• No results found

O PPSUMMERING I LYS AV PROBLEMSTILLINGEN

KAPITTEL 5 AVSLUTNING

5.1 O PPSUMMERING I LYS AV PROBLEMSTILLINGEN

Sordidissimes (2005h) faz parte da série Dernier Royaume, iniciada em 2002. Esse livro trata da figura do “sordidíssimo” sob várias vertentes. Aqui, o sórdido é contemplado tal qual um caleidoscópio, visto que o objeto sórdido apresenta-se como objeto sujo, malcheiroso, indigno, sagrado, precioso ou velado. Vale lembrar que as elaborações lacanianas em torno do conceito de objeto a constituem o ponto a partir do qual Quignard vai tecer, nesse livro, suas considerações, seja sob forma reflexiva, seja pelo relato ficcional.

O pensamento de Georges Bataille, sobretudo algumas teses desenvolvidas em A parte

maldita (1967), também teve influência sobre a obra de Pascal Quignard. As contribuições de Bataille no campo da literatura, da filosofia, da economia, entre outros, foram objeto de

113 Vale lembrar que o tema da “forma saída da sombra”, ou da noite, faz parte do leque de predileção de

Quignard. Nesse sentido, remeto o leitor ao ensaio de Pascal Quignard sobre o pintor Georges de La Tour La nuit et le silence, Georges de La Tour. Paris: Flohic, 1995.

114 “[...] les gueux, les laboureurs, les coureurs de vase, les vendeurs de palourdes, de sourdons, de crabe, de bars

tachetés, des jeunes femmes qui se déchaussent, des jeunes femmes à peine habillées qui lisent des lettres ou qui rêvent d’amour, des servantes qui repassent des draps, tous les fruits mûrs ou qui commencent de moisir et qui appellent l’automne, les déchets des repas, des beuveries, des tabagies, de joueurs de cartes, un chat léchant son bol d’étain, l’aveugle et son compagnon, des amants qui s’étreignent dans des différentes postures ignorant s’ils sont vus des mères qui font téter leur petit, des philosophes qui méditent, des pendus, des chandelles, les sombres des choses, les gens qui urinent, d’autres qui défèquent, les vieux, les profils des morts, les bêtes qui ruminent ou qui dorment.”

leitura do escritor, que atribui importância maior à obra do pensador francês. Apesar de ter sido muito próximo da vanguarda parisiense das décadas de 1930 a 1950, Bataille era visto como uma personalidade marginal e soturna, considerado maldito por muitos escritores e artistas de sua geração, como Sartre e Breton. Há ressonâncias entre o tema do “sordidíssimo” desenvolvido por Quignard e a análise histórica e social feita por Georges Bataille, para quem a vida social impõe interdições sobre a morte e a sexualidade, uma vez que são considerados fatores de desordem, polos contraditórios com a vida social. A ideia de transgressão é, assim, o eixo sobre o qual gira a obra ficcional, a interpretação da História e da sociedade, a experiência mística e a concepção de literatura de Bataille. Considerando a importância que a obra de Bataille representou para a produção de Quignard, perguntamo-nos se La haine de la

musique (1994b), de Quignard, não deriva diretamente de La haine de la poésie (1947), de Bataille.

É preciso mencionar que Dernier Royaume retoma a fórmula dos Petits traités, publicada ao longo da década de 1990. Conforme esclareceu Pascal Quignard, os Petits traités são um gênero inventado por Pierre Nicole115 para se contrapor aos Pensamentos de Pascal, obra que Nicole julgava muito “solta”. Trata-se de um gênero literário que admitia a coexistência de posições diferentes ou opostas numa mesma obra. Saint-Évremond116 retomou essa forma que existe praticamente apenas na literatura francesa e que tem como modelo os

Ensaios, de Montaigne (1533-1592). Quignard afirma ter se apaixonado por essa forma de escritura:

É uma forma estritamente individual comparada ao mito coletivo. São restos inclassificáveis com relação ao curso da História, é uma forma que acolhe o que é esquecido. São pequenas coisas na fronteira do mundo [...]. É o que o discurso ou a norma deixam cair para serem justamente discurso ou norma. É a hospitalidade dada ao mais estrangeiro [...]. Mais modestamente, eu diria que esses Petits traités são a rebarba do que me interessa (QUIGNARD, 1997, p. 1)) 117.

115 Pierre Nicole (1625-1695) foi um teólogo francês que viveu no século XVII. Ele foi também um dos

principais autores jansenistas.

116 Charles Marguetel de Saint-Denis, senhor de Saint-Évremond (1614-1703). Moralista e crítico libertino

francês.

117 “C’est une forme strictement individuelle par rapport au mythe collectif. Ce sont des rebuts inclassables par

rapport au cours de l’Histoire, une forme que recueille ce qui est oublié. Ce sont des petites choses à la frontière du monde [...]. C’est ce que laisse tomber le discours et la norme pour pouvoir être justement discours ou norme. C’est l’hospitalité au plus étranger [...] Plus modestement, disons que ces Petits traités sont les copeaux ce ce qui m’intéresse.” (Cf. http://www.gallimard.fr/catalog/entretiens/01032030.htm )

Na série Dernier Royaume, Quignard conserva a forma dos Petits traités, mas ele introduz algo novo: a biografia e, sobretudo, o conto. É segundo essa perspectiva, portanto, que examinaremos as figuras que o “sordidíssimo” toma em Sordidissimes.

A cena que abre o livro Sordidissimes é perturbadora. Parada no semáforo, uma mulher vê seu ex-marido mendigar. O homem se aproxima e, suplicante, estende-lhe as mãos. Ela fica confusa, sem saber se se trata realmente de seu ex-companheiro. Transtornada, acelera o carro e se vai. Ao voltar para casa, fica doente e é atormentada pela dúvida: “Por que não falei com ele? Seria ele mesmo? Não seria, antes, alguém parecido com ele? Será que ele tinha um irmão que não conheço?” (QUIGNARD, 2005h, p. 8).118 A mulher voltará várias vezes àquela rua. “A cada vez, ela fica exatamente diante do toldo de ferro contra o qual o mendigo estava apoiado. Ela fica horas nessa rua. Ela não o encontra” (QUIGNARD, 2005h, p. 8).119 Essa cena inaugural deixa o leitor no suspense de um tempo ao qual a mulher não deixará de voltar: sempre no mesmo lugar. Uma volta vã.

A personagem retorna inúmeras vezes ao mesmo lugar, retorno que foi desencadeado por um detalhe sórdido, ou seja, a figura do mendigo encarnada pelo homem. Entretanto, parece-nos que Quignard não está contando o começo de uma história; a escrita, aqui, presentifica o rateamento mesmo do objeto; com seu relato, o autor tenta circunscrever um objeto que, estando fora da cena, causa-a.

Em latim, sordes significa sujeira. Tal é o tema do capítulo IX de Sordidissimes. Segundo Quignard, os sordes definiam os farrapos do luto na Roma antiga. Os enlutados não se podiam lavar: não limpavam as próprias mãos, os dentes, o sexo. Eram intocáveis inclusive às próprias mãos. Os sordes dos enlutados (os farrapos do luto) equivaliam às mortalhas dos mortos. Quignard declina as acepções que a expressão sordes tomava: Sordidi quer dizer repugnantes; a pintura era considerada uma arte sórdida (sordidae), em oposição às artes liberais; Favorinus teria sido amador de coisas vis (sordidae); Albúcio dizia que seu pensamento se voltava para objetos totalmente indignos (sordidissima); Sêneca, o Velho, dizia que o estilo de Albúcio era brilhante e que ele tratava, ao mesmo tempo, das coisas mais comuns (sordidissimas). Objeto repugnante, indigno, vil e comum: esses aspectos do objeto sórdido estariam, para o autor, associados à nossa origem, à animalidade que se encontra em nossa raiz; eles não romperiam com a comunidade natural.

118 “Pourquoi ne lui ai-je pas parlé? Comment cela est-il possible? Mais est-ce bien lui? N'est-ce pas plutôt une

ressemblance? Avait-il un frère que j’ignore?.”

119 “Chaque fois elle se tient exactement devant ce cerceau de fer contre lequel le mendiant était appuyé. Elle

Trataremos particularmente da leitura que Pascal Quignard faz do conceito lacaniano de objeto a no capítulo dedicado às relações do escritor com a psicanálise. Contudo, vale dizer desde já que o conceito lacaniano é que constitui, por excelência, o eixo que orienta o livro

Sordidissimes. A escritura de Quignard nesse volume contempla esse objeto suscetível de ser apreendido apenas mediante os seus vestígios, os traços que deixa. Assim, uma mancha, um resto, um véu, um dejeto, um fio, o nada, são convocados pelo escritor para evocar a dimensão, ao mesmo tempo sórdida e agalmática, do objeto. Em uma passagem poética, o próprio corpo é o lugar da vida e da morte, do luto e do renascimento. Quignard:

[...] Pode ser que o objeto pequeno a também seja vermelho. Vermelho é a cor que resulta do enrubescimento.

É a cor que invade o sexo masculino quando ele intumesce. É a cor sexual.

É a cor que cobre as faces e invade todo o rosto na vergonha sexual. É a cor do sangue vivo.

É a cor da hemorragia mensal das mulheres. É a cor dos ferimentos mortais das presas vivas. Como o vermelho é a cor dos processos sexual e mortal, ela é essa da metamorfose.

Foi a cor que caracterizou o sacrifício:

todo sacrifício despedaça a presa em meio a seu sangue. Foi, durante milênios, a cor dos mortos:

o ocre-avermelhado com o qual se pintavam os ossos

depois de tê-los desenterrados para que revivessem e se provessem novamente de carne nos descendentes.

É a cor da inumação.

É a cor quotidiana sob a qual o sol se abaixa no horizonte

e apaga, pouco a pouco, a claridade sobre a terra (QUIGNARD, 2005h, p. 72- 73).120