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Houve a preocupação de captar uma cena do princípio ao fim e tentar neutralizar ao máximo o impacto da presença da observadora. De início, houve momentos de estranheza, no decorrer dos dias foi-se criando um processo de naturalização da presença.

Procurou-se não estar permanentemente a fazer o registo e não ser inibidor do comportamento dos observadores, com o intuito de ter um acesso à ação pura, real, que aconteceria sem a presença da observadora.

Foi fundamental manter o foco nos pontos que interessava investigar, preestabelecidos no guião de observação. O objetivo é compreender o modo como as ajudantes cuidam, encontrar momentos de observação que nos ajudem a encontrar dissonâncias entre o discurso apresentado na entrevista e a prática. As pessoas são postas à prova na observação da realidade.

É na ação que as pessoas acionam as representações, por isso o foco foi confrontar o discurso com a ação, chegar à profundidade do real.

Adicionalmente, foram sendo produzidos pequenos registos de avaliação da observação, isto é, reflexões da observadora sobre aquilo que observava, as impressões sobre a maneira como a minha presença condicionava ou não a «naturalidade» da situação real, os dilemas que sentia para legitimar a minha presença, os momentos em que, como observadora, era chamada a «participar».

Ao longo dos dias, procurei adotar uma atitude discreta, naturalizar a sua presença, ser agradável e simpática. Todos os residentes foram informados pela diretora acerca da sua visita aos diferentes espaços do Lar. O excerto seguinte deixa-o antever:

A auxiliar pergunta-lhe, «Já sabia que esta senhora vinha?», a residente afirma, «Já, já», a auxiliar pergunta, «Quem é que lhe disse?», a senhora responde, «A Doutora» (Obs.14).

Nos quartos, a maior parte das vezes a observação foi realizada no exterior dos quartos, junto à porta, o que permitia visualizar a prestação de cuidados, escutar os discursos dos intervenientes e proporcionar alguma privacidade aos residentes.

Ainda assim, é provável que alguns residentes sentissem por vezes receio de passar uma imagem negativa de si próprios, como a Sr.ª Margarida deixou transparecer em relação à minha presença:

«A auxiliar retira uma pomada da gaveta da mesa -de-cabeceira, «Agora temos de ir ver aí de um cremezinho», «Não puxe tanto para cima... Assim». A residente olha para mim e diz, «Esta senhora há-de dizer assim, «Ah, esta preguiçosa…», a auxiliar responde, «Não diz nada» (Obs.15).

Os residentes do sexo masculino revelaram-se mais constrangidos com a presença da observadora. Assim, não entrei nos seus quartos durante os cuidados prestados pelas ajudantes, porque percebi que muitos deles ficavam desagradados com isso.

A situação é curiosa, porque normalmente os homens não têm pudor em mostrar o nu, têm orgulho da sua virilidade. Na fase da velhice, porque os seus membros sexuais perderam o vigor, é compreensível que queiram ocultar a redução física e sexual que sofreram. Este é um facto difícil de viver na velhice e difícil de assumir, é como se tivessem perdido uma parte da sua identidade. Refira-se que mesmo com as ajudantes, alguns residentes procuram ocultar a zona íntima, certamente pelo mesmo motivo.

Nas salas de estar, os residentes manifestaram vontade de conversar comigo, de saber quem era, o que estava a fazer ali. Nessas ocasiões, procurou-se ter uma atitude simpática mas distante, de modo a não fazer sentir a minha presença e a manter uma atitude não participativa na Instituição.

Relativamente à influência da presença da observadora na atuação das ajudantes e auxiliares, por vezes pareceu haver alguma contenção nas respostas dadas a residentes. Também aconteceu, por exemplo, uma residente sugerir que a auxiliar lhe passava um creme no corpo apenas pelo facto de estar a ser observada:

«Agora pomos aí uma data de creme e espalhamos creme», afirma a auxiliar, que faz a higiene íntima da senhora deitada na cama e coloca -lhe pomada nessa área,

pelo que a residente afirma, «Ainda nunca me tinha posto aí nada… Não faz mal»

(Obs.10).

Houve uma encarregada de setor que se aproveitou da presença da observadora para criar situações que colocavam em causa a qualidade da prestação de cuidados de auxiliares a residentes. Com isto, notou-se que algumas colaboradoras se mostraram apreensivas relativamente aos registos da observadora, com receio de que estes as prejudicassem profissionalmente.

Pode-se afirmar que na mente das colaboradoras havia a perceção de que estavam a ser avaliadas nos momentos de observação, como demonstram as notas seguintes:

A residente olha para mim com olhar interrogador, a ajudante diz-lhe, «É uma senhora que está a ver como é que eu trabalho», «O que é que acha, trabalho bem ou mal?», a utente responde, «Trabalha bem», a ajudante diz-lhe, «Ah, assim é que eu gosto de ouvir» (Obs.12).

A ajudante diz à utente, «Hoje tem cá visitas, tem que se portar bem», «Muito bem», reforça (Obs.12).

(…) A auxiliar diz-lhe, «Deixa-me lá limpar-te, deixas?», «Aquela senhora vem a ver se a gente se porta bem, se te portas bem» (Obs.15).

Importa referir que houve ocasiões em que a observadora teve uma atitude colaborante com as auxiliares na prestação de cuidados, em sinal de solidariedade com as mesmas. Por exemplo, uma auxiliar tem medo de andar de elevador, por isso a observadora ofereceu-se para acompanhar os residentes na viagem de elevador e conduziu um senhor de cadeira de rodas até à sua mesa no refeitório (Obs. 8). Noutra ocasião, uma auxiliar levava pelas mãos uma residente da cama para a casa de banho, com muito esforço físico porque a utente estava sem forças essa manhã, pelo que a observadora prestou auxílio no momento. Mais decisiva foi a ajuda que prestou minutos depois, quando uma residente estava sentada na cadeira de banho a ser vestida pela auxiliar e quase sofria uma queda, se não fosse alcançada pela intervenção da observadora e da auxiliar (Obs. 17).

As ajudantes manifestaram curiosidade sobre o livro que eu andava a escrever, disseram-me que gostariam de o ler, perguntaram se ia ser publicado (Obs.8). Na maioria das situações, as ajudantes gostaram de se sentirem alvo de atenção, porque sentiram que a sua atividade profissional estava a ser reconhecida, valorizada.