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Todo dia, hora e instante, milhares de produtos são lançados no mercado, oferecendo diversos tipos de vantagens ao serem consumidos e gerando um verdadeiro fascínio coletivo. Esse tipo de comportamento social pode ser observado em todos os segmentos sociais. Diante de tal homogeneização, as reflexões trazidas pelos autores da chamada Teoria Crítica da Sociedade são capazes de fornecer subsídios para uma melhor compreensão acerca da formação cultural no contexto da sociedade administrada. Os intelectuais frankfurtianos negam-se a aceitar os irracionalismos do sistema capitalista, denunciando os instrumentos de controle social.
21 Adorno (1903-1969) e Horkheimer (1895-1973) esforçaram-se em interpretar a cultura na sociedade industrial. Ambos dispuseram elementos que evidenciam o poder exercido pela mídia sobre o sujeito e das possíveis consequências de tal atuação no que se refere à sua formação. Para eles, aquilo que aparentemente revela-se como um ambiente de liberdade e democratização, na verdade esconde um mecanismo de manutenção e propagação do domínio da ideologia das classes dominantes (ADORNO & HORKHEIEMER, 1985).
Já na década de 40, ainda num momento antecedente à massificação da televisão, os pensadores revelam a gênese alienante dos meios de comunicação para as massas ao apresentarem o conceito de “Indústria Cultural” na obra Dialética do Esclarecimento, datada de 1947. Os autores atentam para o processo de massificação do consumo da produção cultural ao estabelecerem relações entre produção material e a produção simbólica.
O que se pode perceber de mais essencial neste conceito é o processo pelo qual a mundialização da cultura atua: por meio da captura e conformação da consciência e da autonomia dos sujeitos, condicionados, por sua vez, por padrões socioculturais impostos pelos meios de comunicação para as massas. Deste modo, o capitalismo revela-se como forma de sociedade ou civilização que administra tudo conforme a sua própria racionalidade e que tem no lazer das pessoas uma forma de administração total.
Assim, os produtos oferecidos e considerados como culturais na indústria do entretenimento vão seguir o mesmo padrão das mercadorias lançadas nas linhas de produção das fábricas. O próprio indivíduo será submetido e engendrado pela máquina homogeneizadora na medida em que se torna “coisificado”. Isto porque, incapaz de operar sobre o seu próprio pensamento e com a possibilidade de experiência formativa travada, o sujeito é levado a equiparar-se às coisas, bem como considerar os outros também como coisas. Esse processo de debilitação do sujeito é denominado por Adorno como consciente coisificado (ADORNO, 1995).
No que se refere à aparente diversão, os autores denunciam para o fato de se tornar na indústria cultural o “prolongamento do trabalho no capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condição de enfrentá-lo” (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 128). Ao assistir um filme ou um programa televisivo, por exemplo, o sujeito quer apenas desligar- se do trabalho, esquecê-lo; no entanto, esse momento de entretenimento torna-se a
22 continuidade de um processo mecanizado sob a máscara da diversão. Ou seja, tal processo opera como um anestésico que torna mais suportável a permanência contínua na lógica da dominação.
Desta maneira, ao expor os seus objetos de desejo, a indústria cultural apenas incita o prazer, que nunca vai ser saciado. Ela propõe coercitivamente aos sujeitos falsas maneiras de realização dos seus desejos. Segundo os autores:
A indústria cultural não cessa de lograr seus consumidores quanto àquilo que está continuamente a lhes prometer. A promissória sobre o prazer, emitida pelo enredo e pela encenação, é prorrogada indefinidamente: maldosamente, à promessa a que afinal se reduz o espetáculo significa que jamais chegaremos à coisa mesma, que o convidado deve se contentar com a leitura do cardápio (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 115).
Com efeito, os indivíduos, na busca compulsória pela felicidade prometida, iludem-se na crença de que ao adquirirem mercadorias poderão obter os atributos propagandeados pelos comerciais da televisão. A publicidade torna-se a responsável pela divulgação de um modo de viver e pensar baseadas em posturas extremamente consumistas.
Nesse sentido, a indústria cultural corrobora para o processo de “antiemancipação” da consciência e da autonomia do sujeito, na medida em que promove a sua integração e conformismo. Segundo Adorno (2010), uma sociedade que adestra os indivíduos para a adaptação, subverte o processo formativo, algo que resulta em semiformação. Tal crise da formação cultural deve ser analisada por meio de fatores sociais e educacionais para que se possa compreender como se sedimenta uma espécie de espírito objetivo negativo (ADORNO, 2010, p. 9).
O conceito de formação (Bildung) amplamente abordado por Adorno é colocado como paradoxo à semiformação (Halbbildung). Para Adorno, o conceito de formação é apresentado como sendo a formação no seu sentido mais amplo, ou seja, aquela que permite ao sujeito autonomia, retirando-o do seu estado de coisa. Contudo, na sociedade administrada, no que se refere à Bildung, ela simplesmente “se converte em uma semiformação socializada, na onipresença do espírito alienado, que segundo sua gênese e seu sentido, não antecede a formação cultural, mas a sucede” (ADORNO, 2010, p. 9).
23 de mercado, acaba por atingir e liquidar a subjetividade humana. Assim, segundo Zuin (1999, p. 58):
[...] quando a produção simbólica se converte em mercadoria como outra qualquer, de tal forma que o seu caráter de valor se subordina autoritariamente ao seu valor de uso, então já se encontram estabelecidas as bases para a consolidação da semiformação. Esse fato pressupõe uma terrível comprovação: a democratização dos produtos simbólicos, em virtude do desenvolvimento das forças produtivas do modo de produção capitalista, revelou-se na verdade, uma pseudo- democratização.
Portanto, no domínio da indústria cultural, a lógica do equivalente espalha-se não só no processo de produção e reprodução, mas nas esferas da educação e da cultura. A formação humana é reduzida à preparação de mão-de-obra – subserviente e conformada – para o sistema. Ao assumir a função de cultura, a indústria cultural reduz a formação à condição de semiformação.
Em concordância com tais apontamentos, o texto Televisão e Formação, resultado de uma palestra radiofônica proferida por Adorno em 1965, apresenta importantes elementos para a análise da televisão no que se refere à propagação da semicultura. Ao destacar a televisão como poderoso instrumento de influência sobre a consciência dos indivíduos, Adorno revela o papel ideológico deste meio de comunicação. Nas palavras do autor:
Compreendo a ‘televisão como ideologia’ simplesmente como o que pode ser verificado sobretudo nas representações televisivas norte- americanas, cuja influência entre nós é grande, ou seja, a tentativa de incutir nas pessoas uma falsa consciência e um ocultamento da realidade, além de, como se costumava dizer tão bem, procurar impor às pessoas um conjunto de valores como se fossem dogmaticamente positivos (ADORNO, 1985, p. 80).
Deste modo, a televisão apresenta-se como ideologia de duas maneiras. Em primeiro lugar, através da sua programação que dissemina uma visão de mundo das classes detentoras do poder. Em segundo lugar, ao dominar a consciência das pessoas, visto que estas têm na TV a principal fonte de informações sobre o mundo. Para Adorno, esse caráter ideológico formal da televisão desenvolve uma espécie de vício televisivo, que se converte, pela sua existência, em único conteúdo da consciência. O que é
24 apresentado na televisão torna-se uma verdade inquestionável.
No entanto, Adorno não é tão pessimista quanto parece. Ele acredita que o conceito de formação adquire duplo sentido frente à televisão: por um lado, atrelado a fins pedagógicos através da Televisão Educativa, mas, por outro, vinculada a uma espécie de função formativa ou deformativa. Nas palavras do autor:
Gostaria de acrescentar que não sou contra a televisão em si, tal como repetidamente querem fazer crer. Caso contrário, certamente eu próprio não teria participado de programas televisivos. Entretanto, suspeito muito do uso que se faz em grande escala da televisão, na medida em que creio que em grande parte das formas que se apresenta, ela seguramente contribui para divulgar ideologias e dirigir de maneira equivocada a consciência dos espectadores (ADORNO, 1995, p.77).
Observa-se, dessa forma, que os exuberantes espetáculos televisivos acabam por se revelar como produções semiculturais que, reduzidas ao mero entretenimento, liquidam o pensamento crítico e reflexivo dos indivíduos. Por trás de uma aparência descompromissada, a TV desempenha um papel alienante e deformativo.
Mergulhado nessa cultura opressora e totalitária, o sujeito não consegue adquirir as condições necessárias para a reflexão crítica, visto que a indústria cultural reforça cada vez mais a desvinculação entre pensamento e questionamento da realidade. Como consequência, as reflexões trazidas por Adorno e Horkheimer demonstram o potencial destrutivo que essa cultura pode ter.
A discussão apresentada por Adorno, portanto, enfatiza a necessidade de se desvendar os elementos ocultos dos meios de comunicação para as massas. É preciso atentar-se para o fato de que, como arma ideológica, a TV apresenta modelos de estética e moral que são assimilados pelos sujeitos. Nesse sentido, inserida no contexto da indústria cultural, polo disseminador dos interesses políticos e econômicos, a TV desempenha o antigo papel de suporte para a manutenção do poder das classes dominantes.