. Foi precisa meia hora para que o doutor S., que me segurava pelos pés e me esbofeteava com toda força me arrancasse, o primeiro grito (MORIN apud BIANCHI, 2001, p. 21).
A verdade sobre a perda da mãe não é colocada claramente ao menino gerando-lhe uma vaga esperança de retorno. Bianchi conta como foi o dia da morte
da mãe, quando apenas com o silêncio dos adultos, do pai especificamente, fez ele compreender que havia tido a maior perda de sua vida.
Mais adiante, é a place Martin-Nadaud e suas encostas nervosas onde brincava a criança, nesse dia de Junho, enquanto a mãe era enterrada ali ao lado, por detrás do muro do Pére Lachaise que os arbustos escondem. A criada levara-o a brincar ali; quando viu surgir repentinamente dois sapatos e as calças pretas do pai, compreendeu tudo num relâmpago de catástrofe interior, enquanto que o pai, quanto a ele, nada lhe dizia, a não ser a interdição de brincar no relvado: «Não fiques aí a brincar na relva.» e a criança resmunga, rabugenta, atravessada por essa verdade que lhe é roubada e, por sua vez, porque ninguém lhe falou, recusará durante anos falar desse luto impossível de que lhe é impedido socorrer-se. Nas semanas que seguiram, a tia Corine, a irmã da morta, será encarregada de lhe dizer que, por vezes, há pais que desaparecem no céu, quando os filhos lhes causam penas. Alguns voltam, outros não. Mesmo na escola, ele nada diz, mas procura ainda hoje em vão, no fundo de si mesmo, a voz da mãe, de que se recordam com tudo aqueles que a reconheceram (BIANCHI, 2001, p. 18).
Estes episódios são narrados por Edgar Morin em VIDAL ET LES SIENS e
analisados Heinz Weinmam, que enfatiza o processo de mitificação interior da mãe que se operou na criança, e que o acompanha pelo resto da vida e vai estar presente de algum modo na atividade intelectual. Um último aspecto, que de certa forma, dá os contornos trágicos, no seu sentido forte da palavra, como os gregos vivenciavam, é o fato do pai, ao sair do sepultamento e ver o filho brincando na praça, diante do cemitério. Vidal, não sabendo que o filho não havia sido avisado da morte da mãe, desgosta-se ao vê-lo indiferente ao acontecido. O menino, ao mesmo tempo, reprime as lágrimas talvez uma forma de se contrapor ao silêncio sobre a morte da mãe.
A partir disto esconde seus soluços e aprofunda cada vez mais sua solidão. A literatura e o cinema, como já foi dito, passarão a constituir-se a partir daí, suas mais freqüentes companhias.
O meu amor pela leitura veio desde os primeiros anos, em que tinha devorado a condessa de Ségur, a coleção Nelson, os romances em que os heróis são animais, como Michael chien de cirque ou Corc Blanc. A minha paixão pela leitura exarcebou-se depois da morte da minha mãe e eu mergulhava no imenso universo romanesco. “Eu lia romances quase initerruptamnete, em casa à mesa durante as refeições, na cama, no metrô, protegendo-os com um porta-canetas ou escondendo-os nos joelhos (MORIN apud BIANCHI, 2001, p. 46).
A ausência da mãe e a presença da tia – que Morin via como querendo tomar o lugar daquela (Luna) – ao lado do seu pai, compunham a não-família de Morin. Mesmo morta, o desejo da mãe de vê-lo como um homem das letras, se impôs ao desejo do pai que não conseguiu conduzir o filho para atividade comercial. Vidal não conseguiu realizar o sonho de colocar diante do seu negócio a placa Nahum e filho.
Os anos de escola serão importantes para Morin tomar consciência de que era diferente dos outros, para alimentar a consciência de si mesmo. A indeterminação de sua condição levou a afastar-se de todos: “eu não tenho cultura”, afirmava. A cultura salienta ele no sentido etno-sociológico do termo. Foi na escola que, judeu, fez-se Francês para depois Nahum fazer-se Morin.
Nos bancos da escola, enraízo-me à história de França e incorporo-me a Vercingétorix, Joana d’arc, Bouvines e, à Revolução e a Napoleão. Le Chant du départ e Le revê passe, mas então, enquanto por um lado recuso deixar-me integrar numa família, recusam-me a hóstia da integração na família nacional. Para os outros, eu sou o dissemelhante, o judeu. Não rejeitado, mas subtilmente mantido a margem do ponto ontológico da identidade comum. Descubro a minha diferença, sem conseguir, durante muito tempo, compreendê-la, concebê-la e desde logo sou marginal, isto é, com um pé aqui e outro lá, neomarrano, isto é, filho dum sincretismo cultural entre o mundo judeu e o mundo gentil, mas um tanto estranho a um e a outro (MORIN apud BIANCHI, 2001, p. 27).
A década de 1940 – dos 19 aos 29 anos de Morin – é vital para a formação política e intelectual do autor. O mundo vive a Guerra e o pós-guerra; o Nazismo tem seu ápice e declínio; a França é invadida pelos nazistas e uma articulação de políticos e de intelectuais constituem a oposição à ocupação e Morin participa desta “resistência” ativamente. Estes fatos vão contribuir decisivamente a adesão de Morin ao marxismo e, também, ao Partido Comunista Francês. Tanto a adesão teórica quanto a militância no PC francês ocuparam poucos anos de sua vida; entendeu com o tempo que ambas acabavam constituindo-se em limitadores da liberdade e do diálogo necessários.
Morin mostra sua discordância e a dificuldade de adesão incondicional ao pensamento e a pratica de esquerda, pois a idéia de classe trabalhadora era destituído de subjetividade, de afetividade, de amor, de loucura, de poesia. Era essencialmente um homo faber e economicus. Sobre este aspecto, Carvalho (2004) assim se refere:
Sua adesão ao ideário contido na utopia revolucionária era nessa época irreversível, mesmo que depois a auto crítica ao realismo socialista e, principalmente ao Stalinismo seja contundente. Nos Manuscritos econômicos-filosóficos, fonte de inspiração de sua antropologia geral, soube extrair a universalidade da condição humana, assim, como as bases cosntitutivas do homem genérico, que não separa a natureza da cultura (CARVALHO, 2004, p. 14).
Nas palavras do próprio Edgar Morin, a crítica à dialética marxista faz-se a partir da ênfase na noção de superação.
(...) a síntese dialética, certamente, um momento privilegiado, mas de modo algum merece ser inflada como um balão. Muito mais do que síntese, o termo essencial e fecundo da dialética é a superação. Principalmente porque as contradições humanas essenciais nunca encontram sua síntese, mas são, podem ser, cotidianamente superadas, sem todavia se suprimirem (MORIN, 2004, p. 29).
Apesar de “superar” o marxismo, Morin não descarta Marx, ele o coloca juntamente aos grandes pensadores da nossa cultura. O autor de O Capital, deixa o trono das ciências humanas para se tornar mais um cidadão-autor nas assembléias do conhecimento.
Do final da década de quarenta do século XX até nossos dias a incessante produção intelectual de Edgar Morin acumula dezenas de obras que se estendem por vários campos do conhecimento: a antroposociologia fundamental, a cultura de massa, a política, a educação e o ciclo de O Método. Com o objetivo de estabelecer alguma ordem nesta vasta produção, na medida em que o pensamento e obra de Edgar Morin já se prolongam por quase cinco décadas – estando ainda inacabada – procura-se, a seguir, fazer um apanhado dos principais temas e conceitos discutidos até então. Os estudiosos da obra de Edgar Morin têm, para efeito de analise, dividido-a em diferentes momentos, de acordo com diferentes critérios. De acordo com os interesses desta pesquisa, a produção morineana é dividida em três momentos, que obedece, também, a um critério cronológico: 1) as obras que antecederam a O Método (1946-1977), 2) a saga do Método (1977-2004) e 3) obras pós-método, escritas após o início de O Método, mas sem fazer parte deste. Antes de se dedicar especificamente a apresentação do conjunto de obras que formam O
Método, é importante detalhar alguns aspectos das obras situadas nos anos 50 e 60
e parte dos 70, pois é só em 1977 que é publicado o primeiro volume de O Método: