Ainda durante o regime militar, o cinema brasileiro já tratava do tema da ditadura militar no País, como em Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967), O Desafio (Paulo César Saraceni, 1964) e A Derrota (Mario Fiorani, 1966). Mesmo com o aumento da repressão e censura o cinema nacional continuava a tratar de período militar, mesmo que de maneira alegórica. Nos anos 1990, a ditadura continua sendo representada no cinema e dentre os filmes ambientados durante o período militar ou após a ditadura, mas em que ela tendo importância fundamental na película, temos Alma Corsária (Carlos Reichenbach, 1993); Lamarca (Sérgio Rezende, 1994); O que é isso
companheiro (Bruno Barreto, 1997); Ação entre amigos (Beto Brant, 1998); Dois Córregos (Carlos Reichenbach, 1999); A terceira morte de Joaquim Bolívar (Flávio Cândido, 2000); O Príncipe (Ugo Giorgetti, 2002).
Mesmo que todas as películas citadas tratem do tema ou façam referências à ditadura militar brasileira, elas não serão todas trabalhadas, de forma que, para que sejam analisadas as questões pertinentes ao presente
estudo, foram escolhidos os filmes Lamarca, O que é isso companheiro,
Ação Entre Amigos, A terceira morte de Joaquim Bolívar e O Príncipe, por
esses filmes terem a ditadura militar como fundamentais nos seus enredos.
Dóis Córregos e Alma Corsária, fazem sim menção ao regime militar; porém,
para o desenrolar de suas narrativas, a ditadura é um detalhe, no caso de
Dóis Córregos, e um período de tempo na amizade no caso de Alma Corsária.
Em Lamarca, temos a representação da vida do capitão do exército Carlos Lamarca. Tendo desertado para entrar em um grupo de resistência armada à ditadura militar, o foco do filme é o período na clandestinidade. Entretanto, alguns acontecimentos que o levara a entrar para a militância de esquerda são narrados em flashbacks durante todo o filme. Ao mostrar uma figura forte, honesta e cheia de ideais, Lamarca traz toda a angústia e renúncia de um pai de família bem sucedido no exército, que abandona tudo por suas convicções revolucionárias.
O que é isso companheiro? é, sem sombra de dúvidas, o maior
sucesso de público dentre o grupo de filmes estudados, tendo sido visto por cerca de 270 mil pessoas. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998, narra os acontecimentos desde o planejamento do sequestro do embaixador norte americano no Brasil Charles Elbrick, por uma organização de esquerda, até a sua libertação em troca de prisioneiros políticos do regime militar. Baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, a película narra acontecimentos verdadeiros a partir do ponto de vista de Gabeira, personagem principal da história, com características de filmes de ação e a boa qualidade técnica com destaque para a coprodução com a norte- americana Miramax foi o destaque em bilheteria dentre os filmes que abordaram o tema da ditadura.
Ação Entre Amigos narra a história de quatro amigos que se
encontram regularmente para pescar. Antigos militantes de uma organização de esquerda, um deles descobre onde vive atualmente um antigo torturador que foi o responsável pela tortura de alguns deles e pela morte da esposa de um dos amigos. Ao longo de questionamentos e conflitos dentro do próprio grupo sobre o que fazer com essa informação, os amigos decidem que irão
se vingar do torturador. Um filme com um cunho detetivesco e final trágico,
Ação Entre Amigos questiona a validade de “desenterrar o passado”.
A terceira morte de Joaquim Bolívar é um filme bem diferente dos
outros filmes estudados e dos demais produzidos durante os anos 90. Uma película dividida em três atos, ela trata especificamente de política ao contar a história do barbeiro Joaquim Bolívar que chega à cidade de Burruchaga e entra em conflito com Gaudêncio, o coronel local, sobre vários temas nacionais. O filme narra três histórias diferentes que se passam em 1964, 1979 e na década de 90. Três histórias diferentes, mas com relação entre si e com os mesmos atores representando os mesmos personagens nos três períodos diferentes, o filme traz as mudanças ocorridas com o posicionamento político do seu personagem principal.
O Príncipe trata da volta de Gustavo ao Brasil após mais de 20 anos
em Paris. Antigo militante estudantil, Gustavo volta para tratar de problemas familiares e tenta reencontrar os antigos companheiros de militância e principalmente Maria Cristina. Bastante nostálgico, O Príncipe traz o estranhamento do personagem principal ao reencontrar seus amigos e perceber as enormes mudanças ocorridas com cada um deles. As transformações pessoais e de visão de mundo de cada um dos seus antigos companheiros são emblemáticas. A nostalgia de Gustavo e sua desolação ao constatar as grandes mudanças na cidade de São Paulo e nos seus companheiros são claras e levam o personagem principal e voltar para Paris no final do filme.
A escolha desses títulos em especial se dá pelas suas ambientações, com exceção de O Príncipe, todos se passam durante o período da ditadura militar; pela abordagem do tema, seja a ótica de uma solução individual ou coletiva para o Brasil, ou ainda a não apresentação de soluções; pelas questões possíveis de serem levantadas a partir da interpretação desses filmes relacionando com o período de produção; pela possibilidade de relação feita com a anistia brasileira; e ainda, por contemplar todos os momentos da produção do cinema dos anos 90.
Uma película quando produzida tem seus argumentos e pontos de vista, sejam explícitos e ou implícitos. Os diversos filmes sobre o tema da ditadura militar vão constituindo assim uma variedade de pontos de vista
sobre o período, pontos de vista que se configuram como fontes para o estudo do historiador. Mesmo que os diretores ou produtores neguem que foram parciais ou políticos na realização de seus filmes sobre a ditadura militar, sabe-se que toda produção humana é atravessada por posicionamentos políticos, apesar do que afirmou o diretor Bruno Barreto em entrevista à Lúcia Nagib. Em suas palavras:
Sempre repudiei qualquer tipo de engajamento partidário ou ideológico, pois acho que isso é uma couraça, uma limitação para qualquer atividade criativa. Não tenho muito respeito por artistas politicamente engajados, que tem um discurso ideológico, acho isso extremamente pobre e limitador. 86
Sabendo que as opções políticas perpassam a produção cultural humana, a negativa de Bruno Barreto já é um indicativo de uma opção política. A negação da ação política não seria uma das características do período pelo qual o Brasil passou nos anos 90? O campo da produção cinematográfica, como já afirmado anteriormente, foi também reformado a partir do ideário liberal. Assim, filmes nacionais com opções ideológicas claramente contrárias ao modelo neoliberal, além de terem bastantes dificuldades em conseguir financiamento de empresas, também não alcançariam o respeito de Bruno Barreto. No âmbito político dos anos 90
(...) Os sonhos revolucionários foram arquivados, as utopias, diz-se, perderam a razão de ser. O socialismo real entrou em colapso, e, no plano ideológico, a leva de individualismo que varreu o mundo talvez se encontre apenas agora em começo de refluxo. Mas, no início dos anos 1990, parecia haver pouco espaço para qualquer tipo de reflexão coletiva sobre o real. As pessoas se ocupavam dos seus problemas particulares e o cinema deveria refletir a posição umbilical e narcísica de determinado momento histórico87.
Apesar dessa diminuição da “reflexão coletiva sobre o real” nos filmes dos anos 1990, os temas políticos aparecem nessa cinematografia, como os filmes que tratam da ditadura militar já citados, e ainda títulos como
Doces Poderes (Lúcia Murat, 1996) e O Sertão das Memórias (José Araújo,
2006). Mesmo que diminuídos em número em comparação com momentos
86 NAGIB, Lúcia. Op. Cit. P. 93
87 ORICCHIO, Luis Zanin. Cinema de Novo: um balanço crítico da Retomada. São Paulo:
do cinema nacional como o período do Cinema Novo, a presença do político é importante dentro do grupo de filmes dos anos 90.
Essa passagem dos temas coletivos para os individuais está bem representada no filme Alma Corsária. A película conta a história de dois amigos ao longo do tempo, Rivaldo e Teodoro, desde que se conheceram até a atualidade (os anos 90). Um filme poético sobre a amizade traz como um dos amigos o personagem Rivaldo Torres, que nos anos 60 e 70 era bastante engajado politicamente, tendo participado da luta armada contra a ditadura. Rivaldo, antes interessado em transformar o mundo pela ação coletiva, agora se dedica a transformar apenas sua vida pela ação individual. A mudança do escopo coletivo para o individual também está representada no filme A terceira morte de Joaquim Bolívar, quando na terceira parte, ou terceiro ato, da película, o personagem principal já renunciou a qualquer tipo de crença em ação coletiva. Onde antes havia a possibilidade de transformação há agora a tentativa de levar vantagem.
É fundamental que seja empreendida uma leitura crítica das obras fílmicas. Ao analisar todo um conjunto de aspectos extra fílmicos como entrevistas e matérias de jornais e revistas sobre cada um dos filmes em conjunto com características fílmicas, como argumento, técnica, linguagem, direção e roteiro, pode-se discutir a criação de sentidos para o período da história nacional.
É notável o esforço para dissolver fronteiras. Com isso, tenta-se afastar a necessidade de que o cineasta, atrás da câmera, e o espectador, em frente da tela, tenham de se colocar diante dos dilemas da época. Se todos os gatos são pardos, ninguém está certo e ninguém está errado, para que tomar posição? Em vez de reflexão, digestão. É a receita de uma época: a atual. Não era a dos tempos que o filme pretendeu tratar. (Franklin Martins)
CAPÍTULO 2 – A DITADURA NO CINEMA: PERSPECTIVAS E